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(Flashback) Quiero poder conocer a alguien con poder de hacerme feliz | Mia & Alek
A última vez que olhara-se no espelho fora decididamente o suficiente para uma vida inteira. Seus olhos estavam fundos, o maxilar e as maçãs do rosto muito mais salientes, porém uma boa quantidade de sua beleza angelical ainda estava intacta naquela face pálida e um pouco mais magra. O russo nunca se importou com a aparência, pelo menos não mais do que seria aceitável para alguém em seu ramo na sociedade. Ele gostava de roupas caras e confortáveis por certo, mas não dava muito valor a elas e isso era deixado bem claro para qualquer um pela imagem que apresentava desde que seus pés se aventuraram através daquela maldita porta vermelha do Doctor.
Os dias na cidade de Gael pareciam estarem sendo passados em câmera lenda por um DVD de última geração. A fome se apoderou se estômago há muito tempo, transformando-se em uma monstro que devora qualquer disposição ou resto de energia presente em seu corpo esbelto e levemente musculoso. Perdera alguns quilos pela falta de alimento, mas graças ao bom Deus ainda tinha muita massa muscular que não deixa tal reação tão aparente, e suas noites de sono também diminuíram. Se ele já não tinha um sono saudável e correto na Rússia, bom, as coisas realmente estavam graves atualmente ao qual ele já perdera a conta de quanto tempo estava acordado. Não sabia se era um problema dele próprio ou o fato das pessoas a sua volta, assim como os seus pensamentos, não pararem quietos um minuto. De qualquer maneira, Alek sentia em seu âmago que existia uma solução para recuperar suas energias e de se sentir renovado novamente. Deveria encontrar um local calmo, silencioso e confortável, onde pudesse ficar sozinho e aguardar que o sono viesse ao seu encontro pelo tempo que fosse. Por dias o russo procurou esse lugar majestoso por qual o seu eu tanto ansiava, até que o encontrou na noite anterior e se alojou ali até o raiar do próximo dia.
Estava no teatro quando seus olhos cansados e exageradamente azuis começaram a surgir aos poucos por detrás das pálpebras pálidas e preguiçosas que se erguiam. Suas costas reclamaram quando este tentou acomodar-se um pouco mais sobre as poltronas vermelhas e desconfortáveis do estabelecimento. Quanto tempo ele teria dormido desta vez? Um hora ou dez minutos? Não sabia dizer, mas era certo que tinha caído no abismo da inconsciência algumas vezes naquela noite e que algo sempre o puxava de volta para o teatro recém abandona de Gael. Aleksandr suspirou longamente, esticando os braços por sobre a cabeça a fim de se alongar um pouco e ouvindo as reclamações das várias juntas espalhadas por seu corpo. Por Hefesto! Ele parecia um robô enferrujado… E estava voltando-se para os deuses gregos? Por certo não existia explicação para seus pensamentos atuais.
Apoiou-se nas mãos para se por sentado sobre uma das poltronas em que anteriormente se deitara. Os olhos varreram o recinto ao redor: escuro, vazio e silencioso… Ou quase isso. Toc-toc-toc. Passos calmos de sapatos femininos eram produzidos por alguém atrás de si, bem próximo ao corredor principal do local de dramaturgia. Aleksandr se jogou de joelhos no chão empoeirado e espiou pela abertura entre os assentos no exato instante em que uma silhueta apareceu no corredor mais próximo de si. O russo observou mãos delicadas passaram calmamente sobre o tecido aveludados das poltronas a beira do corredor enquanto Mia descia lentamente os curtos degraus. Droga! Ele não estava preparado para ter companhia, ainda mais dela e na sua atual condição. Imediatamente, o Petrovich começou a procurar algo nos bolsos de seu jeans, até encontrar uma solitária goma de mascar ainda lacrada em um deles e parti-la em dois, guardando um pedaço para depois enquanto mastigava o outro.
“Quem está ai? Oi?” Mia perguntou para o nada. Ela pelo visto conseguira escutá-lo mastigando. Magnífico! Ele com certeza estava enferrujado em todas as suas funções, mas até que não mastigava tão alto assim. Tinha etiqueta como sua mãe costumava dizer. O russo revirou os olhos e, aproveitando a falta de atenção da ruiva que se colocara de costas para ele, ergueu-se sobre os pés e seguiu o mais silenciosamente possível para perto da mexicana. Lembrou-se da primeira e única vez que falara com Mia. Ela era uma garota legal que parecia já ter passado por muitas coisa em sua vida, assim como ele o tinha. Umedeceu os lábios, sentindo o gosto de menta tomar sua boca no instante em que subiu o ultimo degrau atrás da mulher e a mesma se virou em sua direção dando-lhe um forte esbarrão. “Hey!” Exclamou em protesto, mas segurou cuidadosamente ambos os braços de Mia para que ela não fosse de encontro ao chão por causa da força do impacto. “Tudo bem, Plyushko?” Perguntou permitindo que um sorriso divertido tomasse seus lábios por conta do sobrenome que usara. Não sabia se Mia iria entender a brincadeira infantil e estúpida, mas não se importou muito com isso. Afinal, não se recordava do sobrenome da ruiva, então usou o da sua modelo russa preferida (Daria Plyushko) que também era sua conhecida e que passara uma temporada na França, assim como a garota. “Não se prrreocupe. Peguei você.” Murmurou.
Ainda com os olhos fechados com força pelo medo súbito que lhe invadira, Mia sentiu um par de mãos tocando os seus braços finos com força, o que fez com que a garota sentisse vontade de gritar o mais alto possível. Antes que pudesse fazê-lo, no entanto, um tom de voz conhecido e aveludado adentrou os seus ouvidos, ao mesmo tempo em que um cheiro forte de menta batia contra as suas faces. Com o coração a ponto de pular pela boca, a mexicana se permitiu abrir as pálpebras lentamente e, sem se surpreender realmente, deu de cara com Aleksandr. Lembrava-se da vez que conversara a sós com o rapaz há bastante tempo atrás, ainda no insuportável episódio da tempestade que acabara por aprisioná-los no salão, e de outros momentos em grupos. Os dedos fortes porém não agressivos do russo contra a tez macia da garota recordavam-na da personalidade um tanto quanto rude do outro, mas que ainda assim ela apreciara. A melodia de seu filme favorito que Petrovich outrora tocara pareceu preencher sua mente imediatamente e um sorriso complacente tomou o seu rosto automaticamente.
– Eu morri? Isso aqui é o céu? – Questionou com a voz baixa, repentinamente se sentindo envergonhada por ter agido de modo tão idiota. Ainda que tivesse repetido a si mesma que de fato não existia motivo algum para se preocupar, agira como uma criança de dois anos preocupada com fantasmas. Mesmo que tivesse certeza que as suas bochechas tingiam-se de um vermelho indicador de sua timidez, tentou manter a postura séria, empurrando levemente Aleksandr pelo tórax para se desfazer do aperto do rapaz. – Você quase me matou de susto. – Confessou com uma risada nervosa, puxando uma mecha de cabelos muito vermelhos para detrás da orelha.
O jovem tinha sido bastante carismático ao encontrá-la e Mia admirara a piadinha pouco convincente que ele fizera sobre Daria Plyushko, mas a surpresa fora tanta que a ruiva mal conseguia gargalhar. Deixou-se cair sobre uma das várias cadeiras aveludadas do teatro, indicando o espaço ao seu lado ao garoto. A verdade é que estava extremamente cansada; pela primeira vez, não infeliz, mas sentia-se fraca. Não comia há dias e odiava perder o foco justamente num momento como aquele, mas seu corpo parecia começar a pedir por socorro. – Não sabia que você entendia tanto assim de moda. – Sorriu, alisando levemente a barra de sua saia. Estava feliz por ter escolhido um verde tão chamativo - era um sinal de que estava bem consigo mesma. As cores e a quantidade de mensagens que elas poderiam passar. – Posso perguntar o que você estava fazendo aqui? Você parece ter brotado literalmente do chão. – Indagou, virando o rosto para fitar Aleksandr nos olhos.
