A realidade virtual de Yuri
FADE IN:
INT. SALA DE ESTAR - DIA
SANDRA MEDEIROS, 37 anos, e CARLOS MEDEIROS, 37 anos, sentados num sofá, olham para a ENTREVISTADORA, JULIANA SANTOS, 26 anos.
JULIANA (Olhando para a câmera) Bom dia! Hoje vamos contar a história da Sandra e do Carlos, que estão criando seu filho de um jeito muito diferente.
Legenda: Sandra Medeiros e Carlos Medeiros, pais de Yuri.
JULIANA(CONT'D) (Olhando para o casal) Vocês poderiam contar pro pessoal de casa o que estão fazendo?
SANDRA Bom, nós temos um filho, o YURI, que já tem 13 anos, e como todos os pais estamos criando ele da maneira que a gente acha melhor pra ele.
JULIANA
E como é essa maneira?
SANDRA Em outra realidade.
JULIANA Vocês podem explicar pros telespectadores, por favor?
CARLOS O Yuri usa um aparelho de realidade virtual nos olhos. Ele está crescendo em um mundo que nós criamos, totalmente pra ele.
JULIANA E ele nunca viu a vida fora dessa realidade virtual?
CARLOS Não.
JULIANA Como é esse mundo em que o Yuri vive?
SANDRA Bom, Foi o Carlos que criou. (Olha para Carlos) Ele sempre gostou de trabalhar com 3D.
Carlos saca o celular e mexe nele enquanto Sandra fala. Ele mostra a tela para a câmera.
CARLOS É assim, ó. A gente tem acesso ao que ele vê 24 horas por dia.
INT. QUARTO DE YURI - REALIDADE VIRTUAL - DIA
O ambiente parece um quarto de uma criança criado em um Nintendo 64. Os objetos são feitos com poucos polígonos, cada um de uma só cor. As superfícies são lisas e sem texturas.
CARLOS(V.O.) A gente pode ver o que ele tá vendo.
JULIANA(V.O.) E é aí que o Yuri vive?
CARLOS(V.O.) Isso. Tem a casa inteira modelada.
JULIANA(V.O.) Só a casa?
CARLOS(V.O.) Sim. Ele não sai daqui.
JULIANA(V.O.) Ele nunca saiu de casa?
CARLOS(V.O.) Nunca.
SANDRA(V.O.) Juliana, a gente realmente acredita que o Yuri vai ser mais feliz assim. JULIANA(V.O.) Bom, quero voltar nesse assunto, mas como vocês criaram esse ambiente?
CARLOS(V.O.) Eu gosto de fazer essas coisas. Quando a gente teve a ideia eu tava reproduzindo o clipe do Money for Nothing, do Dire Straits, como um exercício mesmo. A gente usou os 'assets' daquela casa que eu já tinha feito para o clipe como base pra recriar a nossa.
INT. SALA DE ESTAR - DIA
Sandra Medeiros e Carlos Medeiros, sentados num sofá, olham para a entrevistadora, Juliana.
SANDRA Tem o AR também.
CARLOS Ah é! O ambiente é todo em VR, que é realidade virtual, mas quando o Yuri tinha uns 2 anos, acho que era 2016, ficou fácil fazer AR, que é realidade aumentada. Aí eu implementei no headset dele também.
JULIANA O que essa realidade aumentada faz?
CARLOS Com ela o Yuri pode interagir um pouco com o ambiente. Por exemplo, se ele mexer a cadeira do quarto dele, a câmera reconhece isso e a cadeira mexe no mundo dele também.
SANDRA (Olhando para Carlos) E reconhece a gente também.
CARLOS É, o principal é que reconhece seres humanos. Quando o Yuri vê uma pessoa, seja eu ou a Sandra, o sistema reconhece que é uma pessoa e recria esse humano na realidade do Yuri.
SANDRA Mas não como um ser humano, né? A gente queria que o que ele visse fosse bem diferente do que a gente vê, então tem esses ursos que são os humanos do mundo dele.
JULIANA Ursos?
CARLOS Eu me baseei naquele personagem do Toy Story 3 que é um urso de pelúcia rosa. Só que alto. Do tamanho de um ser humano. Quando eu ou a Sandra entramos no quarto dele ele vê um ser daqueles.
JULIANA Vocês criaram o filho de vocês pra achar que seres humanos são ursos de pelúcia rosas?
CARLOS Só que altos.
JULIANA Olha, eu acho que esse é o momento de perguntar sobre a ética do que vocês estão fazendo. Vocês sabem que a emissora vai ter que contar sobre isso pra polícia, né?
SANDRA Estamos totalmente cientes que o que fizemos é ilegal. Estamos cientes que vamos ser presos e que o Yuri vai ser tirado de nós. (Olhos enchem de lágrimas) Mas nós acreditamos que isso é o melhor pra ele. Vai valer a pena.
