A História Nossa de Cada Dia Nos Dai Hoje
O Brasil é uma nação plural. Todos têm pelo menos uma noção da diversidade que caracteriza o país: pluralidade de línguas, etnias e folclores, que fazem desse país continental uma verdadeira Torre de Babel. Falar de cultura é falar do respeito à cultura do próximo. Mas, e quando nem o próximo sabe da própria história?
O Brasil é um país de tradição indígena. Fato. As diversas tribos indígenas que aqui moravam, apesar de não possuírem uma identidade nacional (porque isso não fazia parte de suas culturas tribais), tinham conhecimento sobre o próprio território e sobre o território de outros povos. Cada um com sua cultura, hábitos e características físicas que os diferenciavam. Até que chegaram os europeus. Primeiro ponto: eles não colonizaram nada, pois o país nunca esteve vazio. Eles invadiram e tomaram posse de um território alheio, dizimaram diversas tribos e destruíram sua história.
Em face da dificuldade em escravizar povos não habituados a costumes imperialistas, os portugueses recorreram à África, berço da raça humana, possuidora de uma cultura, que apesar de milenar, só tem ganhado respeito e admiração na era contemporânea. Essas pessoas foram tiradas da sua terra natal, tiveram suas famílias destruídas e seus sobrenomes mudados propositalmente. Tudo para que não houvesse outra saída aos povos escravizados que não fosse a submissão aos exploradores. Nem direito à revolução eles tiveram. Nem quando foram “libertos”, pois não falavam a mesma língua, não tinham os mesmos valores e uma coesão social não pode ser conquistada do dia para a noite: construir uma identidade cultural em comum leva tempo. Séculos.
Afrodescendentes se tornaram. Estava bom? Claro que não. Esqueçam trabalho formal, liberdade de culto e dignidade. Universidade? Não para negros. E lutaram. Lutaram até não poder mais. Lutaram até que nenhuma voz se calasse diante de tanta injustiça. Conseguiram? Começaram. Construíram famílias, conseguiram emprego e se formaram na faculdade. Graças a eles mesmos. Sem dever nada a político nenhum. O movimento negro lutou e conquistou. Aqui não tem partidarismo: mesmo povo, mesma luta.
Na tentativa de corrigir os múltiplos golpes dados pelo império, voltaram à história: de onde vieram? Não sabem. Haviam sido mais usurpados do que poderiam imaginar. Sem direito à identidade, tiveram filhos, que também sem identidade foram nomeados. A periferia onde moravam, também sem identidade, não os respeitava: violência, insalubridade ambiental e falta de elementos básicos como o saneamento dificultavam ainda mais a inclusão. Ainda há aqueles que zombam (muitas vezes despretensiosamente) dos nomes dos descendentes da África. Zombam de uma suposta “americanização”, ou de uma tentativa de descaracterização da língua portuguesa. Mas eles não sabem o que é não ter um referencial cultural. Contentam-se com a desculpa esfarrapada de que são colonizados por Portugal (mesmo que muitos também tenham a sua carga africana no sangue, apesar de – tragicamente - não admitirem).
Assim, fica a torcida para que o coração africano que pulsa no Brasil, pulse também na África e projete a nossa história em livros de verdade, e não mais em cartilhas do – já morto – império. Inevitavelmente, por mais que não queiram, essa história será passada a limpo.