“This is not the end and won’t never be the end.”
As melhores histórias são aquelas que só começam quando você pensa que acabou
Dominick (via dominichronicles)
Finalização: Building a door | MiaxNatexMari
Mal poderia acreditar que aquilo estava acontecendo. Não haviam tido problema algum e tudo o que necessitavam estava a sua frente. Tanto que chegava a ser um tanto quanto suspeito. Acreditava que a parte mais difícil já haviam deixado para trás. Mediram com precisão as marcações da porta. Cortar, pintar e colocar a maçaneta. Só isso os afastava da volta à realidade. Adeus ao Doctor e a todos os outros que gostaria de nunca saber da existência. Não teria nem mesmo de se preocupar com coisas superficiais. Ou então se irritar por motivos bobos. Poderia, quem sabe, voltar a uma fase tranquila. Onde tudo se resumia em festas e diversão. Faculdade era algo que manteria longe de si no momento em que colocasse seus pés mais uma vez na Terra. Mal podia esperar pelo momento em que se encontraria com os outros e então tudo estaria acabado. Ele e Daniel voltariam à Irlanda, exatamente como tudo deveria ser. Deixaria de lado o pensamento sobre destino e afirmaria até seu último suspiro que Gael nunca seria seu lar. E todas as vezes que comparara a cidade a sua casa, não passara de bobagem. Tudo o que vivera ali não passaria de memórias de um pesadelo que um dia acreditou não ter fim.
Com a chegada da ruiva conseguiu se acalmar. A ideia do estilete havia parecido um tanto quanto absurda, mas aprendera a nunca duvidar de uma mulher. Assentiu entendendo as palavras de Mia. Tomou o machado em suas mãos e o ergueu alguns poucos centímetros acima da madeira para ter certeza de que não iria errar. O que menos precisava naquele momento era estragar todo o trabalho que haviam tido até chegar ali. Tentava imaginar o que os outros tiveram de fazer para conseguir tudo aquilo. Respirou fundo e permaneceu naquela posição por algum tempo. Ergueu o machado, somente o suficiente para cortar e não errar. O alivio o atingiu ao ver que o corte saíra exatamente como deveria ser. Olhou para as outras duas, satisfeito com tudo o que haviam feito. Prosseguiu com o trabalho, todo cuidado parecia ser pouco ali. Cortou, enxugou o suor da testa e continuou com a sequência repetidas vezes. A última machadada foi dada e só então se permitiu observar o quanto haviam progredido. Em algumas horas moldaram, cortaram e ainda sim se sentia em seu máximo. Nada o desanimaria ali. Voltou-se para Mia sorridente “Vamos acabar com isso.”
As coisas estavam correndo bem de uma maneira que Mariela não estava esperando. Não tinha uma noção de tempo boa o suficiente para saber quantas horas ficaram trabalhando; o importante era que agora estavam quase terminando e nem tinham demorado tanto assim. Ver o pedaço de madeira se tornar cada vez mais parecido com uma porta trazia uma forte e agradável sentimento de realização com o qual ela não estava acostumada. E ela nem havia sido verdadeiramente útil para o projeto ainda.
Quando Mia chegou, ela e Nate já tinham feito as linhas em seus devidos lugares. Ela não trazia exatamente um estilete, nem um serrote, mas felizmente o rapaz soube se virar com um machado.
Por um momento, ela desejou que pudessem ficar naquilo para sempre. Estava junto com outras pessoas, mas não se sentia incomodada. Estava com frio e cansada e com fome, mas conseguia se distrair o suficiente para deixar isso para lá. E não estava em casa, o que era o melhor de tudo… em que estado será que estava sua Venezuela? Encontraria Ricardo vivo? Ainda teriam muros vazios em seu bairro, os quais ela pudesse decorar com meia duzia de cores e desenhos improvisados? Ainda teriam crianças jogando futebol no meio da rua, ignorando a existência de Mariela enquanto ela passava pelo “campo” deles para chegar na mercearia? O retrato de Chavez, rabiscado de giz no asfalto diante de sua casa, ainda estava tão nítido quanto estava no dia em que a porta apareceu para ela?
Ela sorriu levemente, sem sequer perceber o movimento que seu rosto fazia. Ficou extremamente surpresa, até chocada, ao notar que, talvez, estivesse com saudades.
Acordou de suas lembranças quando seus parceiros chamaram sua atenção. Nate tinha feito um bom trabalho. Mia ainda terminava de lixar; mas tinha espaço o suficiente para Mariela e seus pincéis trabalharem. Pegou seu material e engatinhou para perto da porta. “Sem muitos detalhes”, lembrou para si mesma, enquanto mergulhava o pincel em tinta vermelha e arrastava as cerdas pela madeira imediatamente depois, repetidas vezes, até que todo marrom se tornasse vermelho.
Foi impressionante assistir de perto o trabalho de Nate com o machado - se não conhecesse pelo menos um pouco da história do irlandês, poderia jurar que ele trabalhava como lenhador na Terra. Talvez tivesse mesmo trabalhado, mas em outra vida, há muitos e muitos anos atrás. Cogitou a possibilidade de proferir essa hipótese em voz alta num tom que ia muito além do brincalhão, mas o clima parecia tenso demais para que perdessem tempo discutindo crenças e religião.
Assim como o rapaz, no início, Mia parecia extremamente insegura no que fazia. Tinha vontade de roer todas as unhas e logo depois arrancar os dedos fora, ou então fumar um maço inteiro de cigarros de uma só vez. Qualquer coisa que pudesse, de algum modo, acalmá-la. Com o tempo, no entanto, conseguiu relaxar, ao mesmo tempo em que repetia para si mesma que aquilo era exatamente como lixar as unhas, desconsiderando por completo o fato de que se errasse um aparentemente desprezível centímetro nunca mais poderia voltar para a casa.
Sem conseguir tirar os olhos de cada um dos mínimos movimentos de Nate, esforçou-se ao máximo para conter as mãos que tremiam e continuou a lixar a madeira com a maior delicadeza possível, tendo mais trabalho em partes que tinham saído um tanto quanto tortas e apenas alterando o acabamento nas que estavam dentro das medidas estabelecidas. Sorriu satisfeita quando todo o molde já tinha sido cortado, gastando mais alguns minutos em deixá-lo bem lisinho, ao mesmo tempo que Mariela iniciava a pintura. Eram ótimos em trabalho em grupo.
Afastando-se bastante das bordas, onde a venezuelana trabalhava com a tinta, entregou uma goiva para Nate e iniciou o seu trabalho com uma outra, demorando pouco menos de meia hora para esculpir todos os detalhes centrais da porta. Assoprou com força os resquícios da madeira que tinham se acumulado nos quadradinhos do centro, finalmente podendo perceber que tinham de fato construído a porta que Mia cruzara muito tempo atrás, na Austrália. A única coisa que faltava era o tom vermelho escuro que representava tão bem o portal. Levantou-se para observar o trabalho de cima, sentindo um aperto contínuo no coração enquanto Mariela pincelava com cuidado também o meio do projeto.
A liberdade de Mia finalmente tomava a sua forma definitiva. E ela não tinha ideia se estava feliz.
Confusion that never stops, closing walls and ticking clocks. - Ammy, Nate, Dan, Elektra, Domi, Élis, Trent, Eileen, Anabelle, Alek, Mari, Mia, Jess.
Acordou sem pressa. Se é que acordou. Cada vez mais era difícil diferenciar seus longos e entediantes sonhos - pesadelos? - da realidade. Se enfiou no vestido de lã, vestiu desgostosa a meia calça e calçou a primeira bota que viu no caminho. Ainda sem pressa deixou o quarto.
