Só fale comigo se for em preto e branco

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Tem gente no mundo esta noite
Arte é drogar a vida
Rasgar o rosto com o nada.
Fal(h)ar diariamente
Leonardo Lemos
Metzengerstein: um conto de imitação do alemão
Metzengerstein é um conto do escritor e poeta americano Edgar Allan Poe, o primeiro a ser impresso. Foi publicado pela primeira vez nas páginas da revista Saturday Courier da Filadélfia, em 14 de janeiro de 1832, em que Poe tinha 24 anos. A história segue o jovem Frederick, o último da família Metzengerstein, que mantém uma rivalidade de longa data com a família Berlifitzing. Suspeito de causar um incêndio que mata o patriarca da família Berlifitzing, Frederick fica intrigado com um cavalo até então despercebido e indomável. Metzengerstein é punido por sua crueldade quando sua própria casa pega fogo e o cavalo o carrega para as chamas. Parte de um hexâmetro latino de Martinho Lutero serve como epígrafe da história: Pestis eram vivus - moriens tua mors ero ("Vivendo, fui sua praga, morrendo, serei sua morte").
"Metzengerstein" segue muitos preceitos da ficção gótica e, para alguns, exagera essas convenções. Consequentemente, críticos e estudiosos debatem se Poe pretendia que a história fosse levada a sério ou considerada uma sátira de histórias góticas. Independentemente disso, muitos elementos introduzidos em "Metzengerstein" se tornariam comuns na escrita futura de Poe, incluindo o castelo sombrio e o poder do mal. Como a história segue um órfão criado em uma família aristocrática, alguns críticos sugerem uma conexão autobiográfica com seu autor.
A história foi enviada como inscrição de Poe para um concurso de redação na Saturday Courier. Embora não tenha vencido, o jornal o publicou em janeiro de 1832. Foi republicado com a permissão de Poe apenas duas vezes durante sua vida; o subtítulo “Um conto de imitação do alemão” foi descartado para sua publicação final. Poe pretendia incluí-lo em sua coleção Tales of the Folio Club ou outra chamada Phantasy Pieces, embora nenhuma das coleções tenha sido produzida.
#01 - Estudos Poéticos: Abecedário
Abecedário (termo do latim medieval para uma cartilha de ABC). Trata-se de um acróstico alfabético, um poema no qual cada verso ou estrofe começa com uma letra sucessiva do alfabeto. O abecedário foi utilizado frequentemente como instrumento espiritual ou meditativo no mundo antigo, utilizado para orações, hinos e profecias, mas também tem a função indissociável de ferramenta para ensinar a língua para as crianças. Na poesia divina, não apenas a palavra como também as letras e sons, a depender do padrão criado, comportavam significados místicos e poderes encantatórios — assim como também os números, a chamada numerologia. O abecedário, apenas uma de tantas outras formas, tem um apelo especial como uma literalização do tropo alfa-ômega.
Os primeiros exemplos documentados são semíticos, e abecedários tiveram uma importância em especial na poesia religiosa hebraica, a julgar pelas dezenas de exemplos no Velho Testamento. O melhor dentre tais exemplos é o Salmo 119, que é composto por 22 estrofes oitavas, uma para cada letra do alfabeto hebraico, e todos os versos de cada estrofe inicia pela mesma letra. O tipo mais comum de estrofe, no entanto, é aquele utilizado por Chaucer em seu “ABC”, em que apenas o primeiro verso da estrofe traz a letra. Os Salmos 111-12 representam o tipo astrófico, no qual as iniciais de cada verso subsequente forma o alfabeto. Na forma japonesa equivalente, Iroha mojigusari, o verso inicial deve começar com a primeira e terminar com a segunda letra do alfabeto, o segundo verso deve iniciar com a segunda e terminar com a terceira, e assim por diante. Uma quantidade exorbitante de abecedários sobreviveram do período da Grécia Clássica e do período de Alexandre, mas também foram populares na Grécia Bizantina e são numerosos os encontrados escritos em Latim Medieval: o famoso salmo contra a seita de Donato, de Santo Agostinho, é o exemplo mais remoto de verso rítmico medieval.
Como ferramenta instrutiva para crianças, o abecedário tem tido muitas formas popularmente conhecidas. Em inglês, o abecedário mais conhecido é a canção “ ‘A’—You’re Adorable”, de Buddy Kaye, Fred Wise, e Sidney Lippman (1948).