CARLOS Foi um sacrifício, da nossa parte.
SANDRA Foi sim.
JULIANA Desculpa, mas pra mim o que vocês fizeram parece uma crueldade imensa. Por que vocês acham que isso foi bom pra ele?
CARLOS Juliana, imagina que demais que vai ser pra ele quando a gente tirar esse aparelho!
JULIANA Por que isso seria legal?
SANDRA Você já teve 13 anos, né? Não acha que teria sido empolgante nessa idade?
JULIANA Sinceramente? Não.
CARLOS Pensa bem, Juliana. Pré-adolescente acha que é especial. Eu na idade dele queria ser picado por uma aranha e virar um super-herói. Queria ser um roqueiro famoso.
SANDRA Eu queria ser atriz, mesmo nunca tendo feito teatro na vida. Eu só fantasiava achando que alguém ia me parar na rua, do nada, e me chamar pra fazer parte de um filme de Hollywood. Depois quando cresci eu achava que ia descobrir a cura pro câncer ou algo do tipo.
CARLOS Você, por exemplo. Qual era seu sonho?
JULIANA Eu queria trabalhar na tevê.
Carlos e Sandra olham para Juliana por um instante, sem saber o que falar.
SANDRA Bom, mas pra maioria das pessoas esse sonho nunca se realiza.
CARLOS Lá pra idade do Yuri a gente percebe que nada... extraordinário vai acontecer. Não vai virar um astronauta e explorar o espaço. A gente percebe que a nossa vida vai ser banal.
SANDRA E pro Yuri isso não vai acontecer! Imagina que demais, com 13 anos você descobrir que tem todo um universo novo pra explorar.
CARLOS Tipo Matrix. Você acorda em um mundo que é o real, e você estava vivendo numa realidade de computador.
JULIANA Igual Matrix mesmo. Seria assustador.
SANDRA Assustador no filme, porque as máquinas são do mau. Mas no caso do Yuri vai ser fascinante!
JULIANA O que vocês sentiriam se amanhã acordassem na realidade dele, com ursinhos rosas, e aprendessem que aquele é o mundo real? Seria divertido?
CARLOS Não, mas é muito diferente. Ele tem 13 anos. Nessa idade descobrir um universo novo vai empolgante!
SANDRA E acordar no universo dele seria regredir. No caso dele será um progresso.
JULIANA Como assim?
CARLOS Nosso universo é mais complexo que o dele. A gente sabe o que são ursos e o que é cor-de-rosa. Ele nunca viu nada parecido com um ser humano, e só viu uma paleta de 16 cores na vida. Vai ser muito legal descobrir a vida real.
SANDRA E aos 13 anos. Quando as crianças estão descobrindo que a vida é menos colorida do que elas pensavam, o Yuri vai ter a experiência oposta!
JULIANA Eu vou tentar ser neutra durante a entrevista, mas eu preciso dizer que ainda acho que o que vocês estão fazendo é crueldade.
CARLOS Sinto muito. Espero que seus filhos tenham uma vida bem normal, então. Bem banal. Já que você acha que isso é bom.
JULIANA Eu também espero. Enfim...
Juliana olha para a câmera.
JULIANA(CONT'D) O casal Medeiros entrou em contato com a nossa emissora justamente porque decidiram que era hora de tirar o óculos do Yuri. E queriam fazer isso na tevê.
Juliana volta a olhar pro casal.
JULIANA(CONT'D) Por que a decisão de televisionar esse momento?
Sandra olha para o chão.
CARLOS Bom, eu não queria... (Risos) Foi a Sandra quem acabou me convencendo. Mas eu sei que é a coisa certa.
SANDRA A gente seria preso de qualquer jeito. Seria impossível pra gente, sozinhos, integrar o Yuri na sociedade. É melhor fazer de um jeito que deixe a gente contar a nossa versão da história.
CARLOS E quem sabe a gente possa inspirar mais alguém a fazer isso.
JULIANA Como vocês imaginam que vai ser a reação dele?
SANDRA Acho que será de admiração. De encantamento com o mundo.
CARLOS Eu imagino ele, assim, olhando de um lado pro outro. (Olha de um lado pro outro imitando o Yuri empolgado)
JULIANA Como foi possível criar o Yuri por 13 anos sem nunca ter tirado o aparelho?
CARLOS A Sandra é médica. Toda semana a gente seda o Yuri e enquanto ele dorme a gente desparafusa o headset. Ela dá uma olhada no Yuri, principalmente nos olhos. Eu checo se tá tudo bem com o aparelho. A gente tem dois, pra caso um quebre ou pra usar enquanto o outro carrega.
