“Beauty is terror. Whatever we call beautiful, we quiver before it.”
Pensei nisso enquanto caminhava sob a chuva torrencial. Eu não corria. Correr seria inútil, quase ingênuo: a água sempre vence. Então deixei que ela me tomasse aos poucos, como se cada gota tivesse, nem que fosse, uma mínima intenção.
Eu, como sempre, carregava comigo aquilo que nunca deixo em casa. Aquilo que, na verdade, não deixo em nenhum lugar e carrego, quase, de um jeito zeloso: minha mãe. Porque, diga-se, quem atravessaria meio quilômetro de tempestade apenas para levar o lixo? Pois é. Não é uma mania de limpeza, nem hábito e muito menos algo racional. É medo, esse instinto silencioso que nos guia pelos caminhos mais absurdos desde os primórdios do que podemos chamar de humanos.
Aprendi cedo a pisar em ovos. Minha vida é um tabuleiro onde cada movimento já nasce calculado, antecipado, esgotado antes mesmo de existir. E meu adversário? Seria confortável dizer que é ela. Mas não é. Nunca foi. Sou eu. Sempre fui eu.
A chuva me devolve a mim mesma. O frio também. Há algo de profundamente acolhedor naquilo que deveria expulsar, assustar. A melancolia, esse lugar morno, quase doméstico, me recebe de volta como se eu nunca tivesse saído.
Sim, penso nos estragos, nas casas alagadas, naquilo que a água leva sem pedir licença. Mas há em mim algo menor, ou talvez mais honesto, que insiste em olhar apenas para dentro. Sou, nesse instante, mesmo que pequena, suficiente para mim mesma.
E ainda assim, é bonito.
O frio que gruda a pele, a roupa se igualando a forma do corpo, o peso da água, tudo me encanta. Há uma estética no desconforto, uma beleza que não pede permissão para existir. Penso em Donna Tartt, penso em A História Secreta, penso nessa linha tênue onde o belo e o terrível deixam de ser opostos.
O medo da minha mãe é assim: frio, insistente, inevitável. Ele me atravessa como a chuva e, ainda assim, eu o chamo de bonito.
E talvez seja isso.
Tudo aquilo que é verdadeiramente bonito já nos fez tremer.















