Escritora, 34 anos
Escrevo sobre os amores e horrores dessa vida que carrega tão bem a dualidade da beleza e do grotesco
O mundo me é estranho e eu sou estranha ao mundo
Não sou perfeita, não sou bonita, não sou inteligente, não o suficiente, não fui escolhida, não sou a favorita, não posso, não quero, não consigo, não entendo e não acredito.
A noite é fria, coberta por uma neblina espessa e misteriosa, alguns pingos de chuva pesados grossos caem em meu rosto, misturam-se às minhas lágrimas, tornando gelado o que era quente. Ajoelhada ao chão em meio à grama e à lama, cavo com minhas próprias mãos, o mais fundo que eu conseguir, mesmo que me doam as mãos, mesmo que os dedos congelem, mesmo que minha visão fique cada vez mais embaçada, minhas roupas cada vez mais encharcadas, minhas pernas cada vez mais enlameadas. A cova precisa ser funda, onde não mais possa encontrá-lo, onde não mais possa resgatá-lo. O cansaço, a dor da alma e a dor física se misturam entre si, assim como a lama, a chuva, as lágrimas, dando origem a um imenso vazio, um buraco, profundo e grande o suficiente para se enterrar um corpo. Não mais o quero em minhas paredes, me assombrando, caminhando pela casa, sussurrando incessantemente para que sua lembrança seja constante. Seu lar agora será uma floresta densa, fria e distante, aonde meu péssimo senso de direção não consiga retornar, nem mesmo que eu queira, não conseguirei lembrar.
Com as mãos trêmulas, de frio, cansaço e arrependimento, empurro seu corpo na cova mais profunda que pude cavar para que nem mesmo se retornar dos mortos consiga me encontrar. O corpo putrefeito, já se decompondo, completamente irreconhecível, onde larvas já faziam abrigo, cai pesadamente e ali fica como se sempre tivesse pertencido.
Junto minhas últimas forças, com os olhos inchados e as mãos geladas, cubro de terra seu corpo uma vez tão vivo, tão quente, tão cheio de planos e sonhos, mas já faz tanto tempo, nem consigo me lembrar, mal consigo ver seu rosto e seu sorriso, não distingo mais o que foi sonho, ilusão ou realidade. Se alguma vez fomos felizes, não me lembro mais, não posso mais, preciso continuar minha vida, meu passado foi enterrado. Não há mais volta. Jamais.
Chega. Jogo todos os meus remédios privada abaixo, puxo a descarga enquanto olho fixamente a água enchendo. Nao dá mais para ser assim, apática, letárgica, os olhos secos como pedra, as mãos frias. Eu quero sentir amor de novo. Estranho, não era para a água já estar descendo? Isso não é um bom sinal. Água e comprimidos transbordam e escorrem pelo banheiro molhando o tapetinho, não dá mais para secar os pés. Isso não pode ser bom.
A vida continua, as contas para pagar, os problemas para resolver, as responsabilidades para evitar, o trabalho maçante todos os dias sem parar.
Vejo passando pela rua um homem alto, cabelos encaracolados, sorriso bonito, estou apaixonada. Preciso desse homem para mim e só para mim, ele é perfeito, como assim ele já tem alguém? Nao há ninguém melhor para ele do que eu.
No dia seguinte, eu posso jurar que aquele sorriso bonito foi para mim, claramente ele está perdidamente apaixonado por mim, afinal fomos feitos um para o outro, combinamos tanto, ele anda pela rua e eu passo por ele, sempre, todos os dias. É um sinal divino para ficarmos juntos.
Eu tirei as cartas, elas dizem que vamos ficar juntos para sempre, almas gêmeas, perfeitos um para o outro, basta só você perceber.
Observo você de longe, todos os dias, esperando ansiosamente o dia que perceberá o amor da sua vida ali parado a lhe esperar. Mas quanto mais o tempo passa, mais difícil fica para mim te observar. Vivendo sua vida, tendo relacionamentos, respirando profundamente, piscando lentamente, sorrindo para outra, como ousa?!
Corro em desespero, me tranco em minha casa, dou algumas passadas pesadas e me esforço pra chegar em meu quarto.
A água batendo em peito, subindo ao se juntar com minhas lágrimas, nao acredito que será assim que tudo acaba, afogada na água da própria privada.
Sentado no chão gelado da cozinha, à sua frente um pote vazio, sem sinal de comida, já faz dez minutos desde sua última refeição. Claramente não se importam mais com ele, a barriga ronca, a fraqueza toma conta, em seu último suspiro, um miado. Um humano se aproxima e repõe a ração. Tragédia evitada.