JULIANA Fica parafusado o aparelho?
CARLOS Sim. Mas a Sandra é médica, ela sabe o que faz.
SANDRA É indolor. O aparelho em si não está parafusado. O Yuri tem um pino de cada lado do crânio e o aparelho fica fixado nesses pinos, e é possível prender ou soltar girando uma tarraxinha. Só tem que apertar um botão num controle remoto nosso e girar a tarraxa ao mesmo tempo. É bem fácil. Mas ele não sabe, claro.
JULIANA Como ninguém nunca denunciou pra polícia o que vocês fazem?
SANDRA Ninguém sabe. Se a gente morasse no interior e alguém ouvisse o choro de uma criança vindo da casa levantaria muita suspeita. Mas isso aqui é o Jardins. Tem gente morando em cima da gente, embaixo e nos lados. Ninguém sabe quantas pessoas moram em cada apartamento.
CARLOS Mesmo com as janelas a gente não precisa tomar cuidado. Pusemos aquelas redes pro Yuri não cair e a gente deixa a cortina mais fina fechada, assim entra luz, mas ninguém lá fora vê um menino de headset todos os dias.
JULIANA E nunca aconteceu de ele abrir as cortinas?
CARLOS Um monte de vezes.
SANDRA Ninguém liga. Sério. Ninguém tá nem aí com a vida dos outros por aqui. (Risos).
CARLOS E ele não vê nada lá fora. A janela é um objeto opaco no mundo dele.
JULIANA Vocês lembram o momento em que tiveram a ideia de criar o Yuri assim? Como isso aconteceu?
Carlos e Sandra se olham, sorrindo, se segurando pra não rir.
CARLOS A gente vai ser preso mesmo, amor... (Risos)
Sandra e Carlos olham pra câmera.
SANDRA A gente tava muito, muito loucos!
CARLOS (Risos).
SANDRA Totalmente chapados.
CARLOS (Risos agudos).
SANDRA A gente tava falando sobre a vida. Sobre a experiência humana. Essa ideia foi tipo uma revelação.
CARLOS Eu sabia fazer modelos 3D e jogos, ela era médica... Era perfeito.
SANDRA Parecia a melhor ideia do mundo.
CARLOS E o melhor é que depois que a gente ficou sóbrio continuou parecendo a melhor ideia do mundo.
SANDRA Eu sou atéia, né? Sou uma mulher da ciência. Mas quando penso no que aconteceu é difícil não acreditar que a gente foi escolhido pra isso.
CARLOS (Mostrando o braço) Ó! Até arrepia.
JULIANA O Yuri ainda não tinha nascido, certo?
CARLOS Não. A gente nem queria ter filhos. Resolvemos ter por conta dessa ideia.
JULIANA Vocês já falaram que o Yuri nunca saiu de casa. Me conta um pouco sobre a experiência dele. Como é um dia na vida do filho de vocês.
CARLOS Ele tem um pai e uma mãe que amam ele. Ele vê a gente como aqueles avatares de urso rosa, mas o amor é o mesmo de qualquer criança.
JULIANA Ele sabe da existência de outros seres humanos?
SANDRA Não faz ideia.
JULIANA Vocês nunca assistem tevê, ouvem rádio? Nada.
SANDRA A gente assiste no nosso quarto.
CARLOS A gente toma cuidado pra ele não ver a tela ligada porque o aparelho dele reconheceria seres humanos e ele veria as pessoas na tela da tevê.
SANDRA Ele ouve o som as vezes, de fora do quarto. A gente fala que é mágica. Que a caixa fala com a gente e que um dia vai falar com ele.
CARLOS O que é verdade, porque vamos tirar o headset e ele vai poder ver tevê.
JULIANA Mas conta mais da vida dele. Ele estuda?
SANDRA O Carlos ensina ele. Todos os dias. Só não ensinamos física e esse tipo de coisa porque não faz sentido pra realidade dele. Mas ensinamos matemática e português.
JULIANA História? Geografia?
SANDRA Não faz sentido pra realidade dele.
JULIANA Sandra, e você comentou que vê do trabalho também o que o Yuri está vendo?
Carlos fica sério e olha pra baixo.
SANDRA Todos os dias! No celular eu posso ver tanto o que o Yuri tá vendo como a visão da câmera que pusemos no quarto dele.
JULIANA E o que ele come?
CARLOS Três refeições por dia como qualquer criança, com lanche da tarde as vezes. A Sandra trabalha em horas super confusas mas eu tenho sorte de trabalhar por conta própria de casa, então eu que preparo a comida e sirvo o Yuri.
JULIANA Ele vê a comida?