Mariela estava quase atrasada.. ou pelo menos, ela esperava que estivesse. Não tarde demais para interromper alguém e chamar atenção para ela, mas tarde o suficiente para ser uma das ultimas, assim poderia passar despercebida. Ela.. ela nem sabia porque ainda ia nas reuniões. Sua vontade de ficar em Gael era óbvia, seu interesse nos puzzles cada vez mais se perdia e seu desconforto com as outras pessoas não poderia ser maior. Ela nunca foi, nem nunca seria, útil em nenhuma daquelas reuniões. E ainda assim, ela ia.
Não tinha gente na rua nem gente no bosque. Era engraçado como todos conseguiam sempre ir sem se encontrar. Será que ela havia ido tarde demais? Segurou os cotovelos, enquanto adentrava a floresta, o rosto abaixado paras as pedrinhas no solo, não que estivesse prestando muita atenção nelas. Demorou pouco para encontrar a clareira que tinham lhe indicado. Conseguia ver silhuetas entre os galhos, mas não escutava nada; estavam todos tão quietos quanto Mariela.
Ela se aproximou, apoiou-se contra uma árvore e espiou a área. Tinha pelo menos uma dúzia de pessoas por ali. Aproximou-se mais, acanhada, sem se misturar muito. E esperou que falassem o que tivessem que falar.
Mia odiava sair de seu dormitório contra a sua vontade. Desconfiava estar frio lá fora e não suportava o fato de que teria que vestir um casaco simplesmente porque um grupo de três ou quatro pessoas resolvera importuná-la com teorias da conspiração. Tinha certa curiosidade de saber sobre o que falavam, é verdade, mas estava cansada. Desgastada. Se pudesse ficar o resto da vida debaixo das suas cobertas, provavelmente o faria.
Depois de alguns minutos resmungando sobre a vida e amaldiçoando todos os acontecimentos que obrigaram-na a socializar com outros habitantes, vestiu um conjunto de roupas monocromáticas e torceu para que fosse o suficiente para que ficasse bem claro que não tinha intenção nenhuma de abrir a boca para falar mais do que o necessário e esperava que não tivessem arrancando-a do quarto para tratar sobre qualquer bobagem.
Seguiu com passos apressados até o ponto de encontro combinado, evitando parar para observar os monumentos à sua volta, como normalmente faria. Quando avistou um grupo de pessoas muito maior do que o esperado, deixou que a boca se abrisse alguns centímetros, sentindo pela primeira vez que as coisas estavam muito mais sérias do que ela imaginara.
Sorriu para os rostos que conhecia e aqueles que não conhecia também, temendo ser a última a chegar e, consequentemente, estar atrasada. Por fim, andou até Anabelle, buscando apoio na amiga e mantendo-se em silêncio. Só esperava que alguém explicasse o que estava acontecendo ali.
Building a door | MiaxNatexMari
Se Mia não tivesse empurrado uma régua e um lápis para suas mãos, ela provavelmente teria ficado apenas sentada perto deles até que a porta estivesse pronta.
Estava contente de ter ficado com Nate e Mia em sua tarefa. Nate era prestativo e, mesmo que nunca tivessem se falado, pelo menos era um grande amigo de Daniel. Mia era um rosto conhecido e falava espanhol. Estava mais contente ainda por não ter ficado com Elektra. Ela era um pouco assustadora.
Havia escolhido montar a porta porque parecia ser mais fácil. E.. envolvia tinta. Esperava apenas pintar tudo no final; e agora, ter que desenhar no pedaço de madeira lhe deixava um tanto nervosa. Tinha que ser milimétricamente perfeito. E se ela esquecesse um centímetro? E se os quadrados decorativos no centro da porta acabassem mais parecidos com retângulos? Isso iria fazer alguma diferença?
Se perguntou se um estilete seria o suficiente para cortar a madeira. Não falou nada, porque Mia já tinha se levantado e saído correndo para algum lugar. Ajeitou sua régua, inclinou-se sobre a futura porta, mas não esboçou os pontos ainda. Hmm.. ela não tinha certeza do que fazer. Não ergueu os olhos para Nate quando murmurou a pergunta para ele “A medidas são as mesmas de qualquer outra porta..?”
Porque se eram, então aquela não seria diferente de uma porta comum. Só teria sido trabalhoso construir. Balançou a cabeça, afastando a imagem do resultado dali. Eles deviam começar antes de sequer imaginar como iria acabar.
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Sorriu agradecido pela régua. Com uma em mãos poupariam o trabalho de procura. Embora acreditasse que não demoraria a achar caso fossem à escola da cidade. Como cada segundo parecia necessário, se pôs a trabalhar. Mediu e mediu mais uma vez para se certificar que o contorno estava perfeito quanto às medidas. Precisão, a coisa que mais necessitavam naquele momento. Bagunçou os cabelos e soltou suspiros irritados quando teve de fazer novas marcações. Trocou algumas poucas palavras com Mariela, indicando algumas coisas que precisasse que ela fizesse ou então pedindo a opinião sobre o melhor jeito que deveriam prosseguir. Estava se sentindo outra pessoa. Compararia a sensação a ser uma criança ansiosa para sair da escola e encontrar os pais do lado de fora. O tempo parecia brincar com eles, os cinco minutos que passavam davam a impressão de cinquenta. Fingiu ignorar isso, o coração acelerado e até mesmo se forçou a continuar com uma face séria. Não poderia se empolgar demais e então tudo acabar em nada.
Mal teve a chance de abrir a boca quando ouviu os passos de Mia se afastando. Não se permitiu afastar da madeira enquanto as marcações não estivessem completas. Já haviam perdido tempo demais naquela cidade fantasma. Quanto antes terminassem, antes saberiam se tudo havia dado certo. E se a notícia fosse positiva, logo estaria de volta à Irlanda, fazendo o que deveria fazer. Poderia deixar seus problemas com o Doctor para trás. Voltou o olhar para o papel e se certificou de tudo estar nos conformes. Um sorriso maravilhado tomou conta de seus lábios. Naqueles longos minutos progredira o suficiente para se permitir respirar fundo. As marcações estavam prontas, cada minuto usado naquilo já valera a pena até ali. “Nós conseguimos” voltou-se para Mariela e continuou a repetir as palavras. Tudo ocorrera tão bem que mal conseguia acreditar que dera certo. Faltava pouco para estar cem por cento. Pensava em como resolver o problema de serrar a porta quando ouviu mais uma vez os passos. Levantou a cabeça agitado demais “Você conseguiu?”
Enquanto corria pelo complexo de dormitórios com as mãos trêmulas e os pensamentos centrados na possibilidade provavelmente inexistente de se cortar madeira tão grossa com um estilete, Mia deixou que seus pés a guiassem pelo caminho sozinhos, sem forças o suficiente para conseguir adivinhar onde Elektra estaria. Tentando manter o controle de seus sentimentos, seguiu simplesmente para o quarto da garota, suplicando aos céus que a loira estivesse lá e pudesse ajudá-los com qualquer coisa que lembrasse vagamente um serrote. Felizmente, sua intuição estava certa e, depois de explicar toda a situação, a inglesa garantira que daria um jeito de arranjar algo propício para a tarefa, sumindo de seu dormitório com pressa e voltando apenas quarenta e três minutos depois, segundo um imenso relógio pendurado do lado de fora do cômodo. Elektra não só conseguira um machado, como também o que parecia uma goiva para esculpir madeiras, mas três vezes maior. Mia não questionou a origem dos objetos e fez um esforço imenso para não se deixar impressionar, lembrando a si mesma que tinha coisas mais importantes a se fazer naquele momento.