Deitada na cama, afogada na escuridão, tenho o pressentimento de que não estou tão só. Ouço passos leves, uma sacola se balançando, arranhões pelas paredes, rosnados suspeitos... Logo, vários pares de olhos cintilantes surgem no meio do escuro a me fitar em julgamento. Os gatos estão com fome.
Perdoa se não ouvi o que você dizia naqueles segundos em que me perdi no seu sorriso e só voltei ao som da minha mente gritando -Meu Deus, de novo, não! E sacudi um pouco a cabeça para dispersar o pensamento me dizendo o tanto que te amo que chega a ser ridículo na tentativa em vão de voltar a prestar atenção na sua narrativa que honestamente não consigo nem lembrar sobre o que dizia, só consigo lembrar de teus negros cabelos, das curvinhas do sorriso, da armação de teus óculos... -Meu Deus, de novo, não! Dei uma risada esperando que não fosse uma pergunta e esperando que meus olhos atentos te enganassem de que eu realmente sei do que se trata essa tua falação quando na verdade eu estou só pensando: -Meu Deus, de novo, não!
Quando certa manhã Helena acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama rodeada de gatos. O estranho disso tudo era que Helena não tinha gatos, nunca teve gatos, nunca nem gostou de gatos. Ainda assim, agora sentada em sua cama, estava na companhia de cinco gatos, todos pretos, alguns a fitando sem parar com seus grandes olhos amarelos, e outros apenas dormindo tranquilamente enrolados em si próprios e parecendo incomodados à medida que ela se mexia para levantar.
Saiu de sua cama devagar e cuidadosamente com medo de desagradar algum dos bichinhos misteriosos para poder ter uma visão geral do que estava acontecendo na tentativa de entender o que diabos estava acontecendo ali. Tentou espantar os gatos abanando as mãos e entonando “xô, xô”, bem de longe ainda com um leve receio dos bichanos se enfezarem e corressem atrás dela, mas isso não teve efeito nenhum sobre os gatos que continuavam ali como se nada estivesse acontecendo e como se sempre estivessem ali. Com um “xô” mais alto e mais prolongado e com movimentos exacerbados das mãos conseguiu uma mínima reação: um dos gatos a olhou e soltou um singelo miado quase imperceptível.
Saiu do quarto batendo os pés, já indignada com tais gatos estranhos na sua cama, pensou em pegar um balde de água para jogar neles, aí sim iriam embora, mesmo deixando sua cama ensopada, valeria a pena. Pegou o maior balde que encontrou, encheu-o de água e foi marchando decidida para seu quarto, mas para sua surpresa, não havia mais gato nenhum ali. Parada na porta do quarto com o balde em mãos cogitou estar então ficando maluca, ou talvez fosse isso tudo um sonho. Suspirou e virou-se para sair do quarto novamente quando deu de cara com os sete gatos todos espalhados pela sua casa e olhando diretamente para ela, no susto, derrubou o balde em si mesma, a água derramada foi se espalhando até encontrar as patinhas de um dos gatos sentado à sua frente e foi recebida com uma sacudidela da pata, um miado de reclamação e uma fuga para outro cômodo da casa.
Enquanto enxugava toda a água derramada no chão e os gatos a olhavam incansavelmente como se estivem julgando o quão bem ela estava fazendo tal tarefa, alguém bateu à porta. Levantou-se para atender e quando abriu a porta, percebeu que todos os gatos sumiram, achou estranho, mas pensou que talvez agora tenha se livrado dos gatos. No chão em frente a sua porta estavam dois sacos bem grandes, um de ração para gatos e outro de areia também para gatos, olhou de um lado para o outro no corredor, mas não encontrou sinal de ninguém que poderia ter deixado aquilo ali. Colocou os sacos para dentro, e, quando fechou a porta, todos os dez gatos apareceram ali aos seus pés miando estridentemente, arranhavam o saco de ração e mordiam seus tornozelos, uns começavam a subir nos móveis ao redor para conseguirem miar mais perto de sua face. Pensou que talvez estivessem com fome, não queria encorajá-los a permanecerem em sua casa, mas também não aguentava mais tanto assédio. Separou alguns potinhos e colocou água e comida para todos que finalmente pareceram se acalmar. Fez carinho em um deles que se aproximou e começou a se roçar em suas pernas, assim até que eles eram bem fofinhos, pensou.
Virou-se para sala, onde somente conseguiu olhar estatelada enquanto um dos gatos derrubava seu vaso de cristal de sua estante. Cínico, a olhava fixamente com seus grandes olhos verdes enquanto uma de suas patinhas redondas empurrava delicadamente o vaso ao chão da sala. Ouviu também um barulho estranho, como um engasgo, quando percebeu outro dos gatos em cima de seu sofá branco cuspindo uma enorme bola de pelos, ainda outro fazia xixi em seu tapete felpudo rosa bebê que tinha custado uma fortuna, e não queira nem saber o que ela achou embaixo do sofá após procurar pelo estranho cheiro que havia sentido. Começou, então, a arrumar, limpar e ajeitar sua casa para poder acomodar os quinze gatos misterosos. A casa definitivamente não estava à prova de gatos.