#02 Teoria da literatura - Hesíodo: Teogonia
O segundo poeta que tratou da questão da criação literária a sério (na medida do possível para seu tempo) foi Hesíodo, autor da Teogonia (séc. VIII-VII a.C.). Nela, o autor atribuiu a origem de seus versos às Musas, filhas de Zeus e Mnemosine, a personificação da memória. Habitantes do monte Hélicon, as Musas foram aqui chamadas de heliconíades. Foi por meio delas que Hesíodo diz ter adquirido habilidade de cantar, pois são elas as detentoras de todas as histórias das quais os mortais têm notícias.
Certa feita, quando pastoreava algumas ovelhas ao pé do divino monte, elas disseram-lhe as seguintes palavras:
“Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só,
sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos
e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações.”
Revelando, desta forma, terem o poder de contar “mentiras símeis aos fatos”, ou seja, semelhantes à verdade, belas mentiras que convencem o interlocutor. Para além disso, também disseram a Hesíodo que teriam a capacidade de transmitir revelações a seus adeptos. Elas então arrancaram o ramo de um loureiro para servir-lhe de cetro. Em seguida, Hesíodo relata que as heliconíades o inspiraram a um “canto divino”, para glorificar “o futuro e o passado”, jamais esquecendo de cantar primeiro e por último sempre em nome das Musas.
Cabe aqui um parêntesis: o costume de glorificar as Musas ao início e ao fim da narrativa aparece primeiramente em Homero e vai até pelo menos — não sei asseverar sua última aparição —, John Milton em seu Paraíso Perdido (1667). Até mesmo n’Os Lusíadas (1572) de Camões, temos uma invocação às Musas, ainda que para diminuí-las, por serem integrantes de uma cultura pagã, inferior à vigente sociedade cristã de onde canta o poeta lusitano. Séculos antes de Camões, Dante Alighieri (1265-1321) sequer cita as Musas, apesar de indicar, por meio de outros seres e elementos (Minos, rei de Creta; os rios Estige, Flegetonte, Cócito, Lete etc; o demônio chamado Pluto; o Cérbero; etc.) o vínculo de sua obra com a cultura greco-romana, a fim de demonstrar o cristianismo como continuação das culturas greco-romanas e judaica, mas como superação destas, por não terem Cristo, o Salvador, em seu cerne.
Hesíodo segue dizendo que, da relação de Zeus com Mnemosine (a personificação da memória), “nove moças” nasceram. São dançantes e festivas, de maneira que se dão bem com as Graças e o Desejo. As Graças (“Cárites” para os gregos) são três (de acordo com a tradição mais difundida: Aglaia (o esplendor), Eufrosina (a alegria) & Tália (a prosperidade); o Desejo, por conta do contexto, refere-se ao desejo amoroso, i. e., o Eros dos gregos (Cupido para os romanos).
Ao longo destes versos iniciais, Hesíodo nomeia cada Musa com o adjetivo que melhor define a cada uma, desta forma resultando na seguinte lista:
Glória (Clio para os gregos): Musa da história;
Alegria (Euterpe): Musa da poesia lírica e da música;
Festa (Tália): Musa da comédia e da poesia ligeira;
Dançarina (Melpômene): Musa da Tragédia;
Alegra-Coro (Terpsícore): Musa da poesia épica e da eloquência;
Amorosa (Erato): Musa da poesia amorosa;
Hinária (Polímnia): Musa dos hinos religiosos e do pensamento;
Celeste (Urânia): Musa da astronomia;
Belavoz (Calíope): Musa da poesia épica, da lírica e da eloquência.
Por conta delas, prossegue Hesíodo, conseguiam os reis formular bons discursos nas ágoras:
“Elas lhe vertem sobre a língua o doce orvalho
e palavras de mel fluem de sua boca. [...]”
Das Musas e de Apolo emana a força criativa de cantores e citaristas, da mesma forma que de Zeus emana o poder dos reis:
“Pelas Musas e pelo golpeante Apolo
há cantores e citaristas sobre a terra,
e por Zeus, reis. Feliz é quem as Musas
amam, doce de sua boca flui a voz.”
Por fim, Hesíodo conclui sua invocação às heliconíades com estes versos:
“Dizei como no começo Deuses e Terra nasceram,
os Rios, o Mar infinito impetuoso de ondas,
os Astros brilhantes e o Céu amplo em cima.
