Olá novamente leitor assíduo. Veja que já suponho que esse não é o primeiro texto meu que você lê, mas o último. Só houveram 6 posts contando com esse até agora. Então acredito que você tenha descido o feed e lido todos eles até este último, não é mesmo? Que bom que sim! Fico feliz que você esteja incluído nesse envolvente Tumblr. Mas enfim, hoje quero lhe falar de um assunto que tem me incomodado recentemente. Já que se materializa inteiramente na figura de uma só pessoa, que por um acaso está hospedado em minha casa. Ou não tão acaso assim, como se perceberá. Mudarei nomes e direi alguns fatos a mais a fim de me proteger de eventuais processos injustos contra minha pessoa. Dirijo esse texto aos leitores homens, mas convido as mulheres a que critiquem-nos todos, os machos alfa.
Apesar de ter começado o presente texto com uma linguagem leve e um tanto cômica, não objetivo a sua risada daqui em diante. De fato, pensar sobre isso levou-me às lágrimas na madrugada passada. Uma única frase dentro de um contexto específico causou-me um misto de sentimentos, tais quais ira, tristeza, vergonha, desesperança e outros sentimentos que provavelmente não conseguirei nominar. Antes de lhe recitar a frase, porém, preciso explanar aquele contexto, que envolve: 1. o emissor e 2. os precedentes.
João Ricardo é um jovem de 26 anos que acaba de terminar um casamento que durou 3 anos. O motivo é o de que fora traído diversas vezes pela sua cônjuge, a qual não sei o nome. Verdade seja dita, ela realmente o traiu. Mas outra verdade, ocultada por ele, também seja dita: ele também a traiu. De maneira que não ouso colocar a culpa em nenhum deles especificamente, mas na relação tóxica que construíram. Não importa aqui quem foi o primeiro a trair. Afinal, se um casamento é um ciclo de vinganças mútuas, ressalto, há algo de errado nessa relação. Não quero entrar nesse mérito, porém. Não quero ser juiz de uma relação que nunca tive a oportunidade de acompanhar. E nem condenar alguém que nunca tive a oportunidade de conhecer - que é a sua cônjuge. Mas conheço João Ricardo. Pois foi meu amigo de infância e compartilhei diversas experiências com ele. Sendo assim, habilito-me a julgá-lo, mas com ressalvas.
Para ser justo, antes dessa última experiência dele hospedado em minha casa, não o via há 10 anos. Todos sabemos que uma pessoa transforma-se completamente em 10 anos e, com certeza, foi o que aconteceu com ele - e comigo. Por isso todas as opiniões que trarei são refutáveis, e, inclusive, espero que você me refute, meu sábio leitor. Enfim. Após o término de seu casamento, João Ricardo arruma as malas e corre em direção a Florianópolis na intenção de espairecer a cabeça, cidade em que habito. Aí mesmo que recebo dele uma mensagem, em que me diz o quanto está triste e que queria encontrar-me. Conta-me por cima o que houve, dizendo-me que havia se divorciado e que necessitava de companhia. Tive pena, apesar de não ser o mais nobre sentimento nesses momentos. Convidei-o a ir em um churrasco de família que ia. Foi a partir de então que soube melhor da história de sua relação e dele mesmo.
João Ricardo serviu o exército durante o tempo de 2 anos. Destacando-se como um grande soldado, foi escalado como ponta de lança em uma missão de intervenção militar nas favelas do Rio de Janeiro. João me contava com prazer dizendo-me sentir como se estivesse em um jogo de Counter Strike. Gabava-se de sua determinação e coragem, de como estivera nos locais de maior risco à vida e, ainda assim, não havia levado nenhum tiro sequer, mesmo sendo o primeiro da linha de combate. Confesso que a maneira empolgada com que me contava suas histórias de guerra despertou em mim um sentimento ambíguo: aquele sentimento que temos quando vemos um daqueles filmes americanos em que um soldado, por não saber lidar com as atrocidades da guerra e com os pesadelos que o assombram, disfarça o trauma em uma fantasia de heroísmo e de indestrutibilidade, anunciando a todos a sua bravura e habilidade por ter sobrevivido, quando na verdade, ele simplesmente não sabe lidar com o que lhe acometeu. Sentimos como se devêssemos insistir para que faça tratamento psicológico, e temos vergonha de ter nojo de seus dizeres, já que o consideramos um alguém que passou por traumas diversos e que só encena algo que ele realmente não é. E temos razão em querer acolhê-los. Já que se não resolverem esses internos patológicos, serão sempre emocionalmente indisponíveis, entre outras possibilidades de máscaras.