CARLOS Não. A única coisa que a câmera dele vê e reproduz são seres humanos, a cadeira dele e alguns outros móveis. Fora isso ele só vê o modelo da casa e o que está programado no ambiente, como a cama e a escrivaninha. Coisas como comida ele não vê, só sente.
JULIANA Ele não estranha que algumas coisas ele não vê?
CARLOS Pra ele é normal. Algumas coisas são invisíveis. Tem o lag também. Normalmente existe um atraso pequeno entre ele virar a cabeça e sua visão se ajustar e virar junto. é normal pra ele. Criança não questiona isso.
JULIANA Como ele se diverte?
SANDRA O Carlos brinca com ele o dia inteiro. Eu brinco com ele quando eu volto. (Olha para Carlos) Tem os jogos também.
CARLOS Sim. Eu sempre gostei de fazer jogos eletrônicos. É de onde a paixão pelo 3D começou. Eu criei diversos jogos simples, coisas que você veria no Atari, e o Yuri tem acesso a todos.
SANDRA Fica num canto do quarto virtual dele. Uma caixa vermelha estilosa.
CARLOS É uma reprodução 3D de um 'Famicom'. O Yuri toca nela e entra no modo jogo. Os jogos aparecem direto no headset dele, o menu e tudo. Ele controla com os botões que também estão no aparelho. Vira-e-mexe eu faço um jogo novo e coloco lá (Sorri).
JULIANA Ele passa bastante tempo jogando?
SANDRA Passa. Bastante. Mas isso é normal hoje em dia, pra idade dele, né?
JULIANA Difícil dizer o que é normal ou não hoje em dia.
JULIANA(CONT'D) (Olhando pra câmera) Vamos ver um dia na vida de Yuri, tanto da perspectiva da câmera que os pais dele instalaram no quarto, quanto da perspectiva do Yuri.
INT. QUARTO DO YURI VISTO DA CÂMERA INSTALADA NO TETO - DIA - BRANCO E PRETO
Enquanto toca Money for Nothing vemos um dia na vida do Yuri acelerado.
Seus pais entram com comida no quarto, brincam um pouco e saem do quarto. Ele anda de um lado pro outro brincando, dorme mais, acorda, senta num canto do quarto e joga videogame em seu óculos por horas, que são alguns segundos para nós. Carlos entra com comida novamente, Yuri come, pai retira os pratos, Yuri deita na cama e rola de um lado pro outro. Levanta. O ambiente muda da câmera do quarto para o quarto em realidade virtual. Yuri volta pro videogame e assistimos alguns segundos acelerados de algo parecido com Space Invaders. Yuri desliga o jogo e olha pra porta. Dois ursos rosas entram no quarto e brincam com ele. Eles saem do quarto e vemos o resto da casa em 3D, no mesmo estilo. Eles jantam comida invisível.
INT. SALA DE ESTAR - DIA
Sandra Medeiros e Carlos Medeiros, sentados num sofá, olham para a entrevistadora, Juliana Santos.
JULIANA (Olhando pra câmera) Essa foi uma gravação de sábado passado na vida do Yuri, especial pra esse documentário.
Juliana olha pro casal.
JULIANA(CONT'D) Só pros telespectadores saberem, hoje é sábado também, por isso vocês estão em casa, e o Yuri tá no quarto dele agora, trancado, certo?
CARLOS Sim. A gente falou que ia falar com a caixa mágica, que é a tevê, só que na sala. Assim ele não estranha uma voz nova.
SANDRA É, mas conhecendo o Yuri, tenho certeza que ele está tentando ouvir a gente. (Risos). Mas tudo bem porque não dá pra entender o que a gente fala de lá.
JULIANA Vocês irão alimentá-lo agora, certo?
CARLOS Sim. Café geralmente é no quarto. (Risos) Mordomia!
SANDRA Vai você, amor. Leva o café pra ele, eu fico aqui vendo se tá tudo bem.
CARLOS (Confuso) Hm... Ok.
JULIANA (Olhando pra câmera) Vamos ver agora a visão do Yuri enquanto seu pai leva o café-da-manhã.
INT. QUARTO DE YURI - REALIDADE VIRTUAL - DIA
O ambiente parece um quarto de uma criança criado em um Nintendo 64. Os objetos são feitos com poucos polígonos, cada um de uma só cor. As superfícies são lisas.
Vemos o ponto de vista do Yuri, que olha pro teto.
Alguém bate na porta. A visão de Yuri se move do teto para a porta. Ela se abre lentamente e um urso cor-de-rosa entra no quarto. Seus braços estão na frente do corpo, como se segurassem algo. Sua expressão muda de séria para um sorriso cartunesco.
CARLOS Hora do rango!
Carlos, em forma de urso, anda até a escrivaninha e abaixa os braços. Ouvimos o som de talheres e pratos.
CARLOS Panqueca.