Em todo o percurso de volta, teve que fazer curtos intervalos de tempo para recuperar o fôlego, sentindo-se muito fraca por não conseguir carregar um machado médio e um formão estranho. Não poderia se esquecer, porém, que não se alimentava corretamente há dias. Assim que adentrou o salão de jogos batendo numa das mesas com um barulho estrondoso, abriu o sorriso imenso de satisfação. Estavam cada vez mais perto. – Consegui! – Exclamou, erguendo a goiva no ar e rapidamente adiantando-se para entregá-la para Nate. Ficou maravilhada quando percebeu que Mariela e ele também tinham feito um trabalho incrível no desenho da porta, agarrando o diário de Doctor e colocando-o do lado do projeto, quase certa de que tinham seguido as instruções com perfeição. – Acho que... Acho que estamos fazendo tudo certo. – Comentou com certo tom de triunfo. Jubilava-se por conseguir trabalhar em grupo e estar a ponto de ultrapassar um desafio tão grande, incerta, no entanto, sobre a sua vontade de regressar ou não na Terra. Sentia-se tão... confusa. – Tudo bem. – Suspirou. – Agora precisamos cortar. Nate...? – Era óbvio que nem Mia nem Mariela conseguiriam fazer aquilo. A mexicana mal conseguia carregar o machado. – Por sorte, peguei uma lixa no depósito. Depois nós podemos aparar qualquer defeito. E... A tinta. O sangue já deve ter conservado o suficiente, estamos esperando aqui por horas. – Adiantou-se até a mesa que apoiara o seus materiais para pegar a lixa, alguns pincéis e os fracos repletos com a tinta vermelho-sangue. – Nate corta, eu lixo e Mariela pinta. Vamos acabar logo com isso.
Building a door | MiaxNatexMari
No momento em eu vira as instruções, ficara claro que aquilo não seria tão simples. Se não estivesse errado, poucos milímetros poderiam fazer uma diferença absurda no resultado final. E com a chance de voltar para casa em suas mãos, não poderia errar. A reunião de horas antes o satisfizera de tamanha maneira que era impossível conter o brilho no olhar. Nunca se sentira feliz daquela maneira desde que chegara a Gael. Enfim poderia voltar para casa. Ver os pais e dizer tudo o que não tivera a chance de dizer antes. Poderia se desculpar pelos diversos erros, pela fuga que o levara até ali e por tudo mais que passasse em sua cabeça. Teria a chance de arrumar a vida, quem sabe abandonar a faculdade de medicina e procurar algo que o fizesse feliz de verdade. Já nem mesmo ligava para os segredos do Doctor e de todos os outros.
Assentiu para a ruiva. Tanto para fazer e com o tempo correndo. Quanto mais rápido deixassem aquele lugar, melhor seria a todos. Por cima do ombro de Mia olhou o papel gasto. Com algumas palavras de licença, tomou-as para si. Voltou o olhar para a madeira e imaginou como transformariam aquilo na porta de saída. A mente voou para o passado, quando o pai fazia algo qualquer de madeira para a mãe de Nate. Deveria ter pouco mais de dez anos e escutara atento às palavras do pai. Lembrava-se do mais velho fazendo marcas com o lápis. Determinando o formato e acabamento. Parecia que tudo acontecera no dia anterior, tamanha clareza que as palavras ecoavam em sua mente. O destino parecia brincar com o moreno, a tarefa que antes parecia inapropriada, começou a fazer sentido aos poucos.
Alternou o olhar entre as duas mulheres antes de ajoelhar-se e correr os dedos pela madeira. A outra mão foi como um instinto ao seu bolso. Agarrou-se ao lápis que sempre estava ali presente. Viu as medidas que determinavam o tamanho de cada uma das marcas. Em seguida, olhou à sua volta a procura de uma régua que o ajudasse naquela tarefa. Franziu o cenho sem avistar o instrumento. Como diabos poderiam fazer aquilo? Bagunçou os cabelos, o nervosismo tomou conta do moreno. “Nós temos uma régua?”
Mia observou com certo sobressalto os movimentos hábeis de Nate, que não demorou muito para tomar conta da madeira e fazer um lápis aparecer, como mágica. Suspirou aliviada por perceber que suas preces tinham sido atendidas e que eles não ficariam encarando um ao outro por horas - o irlandês realmente assumiria as rédeas da tarefa. Com um sorriso no rosto repleto de orgulho, levantou-se em passos delicados para mexer numa sacola grande que depositara numa das mesas mais isoladas, rapidamente puxando duas réguas finas do embolado de materiais. – Por falta de uma, temos duas. – Apontou, entregando-a sem muitos rodeios para Nate e sentando-se ao seu lado para observar o que deveria ser feito em seguida. – Passei mais cedo no depósito com Anabelle, fingindo que ela tinha algum interesse em fazer um retrato meu. Trouxemos bastante coisa e acho que ninguém desconfiou de nada. – Explicou ainda feliz por ter sido tão prestativa, pelo menos por um momento.
Não tinha talento algum para pinturas, aquilo sempre fora o dom de Adam, e desconfiava que não seria muito útil no desenho da porta. Afastou-se para abrir mais espaço para Nate e, sem ter muita certeza do que fazia, entregou a outra régua para Mariela, esperando que a garota talvez pudesse ajudá-lo. As coisas precisavam andar mais rápido. – Ainda não temos como serrar a porta, depois que o molde ficar pronto. – Suspirou, a repentina realização fazendo com que suas mãos tremessem um pouco. – Talvez eu deva... Procurar uma carpintaria. Ou pedir a algum outro habitante que me arranjem um serrote. Um estilete? – Sabia exatamente quem consultar. Antes que qualquer um dos colegas pudessem respondê-la, levantou-se do chão com pressa e foi correndo em busca de Elektra McAddams.
Building a door | MiaxNatexMari
Dentro da cabeça de Mia, as dúvidas pareciam se entrelaçar umas às outras como um novelo de lã. Por mais que tentasse desfazê-las com uma linha de raciocínio aparentemente lógica, novas perguntas surgiam e a garota encontrava-se num ciclo puramente vicioso. Obrigara-se a absorver o máximo possível na pequena reunião que ocorrera horas antes, completamente desnorteada e abismada com a confusão sem fim que se tornara Gael. Esse tempo todo situações escandalosas ocorriam bem diante de seu nariz, sem que a ruiva em momento algum sequer desconfiasse. Não tivera tempo o suficiente para julgar qualquer uma das situações ou estabelecer se Colin era culpada ou não pelo que acontecia, mas podia afirmar com certeza que as pessoas ali dentro tinham um talento nato para permanecer em segredo.
Demorou um tempo relativamente longo para absorver a informação de que finalmente tinham uma chance de escapar de Gael e, pior ainda, seriam os responsáveis por reproduzir uma nova porta. Ainda que não tivesse certeza se era ou não favorável a tal atitude, manteve-se calada quando Dan explicou que deveria trabalhar no produto final ao lado de Nate e Mariela - duas pessoas com quem, por sorte, possuía um grau de afinidade bastante elevado. Tinha certa pretensão de deixar que Nate guiasse todo o projeto e, de algum modo, desconfiava que Mariela se sentiria da mesma maneira. Apesar disso, sabia que não teriam grandes dificuldades: tanto que o irlandês se dispusesse a administrá-las, ficaria fácil para que manuseassem os objetos necessários para a construção do portal, já que possuíam mãos delicadas e bastante hábeis (a aventura de ambas em busca do assassino-fantasma era uma boa prova de que sabiam trabalhar juntas, também).