Esses disfarces pareciam cada vez mais com o que descrevi. João é extremamente extrovertido, e tem uma boca sem freios e censura. Não importa com quem está falando, se velhos ou crianças, se homens ou mulheres, seu discurso é sempre o mesmo. Alguns tópicos são: as histórias de guerra e exaltação de sua própria habilidade e da adrenalina; um narcisismo estapafúrdio - chegou a dizer inclusive que faria uma estátua de ouro de si mesmo para se não houverem mais homens no mundo, as mulheres admirarem a mais perfeita espécime do passado -; os rolês e muitas festas, e quantas mulheres pegava e quantos “contatinhos” possuía - dizia, por exemplo, que recém mudado o status do facebook, mais de uma menina mandara-lhe mensagem implorando pelo seu beijo -; e, é claro, a sua ex, o quanto ela era mau caráter e o quanto ele ainda a amava.
Não era fácil andar com João nas ruas - ou em qualquer lugar. Fomos à praia. Chamei uma amiga. A primeira coisa que me perguntou era se podia pegá-la - como se fosse minha a autoridade de permiti-lo. Andando na praia, e no caminho de volta a casa, exibia-se tirando a camisa e dando boa tarde a todas as meninas “gostosas” - como ele chamava - com quem cruzamos. Além de não retirar o olhar delas até que sumissem da vista e agradecer a Deus em alta voz pelo corpo delas, que desejava possuir. Contava, inclusive, seus planos de abrir uma casa de festas 24h por dia, em que homens pagariam 5 reais e mulheres 2 reais.
Não era fácil apresentar conhecidos para ele. Minha namorada mesmo, que estava lá durante os dias em que estive com ele, soube que ele poderia passar dos limites. Eu não sentia como se pudesse confiar nele para não tentar seduzi-la. Não digo isso como se eu a precisasse defender ou como se ela fosse a minha posse, de quem devo proteger de outros homens. Só não queria que, de fato, ela passasse pela situação de um amigo meu lhe tentando seduzir e ela ter de lhe rechaçar, com raiva. Tanto é verdade que não podia confiar-lhe que quando ela ia embora, ele quis ir para a cidade dela. Além disso, quando ela ia para a rodoviária, ele queria que o deixasse junto com ela. Não encontro outros motivos para que ele fosse para a cidade dela, e nem sei onde ele planejava hospedar-se.
Para ser bem sincero, no momento em que ele foi embora para a casa onde estava se hospedando aqui em Florianópolis, torci para que não mais nos encontrássemos. Primeiramente porque não aguentava mais estar com ele. Depois, porque mesmo que eu pudesse fazer um esforço em nome de ajudá-lo, não me sentia apto e nem mesmo responsável, já que nem mesmo sentia a liberdade de lhe dizer tudo o que queria - não nos falávamos há 10 anos!! Ontem, porém, ele perdeu o ônibus e o lugar onde podia ficar. Suspeito porém que o fez propositalmente. Tive raiva, não queria o receber em casa. Mas não havia como abandoná-lo sem lugar onde ficar, mesmo que não acreditássemos que ele realmente havia perdido o ônibus.
“Mas por que você suspeita que ele mentiu, Lucas?”. É o que você deve estar perguntando. Primeiramente porque ele já me dissera que não queria voltar para casa até fevereiro e faria de tudo para não ter que fazê-lo. Além disso, já havia se gabado como um mentiroso habilidoso, que conseguia convencer a todos de suas falácias. Depois, disse que não havia ônibus. Achei 14. Disse que era necessário que fossem convencionais. haviam 7. Disse que não haviam vagas neles. O primeiro que abri possuía 12 vagas. Por fim, a primeira coisa que me perguntou ao nos sentarmos para falar era onde era a 1007, uma balada de Florianópolis, já que marcara com uma menina e a faria pagar o seu ingresso para entrar. Queria ir nesse “rolê” desde manhã. Estranho.
Já estava extremamente enraivecido, leitor. Não mais sentia pena de sua condição e nem considerava mais a sua história passada e como ela influenciava em sua personalidade expansiva e absurda. Personalidade de macho alfa. Aliás, se você estiver lendo isso, meu amor, peço desculpas de novo pelas várias mensagens que mandei para você ontem, enquanto estava exageradamente bravo com a situação toda e com ele. Essa mensagem não foi para você, leitor, a não ser que você seja meu amor.