Os deles nascidos Deuses doadores de bens,
como dividiram a opulência e repartiram as honras
e como no começo tiveram o rugoso Olimpo.
Dizei-me isto, Musas que tendes o palácio olímpio,
dês o começo e quem dentre eles primeiro nasceu.”
Sou da opinião de que as Musas são cativantes como alegoria e símbolo das Artes que nos permitem memorizar os acontecimentos. Pode-se cogitar que seu irônico esquecimento tenha sua razão na ascensão do cristianismo. Pouco se aborda hoje em dia acerca das Musas no meio literário, e não se resguarda seu devido valor histórico como as nove moças fundadoras das Letras no mundo ocidental. São poucas as pinturas/esculturas que restaram, menos ainda dos detalhes do possível culto que lhes era prestado. O que restou foram representações de um pintor ou outro (é comum não encontrar um pintor/escultor que não tenha feito uma pintura para cada, para representá-las individualmente. São sempre esparsas as telas dessa natureza). Uma pena, pois gosto da ideia de se criar uma imagem para representar uma Arte ou uma Ciência, tal qual um corpus visual daquele setor do conhecimento, que simbolize sua beleza e humor (seriedade ou divertimento). A personificação é quase como uma grande letra que tenta abarcar todo o significado de uma área. Mas esse costume se foi.
Musa, provavelmente Clio, a ler um pergaminho (Cerâmica de figura vermelha. Vaso do tipo lécito (utilizado para armazenar óleos perfumados destinados ao cuidado do corpo), Beócia, cerca de 430 a.C.)
“Il miglior fabbro”
Por vezes, no meio do caminho da vida, perdemos o rumo certo que vínhamos trilhando. Foi o que aconteceu com Dante... e o que também aconteceu comigo, de certa forma — por sorte, antes dos 35. Dante também não soube explicar muito bem como, mas, com o tremendo sono que o assolava naquele dia, acabou adentrando uma tal selva obscura.
Às vezes é só o que se precisa pra que a gente se perca: um pequeno cochilo.
É claro que não sofro a penca de pendengas que o florentino sofreu quando teve que se exilar da cidade que tanto amava, mas não é menor a sensação de que a trilha desapareceu de meus pés.
Ao começar minha leitura da Divina Comédia (uma das obras seminais para a monografia que estou escrevendo), primeiro senti um cansaço: só a parte que antecede o poema já me havia rendido cerca de dez páginas de enumerações de nomes e afins (não à toa, a enciclopédia de Richard Lansing conta com 1035 páginas). Depois, curiosamente, o frescor do texto foi me dando um ânimo que só os clássicos conseguem proporcionar. Não nego que o texto tenha seu grau de dificuldade. Sempre que me vem a dúvida e as notas de rodapé não são suficientes, consulto a outra edição de que disponho, cotejo, pesquiso... por vezes não encontro mesmo a solução. Não esmoreço porque sei que muito até hoje ainda é um embate até mesmo para os mais experientes dantólogos.
A Comédia jamais será plenamente compreendida, em todos os seus mínimos detalhes. E são justamente esses momentos que tanto nos fascinam: cada vírgula que permanece insondável para a compreensão humana torna-se um ponto geográfico no livro. É como um ponto pouco conhecido na Terra, uma mata desconhecida pela qual passamos. É como ir a um museu e nos depararmos com um artefato, um objeto misterioso e de brilho próprio.
Qual a sensação de ler e não entender o significado de algo para nós que sempre imaginamos que a resposta para todas as dúvidas eram as palavras? Ninguém no mundo, ao longo de toda a história, conseguiu asseverar o significado das palavras de Pluto, o demônio que alegoriza o dinheiro, e que aguarda nas portas do quarto círculo:
“Pape Satàn, pape Satàn aleppe!”
É terror o que sentimos quando vemos na página o grito do gigante Nimrode, e não só a nossa impotência é ridícula, como também a do tradutor que (mon semblable, – mon frère!) deu o seu máximo e, não havendo resolução, optou por manter o verso como fora escrito na estranha língua que constava no texto original:
“Raphèl maì amècche zabì almi”
E assim, o desespero de Dante torna-se o nosso. Resta especular, e por séculos é o que temos feito.
Afora isso, devo dizer que, quanto mais leio a Comédia, mais pareço reencontrar os rumos de volta para a trilha da qual me afastei, que me levará para a civilização, para muito longe da barbárie dos danados do Inferno.