Seguiu ao lado dos colegas até o salão de jogos, no térreo dos dormitórios, onde teriam um ambiente bastante reservado e, ao mesmo tempo, espaçoso. Era o suficiente para que pudessem trabalhar. Pediu para que os móveis fossem afastados para mais perto das paredes e tratou de empilhar cadeiras nos cantos do cômodo. Como se voltasse aos seus cinco anos de idade, agarrou com as mãos trêmulas as folhas bastante desgastadas do antigo diário de Doctor Greene e se sentou no chão, espalhando-as pelo piso e analisando com cuidado suas medidas. – Nós não podemos errar um centímetro sequer. – Constatou, ainda que desconfiasse ser bastante óbvio. – Serramos o retângulo principal e depois vamos ter que esculpir os detalhes. – Apontou para os quadrados que conferiam à porta certa beleza. – Depois a tinta. Temos que esperar o seiva conservar por um dia, mas desconfio que estará pronta quando acabarmos a porta também. Isso aqui vai dar trabalho. – Ainda que tivessem pressa, sabia que o processo seria lento e bastante complicado. Seria uma prova e tanto para a sua paciência. – Ideias de como podemos fazer isso?
All we have is now | @Jess x @Mia - Before the storm
Se um dia fosse possível sair daquele lugar dedicaria o resto de sua vida aproveitando cada momento. Iria viajar pelo mundo, conhecer novas culturas. Lembraria-se daquela cidade como um marco em sua vida. Pensaria nos diversos momentos bons que tivera ali e jamais esqueceria as poucas pessoas que conhecera. Poderia até mesmo começar a escrever um diário, para caso de voltar ao mundo real e nunca se esquecer. Até mesmo deixaria de lado os julgamentos que fizera às diversas pessoas de seu passado. Aceitaria de bom grado qualquer coisa que lhe desse a oportunidade de se ver livre mais uma vez. Não poderia dizer que sentia ódio de Gel, mas viver em uma gaiola parecia a sufocar. Pessoas de diversas partes do mundo. Gente da qual ela temia se aproximar. O medo de se prender a alguém e acabar um dia a perdendo a impedia de qualquer coisa. Já tivera experiências como aquelas o suficiente para diversas vidas. Por este motivo, acabara se afastando do aglomerando de pessoas sempre que possível. Quando os habitantes estavam no Mad Cap, por exemplo, ela tomava outra direção e seguia até a praia ou a biblioteca. As que já haviam marcado de algum modo não teria como excluir, levaria consigo para qualquer lado. Nas lembranças e sonhos. Nem mesmo seria capaz de esquecer o moreno com quem discutira certa vez.
Brincou distraída com uma mecha de cabelo. De repente tudo se tornara complicado. Em um momento não passava de uma adolescente qualquer revoltada com a vida, depois a primeira paixão surgira. Iludira-se acreditando que a partir daquele momento sua vida iria só subir. Não teria de viver entre as sombras com medo de sofrer. Não importaria quanto tempo levasse, seria aceita, ou pelo menos respeitada. Durante semanas vivera os melhores dias de sua vida. Chegara a sorrir por tempos intermináveis. E na velocidade da luz estava vivendo em um mundo perdido. Desconhecido por qualquer pessoa que ainda estivesse na Terra. E que a ciência diria que seria impossível existir. Ali fora o único lugar onde conseguira sorrir depois de tanto tempo. Vivia uma verdadeira contradição dentro de si. Por um lado queria recuperar o tempo perdido e voltar para o caminho que deveria ter seguido. Por outro, queria continuar longe da realidade. Onde não tinha porque se preocupar com quem era e com o que fosse acontecer. Poderia continuar a viver daquela maneira. Andando por todos os lados, explorando diversos lugares. Quem sabe fosse capaz de se socializar?
A voz a pegou desprevenida, tamanho foi o susto que quase caiu do banco. Sentou-se às pressas e virou-se para ver quem era. Como poderia não ter reconhecido a voz? A única que fora capaz de ajuda-la. Diversos dos sorrisos que deixara escapar devia a ela e as palavras de força. O apoio que ganhara nas últimas semanas fizera com que ela conseguisse se levantar. Esquecer os pensamentos ruins da Terra. Deixar de lado pela maior parte do tempo os vícios. E o melhor de tudo era não sentir falta de nenhum deles. Em muito tempo sentia-se renovada, até mesmo limpa das impurezas psicológicas que lhe corroíam por dentro. “Não gosto tanto de misturar.” Indicou com a cabeça o espaço ao seu lado. “E você? O que faz aqui?”
Deixou uma risada harmoniosa escapar de seus lábios quando percebeu que tinha pegado Jess distraída, claramente absorta em seus próprios devaneios. – Sinto muito, não queria te assustar. – Declarou em meio a sorrisos, permitindo-se sentar ao lado da garota. Das diversas pessoas que conhecera em Gael, Jess era, de longe, uma das melhores. Não demorara muito para perceber que ambas possuíam uma personalidade muito aproximada, sendo, de modo geral, pouco sociáveis e muito reflexivas. Ainda que não esperasse encontrar a outra naquela noite, não poderia dizer que estava realmente surpresa por tê-la visto sozinha e pensando na provável morte da bezerra. Pelo contrário, fazia muito sentido. – Entendo. Com certeza. Eu, no entanto, odeio misturar. – Enfatizou as palavras num tom um tanto quanto descontraído, sem qualquer intenção de forçar a conversa em direção a um rumo melancólico e nostálgico. Estava feliz como seu sorvete e realmente esperava que pudessem debater sobre algum assunto que remetesse à chocolate - talvez uma incrível invenção de um doce lotado de açúcar mas pouco gorduroso. Parecia fantástico. – Não tenho muitos amigos. Por mais que a ideia de sair para beber realmente me agrade, não tenho companhia. – Por mais que aquilo tivesse soado quase como uma intimidação, Mia não esperava que Jess se levantasse e se dispusesse a levá-la até o Mad Cap para encher a cara. Tinha sido um puro e inocente comentário.
Espreguiçou-se uma vez, dobrando os joelhos e entrelaçando as pernas em cima do banco numa confusão sem fim. Parara alguns segundos para analisar tudo o que acabara de dizer para a jovem ao seu lado e impressionava-se como as coisas tinham mudado. Não dissera uma mentira: realmente odiava se misturar com a maioria dos gaelianos, mas, antigamente, costumava ser uma das garotas mais populares do seu círculo de amizade. Contava com uma lista imensa de moças que diziam ser suas amigas quando era modelo e possuía grande facilidade em monologar sobre a própria vida para qualquer um que tivesse interesse mínimo. Desde que descobrira sobre a morte de sua mãe e, consequentemente, caíra em Gael, no entanto, sentia como se tivessem cortado sua língua. – Como andam as coisas? Já se adaptou a isso aqui? – Gesticulou, indicando o ambiente ao seu redor. Encontrara Jess quatro ou cinco vezes depois do dia em que a australiana chegara a cidade perdida. Poderia afirmar com certa cautela que eram... amigas. Mia gostava muito da presença da ruiva e sentia que a recíproca era verdadeira. – Acho que você nunca me contou a sua... Você sabe, história. – Virou-se para fitar a outra nos olhos, esperando não intimidá-la.
Finalizado: (flashback) sleep is a waste of time l Mia x Anabelle
Anabelle sentia-se aliviada e ao mesmo tempo culpada por ter se aberto tanto em uma única noite, mas respirou fundo ela precisava ter dito todas aquelas coisas senão ela acabaria por fazer algo que se arrependesse, sua cabeça não estava no lugar com seus pensamentos confusos. A própria Anabelle não se lembrava quando ela tinha tomado um banho relaxado, um que ela não ficasse com medo o tempo inteiro. Medo. Esse sentimento sempre havia movido ela, quando foi expulsa de casa, quando se casou com Thiago, quando decidiu fugir com Nolan e Melissa, o medo era o sentimento comum que estava presente durante Gael e fora. Prestou atenção no que Mia disse, ela tinha razão. Gael antes era suportável, era até um bom lugar de se viver, um lugar para segundas chances e que você poderia confiar nas outras pessoas, mas Anabelle nunca havia se adaptado, pois Gael havia tirado sua liberdade. Aquele havia sido o preço que pagaram para fugir de seus problemas e irem para aquela cidade, eles agora estavam presos ali, presos por tempo demais na sua cabeça, mas isso mudaria. Mia havia razão sobre o amor também, ele era cego. Fez com que Anabelle se apaixonasse por um homem terrível que só queria usá-la, lembrava de Thiago bondoso com ela quando ela era sua garçonete, lembrava das piadas e tudo mais. Lembrava deles fugindo para qualquer lugar onde poderiam estar os dois sozinhos para se casarem. E também lembrava de quando conheceu Nolan, quando descobriu que ele era filho de Thiago e que ele tinha uma família secreta. Tantos segredos, tantas confusões. Realmente o amor era cego, e parecia estar o mais longe dela possível. – Obrigado, acho que concordo com você, se eu não tivesse conhecido Thiago não teria conhecido Nolan e não teria conhecido o amor de verdade, mas é sempre tão difícil. – bufou deixando-se deitar ao lado de Mia, tentando encarar a ruiva.