Enquanto ouvimos os passos do Yuri, a nossa visão se move da cama para a escrivaninha. A cadeira azul claro se mexe e Yuri se senta, olhando para a escrivaninha vazia. Ouvimos barulhos de talheres e mastigação.
Yuri olha para cima para o rosto de Carlos, de pé ao seu lado.
CARLOS (Sorrindo. A boca do urso se mexendo dessincronizado do som) Bom apetite, filhão.
INT. SALA DE ESTAR - DIA
Sandra Medeiros, sentada num sofá, olha para a câmera.
SANDRA (Séria) Pessoal, vocês podem desligar a câmera por um momento?
Juliana olha para o cameraman por trás da câmera, séria, depois volta a olhar pra Sandra.
JULIANA Por que, Sandra?
SANDRA Quero falar com você.
Sandra olha para o cameraman e aprova com a cabeça. Ele abaixa a câmera, filmando o chão.
SANDRA Eu sei que ainda tá gravando. Por favor, gente? Olha aí, ele tá voltando. Disfarça.
O cameraman levanta a câmera novamente. Sandra e Juliana disfarçam, fingindo que nada aconteceu. Sandra tenta esconder que está brava com a situação.
Carlos senta-se do lado de Sandra.
CARLOS Ele está comendo.
JULIANA Sandra, você que é médica, como você acha que isso afetará o Yuri psicologicamente? Ele já tem 13 anos e nunca viu outro ser humano. Só viu seus pais, como ursos rosas.
SANDRA Eu não sou psicóloga, mas tenho certeza que ele vai superar. Pode demorar um pouco pra se ajustar, mas vai chegar lá.
JULIANA Você não acha que terá algumas consequências permanentes? Ele já tem 13 anos. Por exemplo, nessa idade ele já está se desenvolvendo sexualmente, e nunca viu outro ser humano além dos pais, como dois ursos rosas.
SANDRA Não quero falar sobre isso.
JULIANA Por que não?
SANDRA Porque não.
JULIANA Mas você não acha que...
CARLOS (Interrompendo) Não. Não é não.
JULIANA Tudo bem.
SANDRA Vou buscar a louça.
Sandra se levanta e vai em direção ao quarto de Yuri.
INT. QUARTO DE YURI - REALIDADE VIRTUAL - DIA
O ambiente parece um quarto de uma criança criado em um Nintendo 64. Os objetos são feitos com poucos polígonos, cada um de uma só cor. As superfícies são lisas.
Vemos o ponto de vista do Yuri, sentado na escrivaninha.
Alguém bate na porta e logo a abre. A visão de Yuri se move da escrivaninha para a porta. Um urso cor-de-rosa entra no quarto.
SANDRA Oi querido.
Sandra, em forma de urso, estende os braços e ouvimos barulho de louça.
SANDRA Vou levar isso de volta. Você vai ter uma surpresa amanhã, filho.
YURI(V.O.) Jogo novo?
SANDRA Não. Melhor!
YURI(V.O.) O que é?
SANDRA Você vai saber amanhã!
Ela sai do quarto e tranca a porta.
INT. SALA DE ESTAR - DIA
Calos Medeiros, sentado num sofá, olha para o chão em silêncio. Barulhos de louça na pia da cozinha. Após alguns segundos Sandra senta-se do lado dele.
SANDRA Pronto.
JULIANA O Yuri pode diferenciar vocês dois pela aparência?
CARLOS Não, todos os seres humanos são iguais pra ele.
JULIANA Então se eu e meu câmera entrássemos no quarto dele ele acharia que são vocês dois?
CARLOS Provavelmente.
JULIANA Posso?
Carlos e Sandra se olham.
SANDRA Eu não vejo por quê não.
Sandra olha seu celular.
CARLOS Nem eu. Apenas não fale nada, por favor.
SANDRA (Olhando para o celular) Ele está jogando agora, então é o momento perfeito.
Sandra entrega a chave do quarto para Juliana.
JULIANA Ok.
Juliana se levanta e a câmera a segue. Ela faz o sinal de silêncio com o dedo na boca. Devagar se aproxima do quarto. Destranca e abre a porta tentando não fazer barulho. Entra no quarto e a câmera a segue.
Yuri está sentado em um canto do quarto, jogando em seu óculos. Juliana se aproxima. Ela olha para a câmera e sorri.
INT. QUARTO DO YURI VISTO DA CÂMERA INSTALADA NO TETO - DIA - BRANCO E PRETO
Juliana admira Yuri jogando, e o cameraman filma os dois. Ficam assim por uns dez segundos.