Mas o termo que mais me afagou o coração ao descobrir que provém da comédia foi Il miglior fabbro, “o melhor artesão”. É assim que T. S. Eliot se refere a Ezra Pound e é assim que este se referia àquele. Mas antes mesmo que Pound utilizasse o termo, foi Dante quem o cunhara em seu sacro poema, ao referir-se ao poeta Arnaut Daniel. A esse Dante chamou de miglior fabbro del parlar materno (o melhor artífice do falar materno).
São exemplos como esse que me tiram um pouco da inércia. É uma pena Arnaut Daniel estar no Inferno de Dante por conta da sodomia que praticava. Uma pena também que sua obra não tenha sobrevivido com a mesma força que a de Dante, ainda que o poeta teça a ele elogios que não teceu às qualidades de escrita de nenhum outro que figura na obra.
Mas são exemplos de vidas como as de Arnaut Daniel, Dante, Ezra Pound e T. S. Eliot que nos motivam a querer ser, talvez não Il miglior entre os fabbros, mas pelo menos lembrar que há trabalho a ser feito e muito ainda a ser tentado. Sonhar é bom, e tentar é um bom caminho para os vivos.
#01 Teoria da literatura - Homero: Odisseia
O excerto com que Roberto Acízelo inicia sua série de textos definidores da literatura não poderia ser diferente: Homero.
Nem sempre o estudo da literatura foi uma ciência como a temos hoje em dia (até porque, o pensamento científico é uma invenção recente). A literatura já existia antes do método científico que surgiu por volta do século XVIII. Ainda assim, seria inconcebível que os intelectuais não se debruçassem sobre esses textos e se questionassem quanto à sua natureza, função, finalidade…
Desde a Antiguidade o homem se indaga o que vem a ser a literatura, o que não é uma grande surpresa quando a gente para pra pensar que um dos carros-chefe do conhecimento da época era a mitologia. Talvez por isso, Roberto Acízelo intitula a obra primeira “Do mito das musas à razão das Letras”.
É por isso que a primeira parte do livro cobre “as concepções míticas” da literatura. Foi no canto VIII da Odisseia, dos versos 354-388 (curiosamente, na tradução de Carlos Alberto Nunes parece corresponder aos versos 476-513). Essa cena se passa em um banquete. O herói Ulisses rasga as costas de um porco e pede ao mensageiro que dê aquela suculenta parte do animal para Demódoco. Aqui cabe ressaltar a importância dessa personagem, que facilmente passaria batida para muitos (inclusive para mim): Demódoco pode ser tido como a figura do próprio Homero, pois, além de aedo, também é cego.
Ulisses dirige muitos elogios a Demódoco, representante dos poetas populares itinerantes, que são “caros à Musa, que os doutrina e inflama” (v. 363); portanto, a explicação deste primeiro momento para a manufatura da literatura é, como tudo o mais, mitológica. Essa concepção é de suma importância para a história dessa arte até, pelo menos, o século XIX, porque, se bem me lembro, ainda na época de Edgar Allan Poe (que era avesso a essa mistificação da literatura) se questionava de onde advinha a ideia e a visão para tais histórias. E é curioso perceber como era inconcebível para os homens da Antiguidade que um homem fosse capaz de narrar coisas que jamais ocorreram, ou que ele jamais vira com os próprios olhos, mas se põe a inventar.
Nesse primeiro momento a literatura era explicada pelo mito de que as Musas intercediam com visões de um passado remoto e contavam grandiosas histórias, e os aedos apenas as cantavam, meros instrumentos a serem inspirados para contar aquilo que não viram, mas sim os deuses. Febo Apolo tinha fortes relações com as Musas, o que também explica o motivo pelo qual Ulisses o cita junto das Musas: Apolo é o sol, o olho que tudo vê, que se posiciona acima de todos, iluminando (e vendo) a tudo. E em um movimento metalinguístico, a literatura era explicada pelo próprio aedo com mais literatura e narrativa… nada mal para um primeiro registro de tentativa de assimilação, rs.
E com esse lapso de teorização dentro do épico de Homero damos o pontapé inicial nas questões da teoria da literatura.