Um sorriso veio ao seu rosto quando Mia disse que queria ir com ela, tentar novamente. Conhecer as meninas sabia que Mia ia gostar de lá, apesar de todas serem lutadoras elas eram uma família, elas cuidavam umas das outras, família de sangue pode existir, mas você que faz sua família, e lá era sempre diversão. Elas iam a baladas, viam filmes, cozinhavam, e conversavam. Era daquilo que ela mais sentia falta, Anabelle havia deixado-as quando se casou com Thiago, mas se arrependeu. O silencio que ficava no apartamento quando estava sozinha era louco, ela sempre quis voltar, mas não voltou. As garotas estavam de braços abertos para ela, ela sabia disso. – Então quando sairmos daqui, coisa que vamos fazer, você vem comigo. Começaremos uma nova vida, e vamos nos tornar adultas chatas juntas, e Gael não vai ser nada além de uma má lembrança. – sorriu com as palavras que seguiram da boca da ruiva, Anabelle estava feliz por ter feito aquela proposta, ela agora não estava mais sozinha. Ela tinha Mia ao seu lado, e mesmo que Melissa não esteja mais ao seu lado sabia que quando a poeira a abaixasse também voltaria e seriam felizes, como uma nova chance para acreditarem. Anabelle que já estava deitada tateou até achar a mão de Mia. Ela poderia estar sendo bem folgada por ter deitado na cama da ruiva, mas ela ainda tinha o medo de dormir sozinha. – Obrigado pela conversa, vamos sair dessa juntas, e obrigado por deixar eu passar a noite aqui. – agradeceu a Mia, nem todos teriam aquela paciência com ela teve, agora elas estavam juntas, e quando saíssem dali teriam uma nova chance, teriam esperança sobre o futuro.
Lágrimas silenciosas escorriam pelas faces avermelhadas de Mia. A garota tomava o cuidado de não emitir um som sequer, de modo que seu desabafo repentino permanecesse anônimo. As palavras de Anabelle tinham tocado a mexicana de uma forma que ela não esperara. Sentia-se grata por finalmente receber uma oportunidade de continuar com a sua vida, de poder seguir um rumo independente e sem qualquer ligação com Adam ou o que abandonara em Paris. Era uma nova pessoa agora e mal podia esperar pelo momento em que seus sonhos se realizariam e que a sensação de felicidade sincera viria preenchê-la. Naquele momento, teve certeza de que lutaria contra a sua doença até o seu último suspiro: não queria se render tão fácil. Sabia ainda não ser o momento, mas um dia contaria toda a verdade para Belle e pediria por sua ajuda. Tudo ficaria bem.
– Eu que tenho que agradecer. – "Você acabou de salvar a minha vida", acrescentou mentalmente. Ajeitou-se na cama numa melhor posição, entrelaçando os seus dedos aos da outra. – Boa noite, Belle. Amanhã vai ser um dia melhor. – Ainda que a morena não pudesse enxergar em meio a escuridão plena, Mia sorriu. De uma alegria quase inexistente e de gratidão. Não estava mais sozinha. E aquilo era mais do que o suficiente para ela.
i’m not a girl anymore and i’m not sad anymore.
(Flashback) Quiero poder conocer a alguien con poder de hacerme feliz | Mia & Alek
Depois da conversa com Anabelle, Mia não poderia dizer que estava completamente recuperada de seus traumas - pelo contrário, sentia-se muito longe de superá-los, principalmente quando inevitavelmente deixava-se lembrar da doença que se alojava pouco a pouco na sua barriga -, mas ainda assim ganhara uma vontade de sair pelas ruas frias de Gael com mais liberdade. Não fazia a mínima ideia de quanto tempo duraria esse sentimento e desconfiava que não o teria perto de si por muitos dias, então resolvera aproveitá-lo da melhor maneira possível. Era uma pena o movimento do Mad Cap não ter voltado ao normal desde a tempestade, já que a ruiva aceitaria uma xícara de café muito de bom grado naquele segundo. Daria qualquer coisa por algumas horas recostada contra o estofado macio dos bancos do local, o líquido fumegante esquentando-lhe as faces conforme se aproximava do copo, as preocupações esquecidas em seu dormitório, o que quase lhe faria acreditar que elas na realidade não existiam. Por mais que desejasse um momento desses, sabia que não poderia tê-lo e, por isso, contentou-se em simplesmente sair pelas ruas sem rumo fixo para se aventurar pelos locais ultimamente muito mais vazios do que o normal. Considerou a possibilidade de perder alguns minutos no parque central da cidade, mas o clima gelado acabaria com todo o conforto que poderia existir no ambiente. Sendo assim, decidira-se por dar uma passada no teatro; bem provavelmente a exibição das peças estaria parada por tempo indeterminado, mas não custaria nada tentar.
Como esperado, logo quando adentrou a majestosa construção, percebeu que estava completamente só. Talvez mais alguém andasse pela parte interior do prédio, perto do palco ou das poltronas, mas no corredor principal, onde uma quantidade não muito extensa de quadros estavam dispostos pelas paredes, o único barulho que Mia conseguia ouvir além de seus sapatinhos Oxford batendo contra o chão era o de sua respiração. Começou a observar vagarosamente as pinturas, tentando absorver delas alguma informação que fizesse sentido - por mais que tentasse interpretá-las com um certo esforço, nunca entendera muito bem de arte ou tivera a oportunidade de estudar sobre os movimentos artísticos que ocorreram durante os anos. Ainda na Terra, Adam fizera questão de levá-la a alguns museus, de modo que tivessem em seu "currículo de casal" (como ele gostava de chamar) todos os passeios imagináveis. A mexicana encantara-se principalmente pelo Louvré, não só por situar-se em Paris, sua segunda casa, como também porque fora quando tivera um de seus melhores encontros com o ex-namorado. Depois do passeio, tinham saído para jantar num lugar caro da capital francesa e Mia apaixonara-se ainda mais pelo rapaz. Respirou fundo. Por mais que tentasse de todos os modos evitar quaisquer pensamentos que pudessem deprimi-la novamente, era impossível não reparar na aura triste que cada um dos quadros ali presentes pareciam carregar. A maioria não passava de borrões confusos, figuras distorcidas e, de modo geral, assustadas. A garota tentava entender se as imagens refletiam o momento pessoal que vivia ou a própria Gael. Era complicado dizer. Perdeu o que pareceram vinte minutos analisando cada uma das obras com um olhar crítico, quando recomeçou a sua caminhada em direção à entrada da plateia. Ainda que dinheiro fosse desnecessário na cidade perdida, o teatro realmente contava com uma bilheteria, provavelmente para organização, que estava vazia. Mia decidiu simplesmente ir direto ao ponto, talvez pudesse se enfiar pelos camarins e procurar alguém que pudesse lhe dar alguma orientação.