INT. BANHEIRO DA CASA DOS MEDEIROS - DIA
JULIANA (Sussurrando) Gente, eu tive que pedir pra vir pro banheiro pra falar a vontade, sem eles ouvirem. Que coisa surreal que foi ver o Yuri! Eu sei que parece bobagem, mas quando você vê ele com seus próprios olhos é diferente. É uma criança normal, só sendo criança. (Seus olhos se enchem de lágrima, e a voz treme) E ao mesmo tempo ele tem aquela coisa na cara... (Pausa) Foi muito impactante ver aquilo. (Pausa) Eu tô com muita dó dele. Ele vai perder os pais. E ele não conhece nada do mundo real... (Pausa) Bom, tenho que me recompor agora (risos). De volta ao trabalho.
INT. SALA DE ESTAR - DIA
Sandra Medeiros e Carlos Medeiros estão sentados no sofá. A entrevistadora Juliana e o cameraman se sentam no sofá do lado oposto.
JULIANA Amanhã vamos tirar o óculos do Yuri, como combinado. Há algo mais que vocês queiram discutir hoje?
O casal se olha.
SANDRA Não. Acho que não, né?
CARLOS Acho que não também.
SANDRA Só que a gente ama o Yuri e está fazendo o que acreditamos ser pro bem dele.
CARLOS E a gente sabe que é ilegal mas a gente discorda dessa lei.
JULIANA Que lei?
CARLOS A que fala que é ilegal o que a gente tá fazendo. Não devia ter nada de errado com isso.
JULIANA Ok.
Sandra olha seriamente para Juliana, arqueando as sobrancelhas e tentando sinalizar com os olhos que precisa falar com ela a sós.
JULIANA Então vamos finalizar aqui por hoje. Muito obrigada!
INT. QUARTO DE JULIANA - NOITE
Juliana, sentada na cama de camisola olha para a câmera, que está ao seu lado. A qualidade do vídeo é pior que de costume. Ela mostra o celular, que está vibrando com o nome "Sandra" na tela.
NOIVO DE JULIANA(V.O.) Tá filmando, amor.
JULIANA Gente, é a Sandra me ligando. São duas da manhã. Ela tentou falar comigo na casa dela, mas a gente não conseguiu conversar longe do Carlos.
Juliana atende o telefone.
JULIANA Alô?
SANDRA (Sussurrando) Alô. Juliana?
JULIANA Oi Sandra.
SANDRA Juliana eu preciso falar com você.
JULIANA Eu sei. Que bom que você ligou. Fala.
SANDRA Eu preciso de ajuda.
JULIANA Fala, Sandra.
Sandra fica alguns segundos em silêncio.
SANDRA Eu acho que o Carlos... Eu vi do celular, do trabalho, eu acho que ele tava pegando no Yuri... (Respiração fica forte) Eu tava vendo na visão do Yuri, então é difícil ter certeza, mas eu acho que... Acho que tem alguma coisa estranha.
Juliana olha para a câmera, surpresa.
JULIANA Meu Deus, Sandra!
SANDRA (Com voz de choro) Eu não sei o que fazer.
JULIANA Meu Deus... Sinto muito. Você viu isso acontecer várias vezes?
SANDRA Algumas vezes. Mas sempre na visão do Yuri. É difícil ter certeza. Eu pedi pra pôr a câmera no teto do quarto dele pra isso, mas agora eles brincam na sala. O Carlos aparece como aquele urso rosa. O braços dele não têm nem mão na ponta. É difícil saber o que ele está fazendo.
JULIANA Você fez muito bem de contar.
SANDRA Você acha que a gente consegue pegar ele no flagra?
JULIANA (Surpresa) No flagra?
SANDRA É. Eu fiz tudo isso pra tentar pegar ele no flagra.
JULIANA Tudo isso o que?
SANDRA Isso de tirar o VR na tevê. De se entregar de vez pra justiça. Eu que convenci ele de fazer desse jeito.
JULIANA Uau.
SANDRA Não foi nenhuma ideologia que nem ele acredita, foi pra pegar ele no flagra. Por favor, Juliana, vamos tentar. Se não der certo eu tô indo presa em vão.
JULIANA Mas será que ele faria algo errado agora sabendo que pode sair na tevê?
Silêncio por um momento.
SANDRA Acho que não.
JULIANA Mas a gente pode tentar desmascarar ele de algum outro jeito.
As duas pensam por um tempo.
JULIANA(CONT'D) E se a gente fizer o Yuri falar sobre isso com a câmera gravando?
Sandra não responde por alguns segundos.
INT. SALA DE ESTAR - DIA
A filmagem volta a ser profissional. Sandra Medeiros e Carlos Medeiros estão sentados no sofá. A entrevistadora Juliana e o cameraman se sentam no sofá do lado oposto.
Carlos está feliz e empolgado, Sandra e Juliana estão tensas e preocupadas.