#01 De A a Z: Exílios (1918), de James Joyce
State of Exile (2016), Scott McLachlan
Essa é uma história de encontros e despedidas, permeada por tristes vigilantes de si mesmos. O título nos leva a pensar no conceito de exílio, cuja etimologia nos leva à ideia da expatriação e do degredo. O afastamento de um indivíduo de sua pátria pode ocorrer de maneira forçada ou voluntária. Em Exílios nos deparamos com o segundo caso: o escritor Richard Rowan (uma persona de James Joyce) decide deixar a Irlanda para morar em Roma; leva consigo sua esposa, Bertha (que corresponde a Nora Barnacle, mulher de Joyce). A obra, no entanto, se inicia no momento do regresso de Richard e Nora, nove anos após sua partida, agora acompanhados de seu filho de oito anos, Archie.
Em nove anos de exílio, muito parece ter mudado em sua relação, de modo que, apesar do retorno à terra natal, outros exílios (não menos literais) passam a emergir das ações das personagens. É então que nos deparamos com uma das principais peças para o desenrolar da trama: o jornalista Robert Hand. As notas de rodapé nos confidenciam que esta personagem é resultado da mescla de quatro homens de letras com quem Joyce teve uma inicial amizade e, posteriormente, desavenças e disputas amorosas: Oliver St. John Gogarty; Thomas Kettle; Vincent Cosgrave; Roberto Prezioso. A personagem Robert Hand representa também essa amizade de longa data que se desmancha em uma decepção amorosa. Em suma: a representação de uma amizade que se deixou abalar por conta de uma mulher.
E é a mulher, Bertha, a representação desta terra-mãe de que se afastou o indivíduo voluntariamente. Rowan já não sente mais que Bertha o ama tão fervorosamente quanto nove anos atrás, quando partiram da Irlanda. E sabe que, naquele tempo, disputava a mão da amada com seu amigo de festas, Robert Hand. Hoje em dia ele cogita que talvez Bertha seria amada e amaria com maior vivacidade e longevidade a seu velho amigo. Daí, passa a realizar o experimento: diz à esposa que ceda aos gracejos de Hand, a suas cartas de amor, seus olhares, declarações, presentes e… beijos! Tudo com seu consentimento, e com Bertha lhe contando os mínimos detalhes.
Rowan deseja saber principalmente o que Bertha sente em seu íntimo, para saber se corresponde ao amor que Hand a confidencia. Bertha faz tudo com muita relutância, pois ainda ama a Rowan, e justamente por amá-lo, obedece a seus mandos e desmandos, e se permite ser cortejada pelo outro. E assim, após seu retorno à Irlanda, o marido vai voluntariamente se afastando de sua mulher; a mulher vai, também voluntariamente, se afastando de seu marido, e um estrangeiro vai aos poucos desbravando a “terra” de Bertha; essa mesma terra que Bertha dera a Rowan, e para ele apenas.
Um outro motivo para Rowan planejar voluntariamente que Bertha o traira é justamente o fato de que a única pessoa com quem ela já se deitara e tivera relações fora com ele. Temos aí o que Richard Rowan configura como “morte da alma”, conforme explica a Robert Hand, seu antes amigo e atual rival, amante de sua esposa:
“Robert
(bruscamente) Ah, não me venha falar de culpa e de inocência. Você fez dela o que ela é. Uma personalidade estranha e maravilhosa — aos meus olhos, pelo menos.
Richard
(lúgubre) Ou a matei.
Robert
Matou?
Richard
A virgindade da alma dela.”
E mais à frente, nesse mesmo ato (o segundo):
“Richard
Você já pensou que talvez seja agora — neste momento — que a estou negligenciando? (nervoso, junta as mãos e se inclina na direção de Robert) Eu ainda posso ficar calado. E ela enfim pode ceder a você — totalmente, e muitas vezes.
Robert
(afasta-se imediatamente) Meu caro Richard, meu querido amigo, juro que eu seria incapaz de te fazer sofrer.
Richard
(continuando) Você então pode conhecer de corpo e alma, de centenas de formas, e sempre e sem parar, o que um antigo teólogo, Duns Scotus, acho, chamou de morte do espírito.”
Ainda sobre essa questão, em suas anotações para a peça Joyce definiu questões de “morte do espírito” e “virgindade da alma” da seguinte forma:
“A alma, como o corpo, pode ter uma virgindade. A mulher cedê-la, ou o homem tomá-la, é esse o ato do amor. O amor (compreendido como o desejo pelo bem do outro) é na verdade um fenômeno tão incomum que mal pode se repetir, já que a alma é incapaz de se tornar virgem novamente e não tem energia bastante para se lançar de novo no oceano de outra alma. É a consciência reprimida dessa incapacidade e dessa falta de energia espiritual que explica a paralisia mental de Bertha.”
