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@lasgosomething
smile for the picture; rachel&killian
sunday night, december 23. female quarters. private.
@sfhs-killian
ice skating queens; rachel&elisa
saturday morning, december 22. school gates. public.
@sfhs-lisa
A primeira impressão que Rachel teve ao acordar naquele dia havia sido o frio doloroso que penetrava o quarto escuro. Nem mesmo o ninho de cobertores grossos feitos por ela para barrar a entrada do ar gelado fora capaz de salvá-la do desconforto e da tremedeira habitual: resmungar e esconder-se em sua cama acabavam por não ajudar em nada, também. Por algum motivo desconhecido, a bailarina havia acordado naquele sábado sem um pingo sequer de sono: sua rotina de finais de semana, que consistia em virar-se de um lado pro outro na cama por longas horas, havia sido quebrada pela primeira vez em semanas.
A ameaça iminente do tédio que a assombrava junto do frio fez com que a bailarina, em um ímpeto de força, se levantasse de sua cama e saísse do conforto de seu cubículo, pronta para enfrentar a manhã gelada mais do que desconhecida para seu corpo acostumado a ver a luz do sol apenas após o meio-dia. Após acordar propriamente e tomar seu café da manhã, lembrou-se do convite feito por uma das novatas do segundo ano, Elisa. A garota parecia animada para visitar o rinque de patinação de gelo há alguns quarteirões do colégio, e nem mesmo o mau humor habitual de Rachel foi capaz de fazer com que negasse a visita ao local. A bailarina sentia que o descanso deslizando pelo gelo por algumas horas faria bem a si mesma, apesar de não ser acostumada a aceitar passeios de desconhecidos.
Munida de dois casacos grossos, calça térmica e mais algumas camadas de tecido resistentes o suficiente para suportar o clima ameno de Seoul, Rachel enviou uma mensagem para Elisa, avisando que esperaria pela garota nos portões do colégio. O único conforto no momento era, talvez, a inexistência da neve que atrapalhava todos os seus planos toda vez que resolvia cair.
Aquele era o primeiro sábado que Elisa iria poder sair da escola e ela estava imensamente feliz por isso, a monotonia dos uniformes e aulas já estava quase matando a menina. Na noite anterior tinha convidado uma de suas veteranas pra ir patinar no gelo, fazia meses que não patinava então seu coração variava entre a saudades dos patins e o medo de estragar tudo e Rachel nunca mais conversar com ela.
Depois de tomar o café da manhã com os outros alunos Lisa retornou ao dormitório e foi se arrumar para sair com Rachel, colocou uma roupa confortável e parou de frente ao espelho e começou a passar algumas regras pra si mesma “Ok lisa, essa pode ser sua primeira amiga então não estrague tudo. Não faça piadas, não fale sobre o processo de produção do vinho, não seja Uma stalker fotografica e acima de tudo: não denigra sua imagem na primeira semana de aulas”.
Rachel tinha enviado uma mensagem para Elisa, avisando para se encontrarem as 10:00AM no portão da escola, quando se aproximou do horas a caloura reuniu seus pertences e saiu saltitante em direção ao ponto de encontro. Assim que avistou a veterana acelerou o passo e deu seu melhor sorriso dizendo um “bom dia” extremamente animado e logo em seguida as meninas começaram a caminhar pela calçada da escola.
O rinque não ficava muito distante então seriam apenas alguns minutos andando. No início Elisa estava quase tendo uma epifania tentando formular um assunto que não envolvesse animais de estimação, já que não sabia se Rachel tinha algum, ou vinhos e foi quando lembrou que Rachel era bailarina. Ainda um pouco tímida Lisa perguntou quando a outra menina começou na dança e dali começou uma conversa animada sobre arte.
Elisa estava muito surpresa com o quão Rachel estava sendo simpática, já que ouvia pelos corredores que a veterana era fria, arrogante e não pensava em nada além do seu próprio bem estar.
A caloura estava contando como se apaixonou pelo ukulele ainda durante a infância, quando avistou o rinque e seu sorriso aumentou de uma maneira quase assustadora. Poucos metros depois, as meninas já estavam em frente a portaria do estabelecimento
Rachel já se encontrava à beira de um surto quando Elisa finalmente chegou. O frio era tanto que a obrigava a dar pulinhos para se esquentar, nem mesmo as camadas grossas de roupa resolvendo a agonia absoluta do vento gelado. O suspiro de alívio que dera ao avistar a novata havia sido praticamente desesperador, e a madrilena se permitiu sorrir na presença da mais nova, cumprimentando-a rapidamente enquanto seguiam para fora dos portões e para longe dos olhos de águia dos vigias do colégio.
