A sua risada era como tudo que fazia, delicada, melódica e contida, o som se espalhou pelo campo ocupado apenas pelos dois estudantes, com a afirmação de Li. Ironicamente, ele foi quem a ajudou a entrar no time de quadribol no ano anterior, em uma situação similar àquela, com papéis inversos. Ela era quem se esgueirava para o campo em um dos treinos na tentativa de aprender algo sobre o esporte que, até então ela só conhecia pela paixão que o irmão mais velho tinha. Calisto não era ligada a esportes, eles pareciam brutos demais, agressivos demais para a sua personalidade. O que ela realmente gostava era a dança. A melodia dos instrumentos e os movimentos ritmados, delicados e precisos. A dança exigia força, disciplina, elegância. Tudo que era prezado por sua família. Ela aprendeu que quadribol exigia as mesmas características. Com o tempo ela aprendeu a se acostumar com a agressividade, na verdade era até algo que ela gostava. A fuga dos balaços a fazia sentir-se forte, assim como ela se sentia depois de uma sequência de giros. O vento em seu rosto era uma versão um pouco melhorada da sensação que sentia quando dava piruetas. Ela e a sua vassoura formavam o perfeito pas de deux.
“Não é tão ruim, vai. Não é como se nós tivéssemos que manter a rivalidade depois dos jogos.” Comentou, era engraçado a relação passional que as pessoas tinham com o quadribol. Era quase impossível ver os integrantes de times de casas rivais conversando de forma amistosa durante a sua estadia na escola. Ao invés de se juntarem pela paixão que tinham em comum eles se deixavam levar pela rivalidade que só deveria haver em campo. Para a garota o jogo era apenas aquilo, um jogo. Ela se divertia enquanto estava no ar, como se divertia enquanto dançava. E o fazia de forma despreocupada. Ela amava a sensação do vento quando ele penetrava pelos seus cabelos e refresca o couro cabeludo durante as partidas. Achava engraçada as caras de espanto dos batedores, quando ela desviava de um balaço que foi destinado para ela. “Agora é sério, o que te trás aqui?” Calisto soltou os cabelos do elástico, jogando a cabeça para trás enquanto arrumava os fios encaracolados. Aquela era uma das coisas que detestava tanto no quadribol quanto na dança. A necessidade de prender seus fios volumosos e cheios. Seus cabelos talvez fossem o que ela mais gostava em sua aparência. Ela amava passar as mãos pelos cabelos, sentindo os cachos, suas voltas, texturas, o volume. Amava forma como eles emolduravam seu rosto fazendo tudo parecer mais harmônico. Sentia-se livre novamente com eles soltos.
Era assim desde a infância. Ela se orgulhava de seus traços faciais e sua mãe sempre fez questão de reafirmar aquilo. Ela era linda. O rosto com maçãs pronunciadas, com lábios carnudos, olhos redondos e expressivos. Aquele rosto era belo. Também era uma arma. Mas armas não funcionam sem munição. Pansy a ensinou a ser mais que um rosto, nisso a natureza havia sido generosa, mas ela teria que correr atrás do resto. Ser uma boa bruxa não dependia só de suas características físicas. Ela precisava impressionar além disso. Bons rostos são ótimos para atrair, mas eles se tornam entediantes sem uma personalidade tão charmosa quanto. E personalidades são moldadas fora do alcance da natureza. Personalidade era algo que ela teria que conquistar. Conquistar através das suas palavras era um talento que só se adquire através do treino. E aquilo foi algo que Calisto dominou com muito treino. A arte de ser interessante. Ela podia dançar, tocar piano, cantar. Fazia comentários inteligentes e pontuava fatos importantes em conversas. Ela era um orgulho para a família. Eles treinaram a bem.
“Bem, não é lá como se fosse fácil desligar da ideia também.” Ergueu os ombros para a fatalidade do argumento. Li poderia não conhecer a sonserina profundamente, mas mesmo ele e sua leve habilidade de percepção já havia lhe dado a dica de que Calisto era no mínimo uma apaziguadora. Li gostava de pessoas assim, apesar de, claro, estar bem longe disso. Não é como se ele gostasse de conflitos, ele apenas não via em si a frieza de não expressar sua opinião e lutar para defendê-la em toda situação aparente. Talvez esse fosse uma das características da casa da Sonserina em si, não a neutralidade, mas sim o expressar suas opiniões apenas quando estas fossem resultados em algo conveniente para si. Algo tão inteligente e meio assustador, exatamente como a casa parecia para si. “Eu não sei é como você consegue ter um batedor que joga um balaço na boca do estômago.” Comentou, chutando casualmente a grama em seus pés.
“Urg eu realmente tenho que dizer?” Meio choramingou novamente, fazendo uma leve careta para a ideia, mas nem esperando uma resposta antes de soltar um bufar resignado. O Chang não queria falar sobre aquilo, pelo menos não com a morena pelo puro medo de ofender, afinal, Li não era conhecido por conseguir segurar sua língua quando se sentia passional sobre o assunto, mas bem, era Calisto, não tinha como ele dizer não agora. “Eu só vim conferir qual foi a casa que resolveu marcar o treinamento para esse horário sendo que há bons três anos a HufflePuff sempre treinou nesse horário.” Não pode impedir o leve sarcasmo sair de sua língua em meio a sentença, como sempre, ele se deixando levar pelas emoções. Foi uma sorte ele ao menos não estar olhando para a mais nova durante sua fala, ao invés disso, ele tendo os olhos fixos no céu que escurecia ao fundo, ainda rodando a goles em sua mão e tendo da morena, apenas a visão dos belos cachos que agora se encontravam soltos.
Li achava difícil que ele não tivesse corado um pouco quando a Parkinson soltara os fios, ou ao menos seria o caso se o frio não ajudasse a esconder tal reação biológica. Mas o de traços asiáticos só poderia se justificar, afinal, ele realmente gostava dos fios cacheados e nesse caso não era só Calisto que entrava em sua lida. Ayana, uma corvinal do seu ano, também chamava sua atenção pelos fios vastos e Li achava difícil não acompanhar o movimentos dos fios cheios de vida. Obviamente que ele não tinha tanto interesse na corvina quanto ele tinha em Calisto por motivos óbvios. Ayana era por demais rebelde e exagerada, sendo a sonserina exatamente o contrário disso sendo ela delicada e calma e, na cabeça de Li, exatamente como uma garota deve ser.