Portanto, Richard deseja que Bertha perca a virgindade da alma ao deitar-se com outro que não ele próprio. Richard já traiu Bertha antes, e confessou a traição. Ainda assim, essa traição o corrói ainda hoje, pois ele sabe que Bertha sempre lhe foi fiel. Por conta disso, ele está pronto para deixá-la ir se essa for sua genuína vontade, pois jamais a aprisionaria e manteria em um estado de infelicidade. A questão é que, conforme o plano de Richard vai sendo descoberto por Bertha e Robert, toda a desconfiança de Richard se prova um mero devaneio. Sim, Robert se apossou de Bertha, mas seus gracejos só se intensificaram quando Bertha (a mando de Richard) passou a corresponder a eles. Nada disso teria acontecido se não fosse por Richard Rowan e sua desconfiança.
O derradeiro entre os exílios é o de Robert Hand. Depois que toda a trama é revelada e Bertha e Robert Hand notarem que estão sendo observados por Richard, Robert parece reflexivo, e decide ausentar-se da região por algum tempo:
“Robert
Ela chorou. Disse que tinha se divorciado de um advogado. Eu lhe ofereci um soberano, já que ela disse estar mal de dinheiro. Ela não quis aceitar e chorou bastante. Depois bebeu água de melissa de uma garrafinha que levava na bolsa. Esperei até vê-la entrar em casa. Depois fui a pé para casa. No quarto descobri que meu casaco estava todo manchado de água de melissa. Ontem não tive sorte nem com casacos: foi o segundo. Depois me ocorreu a ideia de trocar de terno e partir no primeiro barco. Fiz a mala e fui deitar. Vou pegar o próximo trem para a casa do meu primo Jack Justice, em Surrey. Talvez por uns quinze dias. Talvez mais tempo. Está entediado?
Richard
Por que não ir de barco?
Robert
Perdi a hora.”
Robert perdeu a hora, ou, como consta no original: I slept it out. Dormiu no ponto e perdeu a hora. Quem sabe com isso Joyce não esteja jogando com a ideia de que Robert perdeu a chance de ter Bertha para si, e a perdeu há nove anos; não seria agora que a roubaria de Rowan.
Robert parte e o que resta é um casal de estruturas abaladas pela desconfiança do marido. A personagem Beatrice Justice, apesar de constante na obra, não é relevante para o desenvolvimento da trama, senão para que Bertha teça rápidas teorias do interesse do marido por ela, pois ela parece entender melhor suas conversas profundas e intelectualóides.
Em suma, Exílios foi o melhor que James Joyce conseguiu fazer para o teatro, tendo sido a única peça que escreveu. Me entreteu na maior parte do tempo, porém, o desfecho me soou dramático e inacabado demais. O que acho que valha mais do que a peça em si são as notas que vem logo após, que nos permite compreender a razão da trama e as influências de Joyce para compô-la. Nada como ler as inspirações de um grande escritor para fazer algo — ainda mais quando ele vai mal em sua tentativa de fazer algo similar.
Não digo que Joyce “vai mal” só pelo fim da peça, mas pela tentativa de executá-la em palco e suas sucessivas rejeições; sobre a crítica que não se agradou; sobre o próprio Joyce, que assumiu ter muito ali de Ibsen e se tratar de uma simples corrida de gato e rato em três atos. Nada como a derrota de um nato vencedor. Por mais sem graça e batida que seja a peça, não sou tão lido quanto Joyce e seus críticos a ponto de ter a capacidade de trucidá-la — como ela parece merecer, ao que tudo indica.
Da sistematização
The Return of Ulysses - Romare Bearden (1976)
Olá!
