All we have is now | @Jess x @Mia - Before the storm
Deixou uma risada harmoniosa escapar de seus lábios quando percebeu que tinha pegado Jess distraída, claramente absorta em seus próprios devaneios. – Sinto muito, não queria te assustar. – Declarou em meio a sorrisos, permitindo-se sentar ao lado da garota. Das diversas pessoas que conhecera em Gael, Jess era, de longe, uma das melhores. Não demorara muito para perceber que ambas possuíam uma personalidade muito aproximada, sendo, de modo geral, pouco sociáveis e muito reflexivas. Ainda que não esperasse encontrar a outra naquela noite, não poderia dizer que estava realmente surpresa por tê-la visto sozinha e pensando na provável morte da bezerra. Pelo contrário, fazia muito sentido. – Entendo. Com certeza. Eu, no entanto, odeio misturar. – Enfatizou as palavras num tom um tanto quanto descontraído, sem qualquer intenção de forçar a conversa em direção a um rumo melancólico e nostálgico. Estava feliz como seu sorvete e realmente esperava que pudessem debater sobre algum assunto que remetesse à chocolate - talvez uma incrível invenção de um doce lotado de açúcar mas pouco gorduroso. Parecia fantástico. – Não tenho muitos amigos. Por mais que a ideia de sair para beber realmente me agrade, não tenho companhia. – Por mais que aquilo tivesse soado quase como uma intimidação, Mia não esperava que Jess se levantasse e se dispusesse a levá-la até o Mad Cap para encher a cara. Tinha sido um puro e inocente comentário.
Espreguiçou-se uma vez, dobrando os joelhos e entrelaçando as pernas em cima do banco numa confusão sem fim. Parara alguns segundos para analisar tudo o que acabara de dizer para a jovem ao seu lado e impressionava-se como as coisas tinham mudado. Não dissera uma mentira: realmente odiava se misturar com a maioria dos gaelianos, mas, antigamente, costumava ser uma das garotas mais populares do seu círculo de amizade. Contava com uma lista imensa de moças que diziam ser suas amigas quando era modelo e possuía grande facilidade em monologar sobre a própria vida para qualquer um que tivesse interesse mínimo. Desde que descobrira sobre a morte de sua mãe e, consequentemente, caíra em Gael, no entanto, sentia como se tivessem cortado sua língua. – Como andam as coisas? Já se adaptou a isso aqui? – Gesticulou, indicando o ambiente ao seu redor. Encontrara Jess quatro ou cinco vezes depois do dia em que a australiana chegara a cidade perdida. Poderia afirmar com certa cautela que eram… amigas. Mia gostava muito da presença da ruiva e sentia que a recíproca era verdadeira. – Acho que você nunca me contou a sua… Você sabe, história. – Virou-se para fitar a outra nos olhos, esperando não intimidá-la.
“Tudo bem” respondeu divertida em seguida deixou uma risada escapar por seus lábios, sentiu-se boba por ter se assustado tão facilmente. Culpou a distração por aquilo acontecer e não um suposto medo que sentia daquela cidade. O medo de algum desconhecido aparecer e a fizesse se sentir amedrontada, como diversas vezes se sentira quando estava na Austrália e as garotas de lá faziam de tudo para assustá-la. Não só com algo moral, mas também com algo físico, que chegava a assombra-la até mesmo durante a noite, em seus sonhos. Lembrava-se de que quando dormia tinha de estar ciente sobre os movimentos ao seu redor, para ter certeza de que nada lhe aconteceria durante a noite. Era como dormir com um olho aberto e o outro fechado.
Perguntou-se se no comentário existia algum tipo de convite, preferiu deixar isso de lado, acreditando estar imaginando coisas. Apenas assentiu as palavras, como se fosse usar aquela frase a ela mesma. Afinal aquela ideia soara perfeita em sua mente. Se fosse considerar somente a presença de bebidas e de pessoas com quem tinha já algum contato, não pensaria duas vezes antes de ir. Há muito não sentia o gosto do álcool em sua boca e talvez elas pudessem aparecer por lá mais tarde e tomar dois ou três copos para relaxar. Jessica poderia até mesmo tentar se socializar com outras pessoas, não como conversava abertamente com Mia, mas conviver na presença de desconhecidos já seria um enorme passo para a australiana.
“Minha história?” por onde ela poderia começar? Só contando como acabara ali ou incluindo também os diversos porquês de tudo aquilo? Preferiu optar pela primeira opção, temendo não conseguir contar a história completa sem que a mente se enchesse de memórias que ela gostaria muito de deixar de lado. Teve de ficar em silêncio por alguns instantes antes de começar a contar. “Eu morava em um internato na Austrália” fez uma pausa antes de enfim prosseguir “Meus pais, hum, pode-se dizer, não gostavam muito da minha presença” fez mais uma pausa e respirou fundo, nunca falara com ninguém a respeito da noite em que chegara a Gael. “Na noite em que cheguei aqui estava tentando escapar para beber e fumar sabe?” Lembrou-se de contar a quantidade de portas pela qual passava e acreditar que enfim achara a porta que a levaria ao jardim dos fundos. “E bem, quando abri a porta que acreditava ser a certa, parei aqui, nesse mundo completamente estranho” concluiu acreditando que a ruiva saberia o resto da história. Já que fora ela quem a auxiliara naquele tempo em que estava ali, era provável que não conseguisse aguentar por muito tempo sem a presença e ajuda de Mia a todo o momento. “E quanto a você?”
