Juliana está segurando o controle remoto que permite soltar o aparelho.
CARLOS E aí, vamos lá?
JULIANA Na verdade eu queria perguntar... Pra vocês dois... Se tudo bem eu entrevistar o Yuri um pouco?
CARLOS Como assim?
JULIANA Só gravar uma entrevista rápida.
SANDRA Eu não vejo por quê não.
Carlos olha para Sandra surpreso.
CARLOS Como assim? Ele nunca viu outra pessoa, de repente vai ver ela?
SANDRA Ele vai achar que é a gente.
CARLOS Ela quer falar com ele!
Sandra olha para o lado, preocupada. Juliana não sabe o que falar.
CARLOS Vamos lá logo, vai. Vamos tirar o headset dele.
JULIANA Bom, eu ou o câmera vamos ter que entrar de qualquer jeito, se for pra gravar.
CARLOS Tá bom, você entra. Só que deixa a gente explicar pra ele o que tá acontecendo.
JULIANA Ok.
SANDRA A gente te apresenta e aí você entra.
JULIANA Tá bom.
CARLOS E não fala nada até a gente explicar pra ele.
INT. QUARTO DE YURI NA REALIDADE VIRTUAL - DIA
O ambiente parece um quarto de uma criança criado em um Nintendo 64. Os objetos são feitos com poucos polígonos, cada um de uma só cor. As superfícies são lisas.
Vemos a visão do Yuri, que está deitado na cama olhando pro teto.
Alguém bate na porta e logo a abre. A visão de Yuri se move do teto para a porta. Dois ursos cor-de-rosa entram no quarto.
CARLOS Oi filhão.
Yuri não responde, apenas os olha.
SANDRA A gente quer te mostrar uma coisa muito legal.
INT. QUARTO DO YURI VISTO DA CÂMERA INSTALADA NO TETO - DIA - BRANCO E PRETO
Yuri está sentado na cama, Carlos e Sandra estão de pé.
Pela porta aberta vemos Juliana e o cameraman esperando do lado de fora do quarto.
Sandra olha para o lado de fora da porta e acena para que Juliana entre. Ela entra pela porta aberta.
INT. QUARTO DE YURI NA REALIDADE VIRTUAL - DIA
Vemos a visão de Yuri, sentado na cama. Os dois ursos o observam quando um terceiro urso rosa entra pela porta de seu quarto.
YURI(V.O.) (Gritando) AAAAAAH!!!
Yuri pula para a parte da cama que encosta na parede, e se encolhe de medo lá. Volta a olhar para os ursos.
YURI(V.O.) (Gritando) Quê isso?
SANDRA Calma, calma, querido. Tá tudo bem.
CARLOS Essa é uma amiga nossa. Do bem. Ela é do bem.
JULIANA (Levantando a pata) Oi Yuri.
Yuri grita novamente.
CARLOS Shhh. Calma filho!
Yuri para de gritar, mas sua respiração está pesada.
SANDRA Lembra que eu falei que você ia ter uma surpresa hoje? Essa é a primeira parte.
A cabeça de Yuri se move olhando para os três ursos.
SANDRA Existem outros seres humanos. Não somos só eu, você e o papai.
Faz-se alguns segundos de silêncio até Yuri falar.
YURI(V.O.) Quantos?
SANDRA Quantos o que?
YURI(V.O.) Quantos seres humanos?
Os ursos se olham.
JULIANA (Falando baixo, para os outros dois) Acho que sete bilhões.
CARLOS Muitos, filho. Lembra das nossas aulas de matemática, né?
YURI(V.O.) Lembro.
CARLOS Então. Tem sete bilhões de pessoas.
A respiração de Yuri fica mais pesada.
YURI(V.O.) (Quase gritando) Aonde?
Carlos e Sandra se olham.
Carlos anda até Yuri, e se agacha ao lado da cama. Sandra o segue.
CARLOS Filho, você sabe que a gente te ama muito, né?
Yuri parece se acalmar.
YURI(V.O.) Sei.
CARLOS E você sabe que tudo o que a gente faz é pro seu bem, né?
YURI(V.O.) Sei.
CARLOS Então. Existe um mundo muito grande fora da nossa casa.
Respiração de Yuri volta a ficar forte.
YURI(V.O.) Como assim?
CARLOS Você vai entender. (Olhando para os outros dois ursos) Vamos tirar o aparelho agora?
O urso Sandra olha para o urso Juliana.
JULIANA Posso entrevistar ele antes?
CARLOS (Sussurrando) Puta que o pariu... (Olha para Juliana) Entrevistar? (Olha pra Sandra) Acho que esse momento deveria ser nosso, né?
SANDRA Eu não vejo problema.
Carlos tenta protestar mas Juliana anda até a cama sem olhá-lo e também se agacha.