Se perguntassem, provavelmente a jovem diria que estava sozinha. Quando passava pelo corredor com as mãos roçando suavemente contra o tecido vermelho, porém, não só começou a se sentir observada, como também poderia jurar que ouvira um farfalhar estranho atrás de si. Virou-se para a porta com o olhar assustado, começando a caminhar de costas, sem ter coragem de tirar os olhos da entrada. – Quem está aí? – Perguntou em tom alto, fazendo questão de lembrar-se que pessoas normalmente frequentavam o lugar para ensaios de peças ou simplesmente por passatempo. Não tinha motivos para temer. – Oi? – Eco. Eco puro. Sua voz se repetindo pelo que pareceram cinco vezes. "Não tem o que temer", lembrou-se mentalmente, fechando os olhos para retomar os seus passos. No segundo que o fez, sentiu seu corpo se chocando contra algo sólido e um grito abafado de dor escapando de seus lábios antes que pudesse pensar no que tinha acontecido.
Ela definitivamente não estava sozinha.
(flashback) sleep is a waste of time l Mia x Anabelle
Anabelle poderia ter falado tudo já embolado, as lágrimas ainda rolavam, tombou a cabeça quando Mia passou os dedos para secar suas lágrimas, ela parecia uma garotinha de cinco anos chorando porque algo ruim aconteceu, mas algo ruim havia acontecido, a vida havia acontecido e junto com ela várias coisas ruins também havia acontecido. – Nada é um conto de fadas, não é? – talvez ela ainda estivesse referindo a tudo: Gael, amor, sua vida, amigos nada parecia dar certo para a Anabelle, mas ela não ficaria ali chorando, Mia estava certa, ela não poderia desistir de si mesma. – Ela veio, mas anda tão perturbada que não consigo vê-la mais, nem parece que ela veio para cá. Sim, Thiago, meu atual, ex-marido ficou tão bravo porque eu ia deixá-lo que estava a ponto de matar a todos nós, e esse Mia foi o problema, por que eu o amava no começo, amava tanto que chegava a me machucar, mas parece que aquilo não era o amor. – parou antes que falasse demais, não era hora de ficar dialogando muito. Anabelle nunca compreendera de fato o amor, ela havia amado Thiago, mas por que? Ele era bom para ela, cuidava dela, deixava sempre ela fazer o que queria e fazia ela rir, mas quando ela descobriu a verdade ele mudou, deixou-a presa aquele imundo contrato de casamento e ainda tinha que trabalhar naquela lanchonete com clientes imundos, ela tinha sorte de não estar sozinha ali, ela tinha Melissa e as outras garotas com histórias algumas vezes piores que a dela, bom, ela pensava tudo isso antes de tudo acontecer e ela vir para Gael. Para Anabelle nada era pior que Gael e toda a loucura daquele Dr Greene.
Deixou a última pergunta de Mia ser respondida pelo silencio, mesmo a garota tendo falando às palavras que para Anabelle eram como um apelo para ela não desistir, Mia ali falando com ela parecia ter desistido. Para acreditar que Gael era sua ultima esperança algo estava errado. Anabelle sentiu o impulso de abraçar Mia e fazer uma promessa que se elas conseguissem sair elas tentariam juntas recomeçar, não precisariam de Gael, mas ela segurou esse impulso, talvez Mia não fosse do tipo que ficasse prometendo coisas como garotinhas de 15 anos que acham que serão amigas para sempre. Quando Mia começou a falar sua historia, sua verdadeira história, Anabelle levou a mão à boca. A sua mãe nunca fora das melhores, mas ainda sim, nada era comparado com o que Mia havia passado. Se ela pudesse ter feito alguma coisa antes, qualquer coisa, enquanto Anabelle se divertia, ia a parques e fazia coisas idiotas Mia estava vendendo drogas, nada era justo. Quando a garota voltou a falar Anabelle pensou que a história mudaria e as coisas começariam a dar certo, e até que começaram, mas se tivesse tudo dado certo ela não estaria ali agora. Quando ela terminou a própria Anabelle não poderia conter suas lágrimas, Mia era uma órfã, assim como ela. Belle poderia ter pais, mas como os mesmos a expulsaram de casa ela considerou-se uma órfã e ela e as meninas da lanchonete cuidavam umas das outras, aquele era o pequeno orfanato delas. – Você não precisa desse inferno, Mia. Você pode ter tudo que quiser, mas se valer de alguma coisa, eu conheço um grupo de garotas. Somos todas órfãs lá, e uma cuida da outra, não tem muito luxo, e todas moramos juntas em um prédio, trabalhamos o dia inteiro, mas ainda sim, conseguimos nos divertir várias vezes, talvez você gostasse de lá. Se não você quiser claro, você poderia tentar Paris, não deixe essa ilusão de Dr te enganar, você pode sair daqui. Tentar, não deixe a cidade pegar o melhor de você, nem a vida real. – Anabelle viu-se agora ombro a ombro a Mia, o sono já chegando um pouco. No meio da escuridão agarrou a mão da ruiva. – Se valer novamente de alguma coisa, agora você tem a mim, não vou te deixar sozinha. – comentou para a garota, Mia poderia ser a irmã que Anabelle nunca teve e assim deixariam de ser tão órfãs e fariam as duas uma família.
Mia não queria mais chorar. Não queria mais sofrer. Às vezes, chegava a pensar que não queria mais viver. Esquecera qual era a sensação de acordar livre de pesos nos ombros, livre da vontade devastadora de acabar com tudo em apenas alguns segundos... Não queria morrer, mas também não tinha vontade nenhuma de viver. Talvez pudesse entrar num estado vegetativo eterno, deixar a sua vida passar diante de seus olhos simplesmente para que não decepcionasse aqueles que a amavam. Piscou os olhos com força uma vez. Quem a amava? Não possuía ninguém dentro de Gael, além de sua doença. Poderia considerar Alek ou Jess... Mas não tinha certeza se eles realmente a queriam bem. Não tinha mais vontade nenhuma de confiar em ninguém. De fazer nada. "Nada é um conto de fadas, não é?" As palavras de Anabelle perfuraram Mia como se uma faca lhe fatiasse a carne. Por circunstâncias que a vida lhe impusera, nunca tivera tempo de se visualizar como uma princesa de filmes da Disney vivendo num mundo encantado. Não, nada é um conto de fodas. A mexicana desconfiava que para ela nunca seria. Apesar disso, não era o momento certo para se deixar abalar: naquele segundo, precisava ajudar Belle. Nada mais. – Sinto muito por você e Melissa. Deve ser terrível ter sua melhor amiga perdida por aí e mal reconhecê-la. – Era o que Mia acreditava. Não tinha uma melhor amiga. Desconhecia aquele sentimento. – Às vezes nós nos enganamos em relação ao amor. Ele nos faz inocente, não nos deixa enxergar coisas que estavam ali o tempo todo. Não é isso que dizem? O amor é cego. – Assentiu, alisando o cabelo da outra com carinho. – Deve ter sido assim para você e Thiago. Uma pena ele não ter entendido que nem sempre as coisas são como desejamos. Não se culpe em nenhum momento por as coisas não terem dado certo. Tudo foi exatamente do jeito que deveria ter sido.