Foi pensando na postagem anterior que decidi de estabelecer de antemão um planejamento da área que estudo academicamente desde 2017: a literatura. A seguir, vou nomear apenas os focos de leitura que pretendo realizar em paralelo, servindo este blog para destilar minhas impressões acerca das leituras:
Da literatura brasileira: Como o objeto de estudo de minha monografia é a obra de um autor brasileiro, e me enveredo cada vez mais para esta área, é pertinente para minha vida acadêmica a leitura sistemática da literatura brasileira. Essa sistematização vai ter como base, majoritariamente, as obras citadas nas notas bibliográficas da Formação da literatura brasileira de Antônio Candido. Mário de Andrade não estava tão errado after all... (se não entendeu, leia o post anterior);
Autores de A a Z: Mas Antônio Candido não estava nem um pouco equivocado. A literatura não perdoa os langorosos e se espraia a cada dia mais, e copiosas são as “folhas” que caem para fora das mentes dos escritores em meio a esta tenebrosa floresta de pensamentos. Esse foco de leituras terá como base uma lista idiossincrática, extensa e óbvia demais para que valha a pena compartilhá-la por inteiro aqui, mas que se inicia por Homero — sim, é uma lista óbvia a esse ponto.
Da teoria da literatura: Talvez algo que me entusiasme tanto quanto (ou até mais) a leitura de ficção seja a tentativa de explicá-la. E muitos estão tentando fazê-lo não é de hoje. Esse foco de leituras vai ter como base, majoritariamente, a trilogia de Roberto Acízelo que ficou conhecida como “textos seminais para os estudos literários”, quais sejam:
Do mito das musas à razão das letras (2014);
Uma ideia moderna de literatura (2011)
O labirinto e o plano (2021)
Essa trilogia sintetiza a tentativa de definir o que vem a ser a literatura e seu propósito, indo desde (uma vez mais) Homero, passando por Platão, Balzac, Kant, Raul Pompeia (não poderia faltar) até os mais recentes textos da área sobre a questão. É um apanhado que parte da concepção mítica e demonstra a gradativa alteração de percepção que culminou no presente olhar cientificista e empírico para o fazer literário.
O primeiro apanhado vai do século VIII a.C. até o século XVIII;
O segundo, de 1688 até 1922;
O terceiro, de 1922 até 2017.
4. Linguística: Desgarrado da enumeração principal, um dos estudos que mais negligenciei durante meus anos de graduação foi da linguística. Mas meu interesse pelas línguas e seu funcionamento, on the other hand, não é de pouco e sempre foi crescente. Sinto que devo maior atenção a esta área, e é o que vou tentar fazer de agora em diante com esse foco de leitura, que terá como base também uma lista um tanto quanto própria de obras. Acontece que o aprendizado de uma língua também se alterou com o tempo, de modo que a primazia da gramática normativa não vigora mais, e a linguística tornou-se um estudo mais aprofundado da língua do que as regras gramaticais meramente. O estudo da gramática é importante, mas deve-se ir para além dele.
Cito ainda uma frase de Acízelo acerca da relação entre linguística e literatura e seu grau de parentesco:
O estruturalismo, por fim, ao sustentar que a linguagem exercia funções variadas, à medida que pusesse em revelo um dos fatores presentes nos atores de comunicação [...] qualificou como poética a função que respondia pelo destaque conferido à mensagem, isto é, ao texto. A tese estruturalista, assim, concebe a poesia (tomado o termo na acepção ampla de conjunto das artes da palavra, aí incluídos, pois, gêneros da prosa de ficção e da dramaturgia) como lugar por exelência de manifestação da função poética da linguagem [...]. Para seus seguidores, por conseguinte, a literariedade [...] se define por um critério linguístico. A teoria da literatura, portanto, não seria senão uma parte da ciência geral da linguagem, vale dizer, consistiria, basicamente, numa seção da linguística.
É uma definição que ainda não fui capaz de digerir por completo, mas que, durante minhas andanças pela linguística, espero conseguir melhor compreender, até porque é ambiciosa a ideia e sinto que cada vez mais atual.
Por fim, tendo parido essa confusa quimera de texto, volto a atenção para a pintura escolhida para essa postagem: ela resume bem o momento de crise em que a literatura se encontra, ilustrando o desafio de assimilar os vínculos (e desavenças) que unem Antiguidade e contemporaneidade. Mas eles existem, e podem ser mapeados, por mais que toda essa história tenha se tornado, como bem coloca Acízelo, labiríntica.
Tentativa(s) e erro(s)
Todo pontapé inicial demanda um motivo. Por vezes, uma série deles. Este é o meu, e é doloroso anunciá-lo. Todo princípio pressupõe uma finalidade e — Deus me livre — um fim. Como as tendências de nosso tempo exigem celeridade e síntese, serei breve: este é um projeto que objetiva o estudo da literatura, tentando mapear o que raios ela foi e para onde se direciona.