CARLOS Só não estraga a surpresa, por favor.
JULIANA Oi Yuri, tudo bem?
Yuri não responde.
JULIANA (CONT'D) Meu nome é Juliana. Posso te fazer algumas perguntas?
SANDRA (Olhando para Carlos) Amor, vamos deixar eles a sós.
CARLOS (Confuso) A sós? Sandra, o que está acontecendo?
JULIANA Você brinca muito com o papai e com a mamãe, né?
Pelo movimento da filmagem vemos que Yuri concordou com a cabeça.
JULIANA (CONT'D) Eu preciso que você seja muito honesto comigo. Alguma vez o papai te tocou em algum lugar estranho, que não deveria?
CARLOS (Gritando) Que porra é essa?
Carlos avança em Juliana e a puxa com violência, a levantando.
Sandra também se levanta e empurra Carlos.
Yuri grita.
Money for Nothing toca enquanto os três ursos brigam.
O urso Carlos joga Juliana no chão.
Carlos volta-se para Sandra, que o soca na cara antes que ele pudesse fazer algo. O urso Carlos toca em sua própria boca e olha para sua pata, para ver se está sangrando.
Yuri continua gritando.
Sandra empurra Carlos, que tropeça em Juliana e cai no chão.
Sandra pula em cima de Carlos e o soca diversas vezes.
Carlos agarra Sandra e a imobiliza no chão.
Juliana se levanta e tenta puxar Carlos de cima de Sandra. Ele não solta.
Sandra grita de dor.
Um quarto urso entra no quarto, o cameraman.
Yuri grita ainda mais assustado, totalmente apavorado.
O cameraman pega a cadeira azul de Yuri e bate com ela nas costas de Carlos, que grita de dor.
Bate de novo e a cadeira vôa pelo quarto.
Carlos solta Sandra.
O cameraman e Juliana conseguem tirar Carlos de cima de Sandra. Os três conseguem imobilizar o homem enquanto Yuri continua gritando.
O urso Sandra, exausto, caminha até Yuri.
SANDRA (Bufando) Deixa... Vem cá... Deixa mamãe tirar seu VR...
Ela alcança a câmera (visão do Yuri) e começa a mexer no headset dele.
SANDRA (Cansada) É só apertar aqui, girar aqui...
INT. QUARTO DO YURI VISTO DA CÂMERA INSTALADA NO TETO - DIA - BRANCO E PRETO
Juliana e o cameraman seguram Carlos em um canto do quarto. Em cima da cama, Sandra retira o headset de Yuri.
YURI AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
Ele reage como se a figura de um ser humano fosse a coisa mais alienígena possível. Se apavora totalmente. Chora alto.
SANDRA Calma! Calma filho!
No desespero, Sandra põe o headset de volta. Yuri para de chorar.
SANDRA O mundo real é assim, querido.
Todos ficam alguns segundos sem falar nada. Ouvimos apenas a respiração pesada de Yuri.
Sandra cobre o rosto com as mãos.
SANDRA(CONT'D) Desculpa...
Carlos começa a chorar.
INT. SALA DA CASA DE JULIANA - DIA
Juliana fala perto da câmera.
JULIANA Olá, pessoal! O que você viu nessa entrevista aconteceu faz seis meses já. Carlos e Sandra estão presos pelo que fizeram com o Yuri, e o Carlos está respondendo às acusações de abuso sexual. Um psicólogo está conversando com o Yuri pra entender se o Carlos realmente abusou dele.
Ela se move pela casa.
JULIANA(CONT'D) E por falar em Yuri, olha quem está aqui.
Juliana abre uma porta e vemos um quarto de criança, com Yuri no meio, usando o headset.
JULIANA(CONT'D) Hoje eu e meu noivo finalmente conseguimos a guarda dele. Eu quis adotar o Yuri desde que o vi pela primeira vez naquela casa.
Juliana entra no quarto e chega perto de Yuri. Senta-se ao seu lado. Yuri parece jogar no headset.
JULIANA(CONT'D) Ele ainda tem medo do mundo real, mesmo depois de seis meses. A gente combinou que ele pode usar o óculos dia-sim-dia-não, e que daqui a um mês a gente vai diminuir pra dois dias na semana, e aí a gente vai vendo o que faz.
Juliana olha para o menino e coloca as duas mãos no aparelho.
JULIANA(CONT'D) Filho, vou tirar um pouco, ok?
YURI Deixa só eu salvar. (Silêncio) Pronto.
Juliana tira o aparelho e pela primeira vez vemos de perto o rosto de Yuri. Ele olha para a câmera com olhos vermelhos. Juliana sorri e o beija na bochecha.
FADE OUT