Permaneceu com a expressão imutável ao perceber que Anabelle se surpreendia com a sua história conforme as palavras pulavam da boca da ruiva. Não queria que ela a tratasse como uma coitadinha ou tivesse pena de tudo que enfrentara na sua vida. Não tinha certeza se acreditava em Deus, talvez não no tal homenzinho de barbas longas e olhos bonzinhos (para ela, esse pensamento se aproximava muito mais do Papai Noel), mas com certeza em uma força maior, em algo a mais. Essa força que, de algum modo, olhava por ela certamente não colocaria nenhum obstáculo em seu caminho que Mia não fosse capaz de superar. Aguentara todos os problemas de sua vida com a certeza de que era forte o suficiente para derrubá-los com um só golpe. – Eu não odeio Gael. Só queria que as coisas voltassem a ser como eram há dois ou três meses atrás. Era, sim, infeliz, mas essa onda de pavor que me invade agora não era tão intensa. As coisas ficaram insuportáveis depois da tempestade. Você não acha? – Sentia-se confortável para poder falar o que viesse a sua cabeça, sem ter que medir as suas palavras. Tinha certeza que a oriental a compreenderia; afinal, estavam todos no mesmo barco. Era a típica situação do pegar ou largar... As opções eram mínimas. Quase zero. – Eu... Muito obrigada. – Murmurou, sinceramente surpresa por Anabelle ter oferecido sua companhia caso um dia conseguissem escapar de Gael. Ninguém nunca lhe propusera nada do tipo antes. Se pudesse enxergar a si mesma em meio a escuridão, certamente se veria com os olhos arregalados e a boca ligeiramente escancarada. Sentia-se tão grata que desconfiava ser capaz de sair pulando por aí como uma gazela. – Adoraria ir com você e conhecer essas meninas. Mesmo. Não sei nem como agradecer. – Proferiu, deixando-se deitar na cama e sentir os olhos pesando. Respirou fundo, de algum modo muito aliviada. – Você também tem a mim, Belle. Queria que a gente tivesse tido essa conversa antes. Está tudo bem? Quero te ver feliz. – Pela primeira vez em muito tempo, estava sendo completamente sincera. Mia podia perceber que a garota merecia tudo de melhor na vida - não tinha obrigação nenhuma de reconfortar a mexicana, mas ainda assim o fizera. Estavam uma ao lado da outra agora. Enfrentariam o que quer que viesse. Juntas.
All we have is now | @Jess x @Mia - Before the storm
Pudera contar algumas semanas desde que chegara a Gael. Durante diversos dias fez uma busca pela cidade. Explorando o lugar, descobrindo algumas partes que serviriam de um ótimo esconderijo. Fora à praia e aproveitara a brisa matutina batendo contra sua pele macia. Por diversas vezes quase se perdera em meio ao bosque e levara horas para encontrar o caminho de volta até a parte civilizada da cidade. Ao longe conseguira ver alguns animais correndo em meio à natureza e isso fazia seu coração apertar. Dentre tudo, o que mais lhe faria falta eram os sonhos. Ser uma veterinária, cuidar de cada animal como se fosse um humano. Dar o melhor de si para fazer o melhor para cada um deles. Naquela cidade que chances teria de fazer o bem? Mal conhecia as pessoas daquele lugar. Conversara no máximo com três pessoas e ainda não entendia a lógica daquele mundo.
Sem um caminho de volta fora obrigada a aceitar o que teria de enfrentar. Afinal, não faz bem viver sonhando e se esquecer de viver. Buscaria outra coisa que lhe dessa a paz. Que a fizesse sentir como uma parte do mundo e não mais uma excluída qualquer de algum internato. Descartou a possibilidade de se envolver com a música. Em seus diversos passeis ouvira de longe o som de instrumentos. Deixou de lado também a opção de não fazer nada. Simplesmente conviver em sociedade e fingir que tinha um objetivo claro em sua vida não parecia nada agradável. Até mesmo por não conseguir ficar em meio a muitos antes de sentir o coração acelerar e a respiração diminuir drasticamente. Um dos males de sofrer bullying. Medo constante de simples olhares atravessados, movimentos bruços a sua volta faziam tudo girar.
Um suspiro impaciente escapou. Quando conseguiria escapar daquele problema? A opção de tentar aos poucos não surtira muito efeito. Acabara mais uma vez se irritando com algum desconhecido e perdera todo o autocontrole mais uma vez. Raiva constante, frustração e medo. Uma combinação nada boa para Jessica. Conseguira ter uma conversa tranquila apenas com Mia. Encontrara-a algumas vezes depois disso. Sentia-se mais do que agradecida pelo apoio logo ao chegar à cidade. Se tivesse de descobrir tudo sozinha como aquilo ia ser? Perguntaria para cada pessoa que visse perambulando pelas ruas? Com a chance enorme de ouvir alguma grosseria? Teria desistido logo de cara de viver naquele mundo e feito o pior? A mexicana fora a verdadeira salvação para o caminho da sanidade.
Deixou o corpo cair no banco sem muita delicadeza. Esticou as pernas e observou o céu estrelado. A lua no iluminava o ambiente. Seria aquele o mesmo céu que vira durante toda a vida?
Plenamente ciente de que não era uma das pessoas mais sociáveis de Gael, Mia contentava-se em sair pelas ruas constantemente desacompanhada, aproveitando para observar com um maior cuidado os detalhes das construções e deixando-se perder ao olhar o céu muito azul. Dentre as várias coisas que mais amava na cidade, a beleza da natureza e da pureza que circundava o local sem dúvidas era a sua favorita. Sentia-se bem ao molhar os pés na água do mar, mesmo quando muito gelada, como se tivesse a oportunidade de literalmente lavar a alma. Sempre que possível, dava-se ao trabalho de abandonar a comodidade do seu quarto para tomar um ar fresco e deixar-se relaxar com a tranquilidade do ambiente à sua volta. Evitava ao máximo a convivência com outras pessoas, é verdade, correndo para biblioteca para esconder-se atrás da dezenas de prateleiras para que ninguém a encontrasse. Sentia falta da época que tinha alguém por perto o tempo todo, alguém com quem pudesse conversar ou telefonar para tomar um café. Não iria, porém, martirizar-se com tal pensamento. Adam a ensinara a deixar o pessimismo de lado e centrar-se apenas nos bens positivos preenchendo sua mente. O melhor, uma hora ou outra, viria.
Naquele fim de tarde, depois de muito refletir sobre a vida que levava desde que caíra na cidade perdida enquanto ouvia as ondas do mar quebrando-se contra a areia molhada da praia, decidira ir tomar um sorvete. Era um dos horários mais adequados, já que sabia que a civilização normal, naquele momento, ocupava-se com os encontros de tarde ou começavam a se arrumar para as possíveis festas e reuniões que enfrentariam durante a noite. Já fazia um tempo longo desde que Mia fora parar em Gael, e não se demorara muito a aprender esse tipo de truque. Era para o seu próprio bem. Ocupou-se alguns minutos com um picolé de chocolate (o seu favorito: comum o bastante, mas, ainda assim, o melhor e menos enjoativo sabor), deixando-se levar pelas ruas sem um rumo certo. A noite já começava a cair lentamente, o sol pouco a pouco dando espaço para que a lua banhasse o mundo abaixo de si. Era bonito de se ver. Mia sempre se considerara uma garota mais noturna - não que fosse obcecada por frequentar baladas o tempo todo e dormisse o dia inteiro, mas a escuridão, de algum modo estranho, apetecia-a. Fazia com que se sentisse viva.
Quando parou para prestar atenção onde estava, reconheceu com facilidade a praça central. Não era muito longe do seu dormitório, então talvez pudesse desperdiçar mais um tempo para reflexões. Não tinha pressa nenhuma de regressar ao seu prédio e, consequentemente, ver-se obrigada a encarar as suas colegas de quarto. Quanto mais pudesse adiar o momento, melhor. Para sua surpresa, no entanto, enquanto caminhava, avistou uma cabeleira ruiva disposta sobre um banco não muito longe - se não estivesse muito enganada, tinha quase certeza que se tratava de Jess, uma garota que vira cair na cidade e, ao longo do tempo, evoluir muito. Aproximou-se com um sorriso no rosto, depositando o palito do sorvete numa lixeira no meio do caminho. – Jess? – Pigarreou, esperando que a garota se virasse para encará-la. – Não esperava te ver por aqui. Não vai para um pub se divertir? – Questionou num tom simpático. Talvez a vivência com os demais não lhe fizesse tão mal assim.
from-ireland respondeu a sua postagem: Top 5 das mina de Gael que tu pegava?
Lisongeada Mia!
Você é linda. Vou te levar para Paris comigo quando sairmos daqui.