A gota d’água, porém, foi quando ele sentou ao meu lado e começou a falar acerca das suas 10 “namoradas”. Foi quando ele soltou aquela decepcionante frase: “tô aqui cultivando o meu rebanho né, sabe como é?”. AHHHHHHHHHHHH. Raiva. Fúria. Ira. Cólera. Furor. Zanga. Asco. Ojeriza. Execração. Desprezo. Todos os sinônimos que você puder achar, leitor. Odiei a existência de João naquele mísero momento. Eu, que muito dificilmente me estresso, explodia raios internos de sinônimos de raiva. Não odiei somente a ele naquele momento. Odiei a todos os caras, inclusive a mim mesmo, por atitudes como essa. Por nominar mulheres de rebanho e reduzi-las a pedaços de carne consumíveis em uma só refeição, ou quem sabe duas, mas nunca as considerando pessoas com algo mais do que corpos.Odiei-me por pedir nudes para a minha namorada de forma insistente, às vezes, e equiparei-me ao João e senti uma fúria descontrolada de mim, e uma tristeza profunda e incomensurável, além de uma vergonha de uma atitude abjeta e vil. Senti vergonha de todos os machos-alfa e de todos os pais que os ensinaram que essa maneira de ser é a melhor. E que não lhes permitiram a sensibilidade e a fraqueza, e nem o afeto carinhoso. Raiva e vergonha. Raiva e vergonha. Tristeza. Tristeza. Lágrimas.
Hoje já é o dia de amanhã. Confesso que os meus pensamentos hoje são ambíguos novamente. Não sei se devo culpabilizá-lo totalmente e tentar ajudá-lo a superar seus traumas, ou se devo desacreditar da existências desses traumas e enfurecer-me com ele. O mais importante do dia de hoje, porém, é que aquela raiva tornou-se em indignação. A raiva é uma paixão irracional aplicável a um momento isolado. A indignação é uma raiva que se transmuta em luta. Sei de meu lugar de fala. Por isso não posso falar para mulheres e ensiná-las pelo que, e com quem lutar. Longe de mim pensar que poderia fazê-lo. Por isso esse texto é para você, leitor macho-alfa.
Você não é um vaqueiro para colecionar rebanhos. Você não é um robô para não possuir sentimentos. Você não é um ignorante para deixar de apreciar a arte e a poesia, renegando-as a afetividades inferiores à brutalidade. Você não é apito para assobiar nas ruas o dia todo, aliás isso é só escrotisse. Você não é apto para controlar o que “sua” mulher veste e o que, e com quem, fala. Se você faz isso, encorajaria ela para que te abandonasse. E você, cara desconstruído, não é apto para ensinar como as mulheres devem se defender dos homens babacas. Sabia que quando você pensa que é necessário a sua presença para ensiná-las, você as rebaixa? E olha só, é mais um daqueles babacas que você tanto xinga. Você não pode culpar os seus pais se você já sabe que o que faz é machista. Está na hora de mudar. E você deve sim ouvir quando alguma mulher lhe diz que o que você faz é uma atitude que a rebaixa. Quem você pensa que é, ó todo poderoso, para saber mais do que elas próprias sobre o que as afeta ou não? Abracem seus filhos! escovem seus cabelos! Chore junto com eles e os deixe chorar sem reprimir-lhes as lágrimas! Deixem que as mães ensinem os filhos sobre respeito às mulheres! Não “ajudem” as mulheres em casa, como se fosse delas o dever de manter a casa limpa, Sejam sócios e não auxiliares! De onde vocês tiraram que existe um lugar apropriado para que cada sexo fale? Quem disse que é você quem manda em casa? Que é você que deve sustentar a mulher e é você quem deve educá-la? Se você conseguir achar um motivo sequer que justifique esse seu domínio idiota, fale, por favor. Spoiler: não vai achar!
Amigo leitor, tenho muito a dizer e você tem muito a me xingar. João Ricardo me ensinou uma coisa. Existe uma estrutura que nos compele a determinadas atitudes de macho-alfa. E isso é cruel, conosco homens e, principalmente, com as mulheres que estão ao nosso redor - e não falo de sexo aqui, mas de gênero. Tal como os traumas a que João está submetido, que não lhes nego a existência, todos temos propensões sociais que nos movem a atitudes padrões de desrespeito às mulheres. É fato. Também é fato que o social é muito mais forte que o individual, e que muitas vezes não estar nesses padrões é ser excluído socialmente. Ser chamado de gay - apesar de eu considerar um elogio - pode ser um xingamento para você. Mas a estrutura social não nos determina. Eu tenho aprendido a adotar atitudes não machistas. Acredito sinceramente que tenho avançado muito no respeito que é necessário dar às mulheres. Ainda assim, muitas vezes falho em coisas que nem mesmo eu sei que estão erradas. Mas aprendo. E batalho contra essa estrutura que ousa me dominar. Não vai. Amigo macho-alfa, quer ser o mais fodão de todos os caras que existem? Que tal vencer a maior de todas as bestas? Que domina todos os homens de alguma forma e que os submete a algum tipo que seja de dominação. Que tal enfrentar e vencer o machismo? Mano, dessa maneira você vai ser o cara mais foda que eu já vi. O verdadeiro alfa. E fique tranquilo, essa besta todos podemos enfrentar, e juntos. Então, o que acha? Bora? Bora.
Ps: Lembra que falei que iria exagerar as situações? Pois é, não exagerei. Beijos.