Não pôde deixar de notar o desconforto aparente da loira enquanto as duas andavam lado a lado, o divertimento praticamente aparente no semblante de Rachel enquanto jurava ouvir as engrenagens na cabeça de Elisa girarem para iniciar uma conversa. Sabia da reputação ruim que possuía, mesmo que extremamente fraca: preferia acreditar que era absolutamente desconhecida, um fantasma vagando pelas salas de aula e pelo estúdio de dança. Apesar disso, ficou impressionada com a pergunta que a garota lhe fizera. Falar de dança era sempre um ótimo jeito de iniciar uma conversa consigo.
— Eu praticamente nasci fazendo um pliè. Minha mãe era bailarina também e me largava em qualquer canto da companhia que dançava lá em Madrid, então as professoras e alunas mais velhas meio que me acolheram... — Rachel iniciou o discurso de sempre com uma ruga de irritação se formando na testa. Lembrar-se da mãe era sempre o gatilho mais óbvio para fazer o sangue borbulhar de ódio. — Daí eu peguei gosto pela coisa. Era bem esforçada quando era pirralha e o resto acabou vindo naturalmente. Você pode passar lá no estúdio qualquer hora caso queira me ver dançar.
Elisa, após ouvir sua trajetória no balé, entrou em um monólogo longo sobre o instrumento que tocava, um ukulelê. A mais velha forçou um interesse louvável até notar que estava se divertindo com o assunto, reforçando aqui e ali com os instrumentos que eram de seu próprio gosto. Distraiu-se o suficiente para sequer perceber que haviam chegado no rinque de patinação, apressando-se para alugar um par de patins de gelo, enfiando os pés dolorido nos sapatos e certificando-se de amarrá-los bem. Após firmar-se no rinque liso e deslizar algumas vezes lembrou da presença da loira, virando-se para aguardá-la. — Você patina bem?
Gabriela Mistral, from The Collected Poems & Prose; “Quietness,” wr. c. 1931
Artists of San Francisco Ballet
Act 2 of Giselle
ice skating queens; rachel&elisa
saturday morning, december 22. school gates. public.
@sfhs-lisa
A primeira impressão que Rachel teve ao acordar naquele dia havia sido o frio doloroso que penetrava o quarto escuro. Nem mesmo o ninho de cobertores grossos feitos por ela para barrar a entrada do ar gelado fora capaz de salvá-la do desconforto e da tremedeira habitual: resmungar e esconder-se em sua cama acabavam por não ajudar em nada, também. Por algum motivo desconhecido, a bailarina havia acordado naquele sábado sem um pingo sequer de sono: sua rotina de finais de semana, que consistia em virar-se de um lado pro outro na cama por longas horas, havia sido quebrada pela primeira vez em semanas.
A ameaça iminente do tédio que a assombrava junto do frio fez com que a bailarina, em um ímpeto de força, se levantasse de sua cama e saísse do conforto de seu cubículo, pronta para enfrentar a manhã gelada mais do que desconhecida para seu corpo acostumado a ver a luz do sol apenas após o meio-dia. Após acordar propriamente e tomar seu café da manhã, lembrou-se do convite feito por uma das novatas do segundo ano, Elisa. A garota parecia animada para visitar o rinque de patinação de gelo há alguns quarteirões do colégio, e nem mesmo o mau humor habitual de Rachel foi capaz de fazer com que negasse a visita ao local. A bailarina sentia que o descanso deslizando pelo gelo por algumas horas faria bem a si mesma, apesar de não ser acostumada a aceitar passeios de desconhecidos.
Munida de dois casacos grossos, calça térmica e mais algumas camadas de tecido resistentes o suficiente para suportar o clima ameno de Seoul, Rachel enviou uma mensagem para Elisa, avisando que esperaria pela garota nos portões do colégio. O único conforto no momento era, talvez, a inexistência da neve que atrapalhava todos os seus planos toda vez que resolvia cair.
Misty, seductive, unreal.
Amy Lowell, from “The Cremona Violin,” written c. September 1919 (via violentwavesofemotion)
Dancers of the Bolshoi Ballet backstage during Swan Lake (photos by Sasha Gusov)