O MUNDO INVERTIDO
Para quem já assistiu à série Stranger Things (Coisas Estranhas), esse título pode chamar a atenção do imaginário, daquilo que é vivido para além da normalidade, muitas vezes bem na nossa frente, mas que a gente não consegue ver, pois está acontecendo no mundo paralelo.
Assim eu vivi por muitos anos, em mundos paralelos. Convivia entre as pessoas sem ser visto e, por muitas vezes, eu acreditava que tinha um superpoder, pois estava em shoppings, praças, cinemas, festas, clubes sociais, nas ruas, entre todos, porém usando meu poder de invisibilidade.
No mundo real, eu era um estudante dedicado, que vivia em casa, na igreja e, às vezes, ia ao cinema com meus amigos. Essas amizades eram meu escudo. Escondiam uma vida que ninguém podia saber que eu tinha. Eu fazia isso tudo ser tão real e verdadeiro que se tornava impossível, para quem não tinha acesso ao portal do mundo paralelo, enxergar o que eu vivia naquele mesmo espaço quando não estava com esses amigos.
Eu precisava sustentar meus dois mundos sem ninguém desconfiar. Para isso, comecei a trabalhar enquanto ainda estava no ensino médio. Era uma maneira maravilhosa de sustentar meu personagem. Aliás, eu não era um adolescente comum, eu vivia dois mundos. E como eu ia pagar duas idas ao cinema na mesma semana sem ser questionado? Como eu poderia comprar minha pipoca para assistir a um filme duas vezes na mesma semana? O milk-shake de ovomaltine que eu adorava, como eu ia poder comprar duas vezes na mesma semana? Como ir a shows, parques, noites de festas, sem perguntarem por que eu estava pedindo tanto dinheiro? Pedir dinheiro não era mais uma opção, e eu precisava usar minha inteligência para fazer tudo acontecer sem ninguém desconfiar. E foi trabalhando desde cedo que eu consegui.
Nos dois mundos, minha trilha sonora era ouvir “Pitty” cantando nas rádios e na TV, para todos, que por mais estranho que a gente fosse, o importante era ser quem a gente é verdadeiramente. Aquilo entrava no meu corpo como uma sustentação para transitar entre as duas realidades, mas eu não podia tirar a máscara que cobria o meu rosto, pelo menos naquele momento.
Uma dessas máscaras era entrar em um relacionamento. Aquilo fazia parte do jogo. Eu “precisava mostrar” para a sociedade que era igual a todos e diminuir ou eliminar olhares estranhos sobre mim. Precisei arriscar alto e errei. Fiquei com muita vergonha. Eu havia me declarado para uma menina. Acreditei que seria uma boa jogada para manter as aparências, mas minhas ferramentas de traquejo eram fracas, eu não soube jogar aquele jogo e perdi.
Então, precisei movimentar outras peças desse tabuleiro e, infelizmente, eu me dei bem. Acertei o movimento e conquistei uma dama de coração puro, cabelos ruivos, olhos brilhantes ao me ver, era mágico. Os movimentos foram acontecendo naturalmente e, xeque-mate, eu me senti mais poderoso, pois tinha em minhas mãos a maior peça daquele jogo: o amor.
Talvez, naquele momento, eu ainda não entendesse que, para continuar invisível em um mundo, eu precisaria existir demais no outro.
(continua)













