Oppenheimer, Godzilla Minus One e porque eu detesto o filme do homem bomba do Nolan
Eu não odeio Oppenheimer porque acho que o Christopher Nolan é um apologista de guerra. Eu não acho que ele seja. Também não acho que o filme seja uma peça de propaganda militar americana no sentido mais direto da palavra. O meu problema com Oppenheimer é outro: o filme inteiro é construído para fazer a gente sentir o peso emocional da vida de J. Robert Oppenheimer, mas não existe um interesse equivalente, nem remotamente equivalente, em fazer a gente sentir o peso emocional das vítimas da bomba que ele ajudou a criar.
E isso importa.
Porque, sim, “o filme é sobre o Oppenheimer”. Essa é sempre a resposta. Mas a grande coisa que o Oppenheimer fez na vida dele foi projetar uma bomba que matou milhares de pessoas no Japão. Você não pode fazer um estudo de personagem sobre um homem cuja principal marca histórica é a criação da bomba atômica e tratar as consequências disso quase como abstração estética.
O filme passa três horas mergulhando na subjetividade do Oppenheimer. A gente acompanha as crises existenciais dele, o ego dele, o medo dele, a paranoia dele, os julgamentos públicos, as humilhações políticas, os traumas psicológicos. O filme quer que a gente viva dentro da cabeça desse cara. E o cinema do Nolan é muito eficiente nisso. A trilha sonora, o ritmo frenético da montagem, os closes, os diálogos intensos, a sensação constante de grandiosidade histórica, tudo isso existe para fazer você sentir a importância daquele homem.
E aí entra uma coisa que o vídeo “A crise da interpretação”, do canal Ora Thiago fala muito bem: a gente não assiste filme só “interpretando racionalmente” o texto. A gente assiste filme com o corpo.
A estética importa. O ritmo importa. A maneira como a câmera enquadra alguém importa. A música importa. O cinema não é só argumento intelectual; ele é experiência sensorial.
O Thiago usa o exemplo do “efeito Tropa de Elite”: às vezes o texto de uma obra quer criticar um personagem, mas a forma como ela filma esse personagem faz o público admirar ele mesmo assim. Porque existe uma relação corporal com o audiovisual. Você sente o filme antes mesmo de “interpretar” ele.
E é exatamente aí que Oppenheimer me perde completamente.
Porque mesmo que a intenção do Nolan fosse mostrar um homem atormentado, o filme é tão fascinado pela genialidade, pela importância histórica e pelo drama interno do Oppenheimer que ele inevitavelmente transforma ele numa figura quase mítica. O filme quer que a gente sinta o peso de ser aquele homem extraordinário. Ele quer que a gente admire a dimensão histórica daquela mente.
Enquanto isso, as vítimas japonesas praticamente não existem.
Elas aparecem como flashes abstratos de culpa na consciência do protagonista. Sombras. Imagens rápidas. Corpos carbonizados usados mais como representação do trauma psicológico do Oppenheimer do que como pessoas reais.
E isso, pra mim, é profundamente desconfortável.
Porque o sofrimento japonês vira ferramenta narrativa para desenvolver o personagem americano.
O filme parece incapaz de sair da perspectiva do “coitado do cientista que criou algo terrível”. E existe uma diferença gigantesca entre explorar a culpa de alguém e centrar emocionalmente essa culpa acima das próprias vítimas.
É por isso que eu acho Godzilla Minus One tão mais poderoso e honestamente tão mais merecedor do Oscar.
Godzilla Minus One entende uma coisa que Oppenheimer parece não entender: a bomba atômica não é uma abstração filosófica elegante. Ela é trauma coletivo.
Enquanto Oppenheimer filma corredores de poder, reuniões de cientistas e homens brilhantes discutindo física como se estivessem moldando o destino do mundo, Godzilla Minus One filma pessoas comuns tentando sobreviver. Filma corpos vulneráveis. Filma medo. Filma ruínas. Filma culpa nacional sem transformar essa culpa num espetáculo narcisista sobre a genialidade de um indivíduo extraordinário.
O Godzilla naquele filme não é só um monstro gigante legal. Ele é literalmente a materialização do trauma de guerra japonês. Ele é a ansiedade nuclear transformada em criatura.
E o mais louco é que Godzilla Minus One consegue ser mais humano mesmo sendo um filme de monstro gigante, justamente porque não está obcecado em transformar seus personagens em “grandes homens da história”. O foco é sobreviver. É reconstruir a vida. É o peso emocional da destruição.
Já Oppenheimer parece fascinado demais pelo próprio prestígio.
Existe uma energia muito forte de “olha como eu sou um diretor sério fazendo um estudo complexo sobre um homem controverso”. E de novo: eu não acho que isso venha de maldade. Eu acho que vem de falta de tato.
O Nolan é tão interessado na dimensão épica do Oppenheimer que ele acaba completamente desconectado do peso humano concreto da bomba atômica.
E talvez isso seja inevitável num filme hollywoodiano sobre esse tema. Porque Hollywood adora narrativas sobre homens brilhantes atormentados pelas consequências do próprio talento. O “gênio problemático” é praticamente um gênero inteiro.
Mas existe algo muito estranho em fazer um filme de três horas sobre a bomba atômica onde as vítimas da bomba quase não possuem subjetividade.
No final das contas, eu saí de Oppenheimer sentindo que o filme queria que eu lamentasse o sofrimento emocional do homem que ajudou a criar a bomba. E eu simplesmente não consigo achar isso proporcional ao sofrimento das pessoas que morreram por causa dela.
E pra mim essa desproporção destrói o filme inteiro.