Para tanto, anseio por trazer, nas próximas postagens, análises de leituras sobre obras literárias e de teoria da literatura, essa arte de (d)escrever a realidade, do uso estético da escrita para desenhar a sociedade por meio do vernáculo. Mas de que forma pretendo fazer isso?
Em uma citação que não consigo encontrar, uma indagação foi endereçada a Mário de Andrade: “por onde devo começar a estudar literatura?” Ele, nacionalista que era, respondeu da seguinte maneira: “do local para o universal”. É uma possibilidade, sem sombra de dúvidas. Mas é uma das possibilidades apenas.
Acontece que todo estudo demanda sistematização e metodologia. A vida intelectual (e, principalmente, tornar esse um negócio rentável) demanda método e noção quanto a “de onde partir?” e “aonde se pretende chegar?”. O local de chegada tende a ser uma abstração que, como diria Eliot: permanece somente num mundo de especulação. Nenhum intelectual chega em seu ponto final (pelo menos, não por conta própria). Isso porque, seja um estudioso da Antiguidade, seja da contemporaneidade, há algo sempre novo a ser dito e descoberto todos os dias na área das ciências humanas.
Portanto, não há razão para desespero: devagar e sempre, pois cada um de nós é um apenas, e os milênios passados foram muitos e compostos por muitos dias e acontecimentos. O que me serviu de centelha para esse insight de que todo estudante precisa criar um sistema (ou adotar um já existente, no mais das vezes criado por alguém mais experiente) foi algo que li em um livro de Roberto Acízelo quando da apresentação de Odorico Mendes. Após relatar sua formação (que além do mais, não conseguiu terminar os estudos em decorrência da morte do pai), Acízelo explica que Odorico tornou-se um político de carreira, mas que, devido a polêmicas no meio, optou por se afastar e enveredar para a literatura. Foi só então que deu início a suas traduções dos épicos greco-romanos. Até então, não havia uma “sistematização” por sua parte na literatura. Odorico Mendes traduziu a Ilíada e a Odisseia de Homero; assim como também, a Bucólica, as Geórgicas e a Eneida de Virgílio — o que configura a obra completa do autor latino. Certamente esse não era o fim do projeto de Odorico, mas o tempo é escasso, e precisamos pensar rápido e sistematizar bem as coisas, para conseguir realizar o máximo possível — ou ao menos o mais relevante possível.
José Guilherme Merquior não teria ido tão longe sem uma rigorosa sistematização de leituras necessárias a serem feitas. Em qualquer labirinto, a companhia de um plano é indispensável. Por isso, esse projeto visa a leitura de textos teóricos sobre literatura, seguido de sua recomendação (ou não) e comentário. Trata-se de um projeto feito por um brasileiro para os amantes amadores da literatura. Concordo até certo ponto com o conselho de Mário de Andrade, mas não discordo de Antonio Candido quando diz que não basta a leitura da literatura brasileira: nos isolamos da grandiosidade de outras literaturas se assim o fazemos; além do que, seria por demais demorado focar no local para só ir para o universal. Em minha opinião, é preciso criar etapas paralelas. É preciso pensar em tempo e espaço a fim de abarcar o peso da questão.
Não se discute que Homero foi o primeiro poeta do Ocidente, e, portanto, sua importância é incontornável. Suas palavras ecoam nas nossas. Isso dito, adotarei para o estudo da teoria da literatura os livros de Roberto Acízelo que ambicionam analisar a literatura e suas mutações ao longo do tempo, desde Homero até a contemporaneidade. Em outra frente de foco, estudarei a literatura nacional, não só por ser brasileiro como também porque meu objeto de pesquisa é obra de um autor dessa nacionalidade. Porém, é certo que não lerei textos nacionais apenas. Tenho interesse pela literatura como um todo, e por autores de outras nacionalidades, com toda a certeza. Sem falar no fato de que a leitura em si nos leva a uma série de descobertas e a ter que repensar o plano. É interminável a lista de livros para ler, e é necessário que o seja mesmo: há sempre trabalho a ser feito e conhecimento a ser adquirido.
Seja bem-vindo ao meu eterno ciclo de tentativas e erros!
“Books are not made to be believed, but to be subjected to inquiry. When we consider a book, we mustn’t ask ourselves what it says but what it means.”
— Umberto Eco, The Name of the Rose
Only flowers
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