Em meio ao caos, com gatos correndo por toda a parte uns atrás dos outros, algumas briguinhas isoladas, vários miados de pedidos de atenção, barulho de coisas caindo, sendo derrubadas, sendo arranhadas, Helena se encontrava ajoelhada no chão, gotas de suor caindo pelo rosto, os cabelos desgrenhados, com dois ou três gatos observando ela esfregar seu querido tapete com esperanças ainda de recuperá-lo quando ouviu outra vez alguém batendo à porta, levantou-se devagar soltando um grunhido de dor e reclamação, tirou um pouco do pó nos joelhos e foi andando até a porta já esperando que todos os gatos se escondessem, mas dessa vez, não fugiram, foram na verdade se acumulando em volta da porta esperando que Helena a abrisse. Era seu namorado, a relação já estava desgastada, na verdade, Helena já não o suportava mais, começou a encontrar vários padrões tóxicos em sua relação quando começou a se aprofundar mais no feminismo que há tanto admirava, já não via graça nas piadas homofóbicas ou quando ele tentava controlar suas roupas, a quantidade de bebida e até mesmo suas amizades. Estava cansada, mas o relacionamento já existia há anos e não sabia o que fazer para finalizá-lo. Ao ver os quase vinte gatos rodeando Helena, seu namorado se assustou, mas mesmo assim deu um passo entrando na casa, acabou pisando no rabo de um dos gatos que reagiu com um miado histéricos e diversas arranhadas em sua perna, ao olhar em sua volta com sua perna sangrando a casa infestada de gatos e totalmente desorganizada, ele decidiu que não dava mais, terminou a relação ali mesmo e foi embora batendo a porta.
Estatelada, Helena permanece em pé parada em frente à porta por alguns segundos antes de abrir um grande sorriso. Resolve, então, tomar um banho para se deitar e descansar, deixaria o resto da bagunça para depois. Após um banho quentinho meticulosa e cuidadosamente observado por alguns gatos que pareciam um pouco confusos através do box do banheiro, Helena se deita em sua cama quentinha, com seus vinte e três gatos espalhados pelo quarto. A maioria em cima da cama, deitados sobre suas pernas, um em cima de sua cabeça, alguns pendurados pelos móveis. Em paz, Helena sorri, faz carinho em um dos gatinhos mais perto, fecha os olhos e dorme.
Chegou o dia da mudança, depois de muita procura, eu finalmente tinha achado a casinha perfeita em um lugar afastado de tudo e de todos que cabia no meu orçamento. Finalmente, teria paz.
O dia inteiro foi bem corrido e cansativo, e as caixas ainda se amontoavam por todos os cômodos da casa que já vinha com alguns móveis velhos dos antigos donos. A casa toda tinha um ar meio macabro, ainda mais agora sem a luz do sol. Alguns cômodos não tinham lâmpadas, os móveis antigos cobertos com lençóis empoeirados, algumas teias de aranha aqui e ali, o som da mata lá fora, tudo isso junto começava a criar um pequeno frio em minha barriga, que logo descartei, besteira minha, pensei.
Virei em um corredor e dei de cara com uma foto bem sinistra pendurada na parede, nela, dois velhinhos e uma criança claramente endemoniada, a coisa começava a ficar séria.
Decidi, então, dormir, minhas sinapses não estavam em sua condição normal obviamente, pois já estava certa de que a casa era pelo menos um pouco assombrada. Chegando ao quarto, tirei o lençol velho de cima da cama, espalhando poeira para todos os cantos, a rinite atacando, os olhos vermelhos e coçando, o nariz escorrendo, dei um espirro, esfreguei os olhos e me deparei com um tremendo rato morto bem no meio da cama. Evidentemente, obra de algum fantasma querendo me pregar uma peça. Certeza de que aquela criancinha do quadro com o demônio no corpo tinha voltado para perturbar quem quer que ousasse pisar ali na antiga casa dela. Dei um grito bem alto, um berro pavoroso, agudo, horripilante. Tudo em vão, ninguém me ouviria aqui nesse lugarzinho isolado dos infernos. Depois do grito, vi um vulto pequeno correndo desembestado pelo corredor passando pela porta do quarto. A criança do submundo, provavelmente. Com o lençol empoeirado e manchado nas minhas mãos, eu não conseguia me mexer. Olhava para o rato na cama, olhava para a porta do quarto e pensava: meu deus! Vão me encontrar morta junto a um rato meio decomposto e um lençol com uma mancha amarela supersuspeita, não posso morrer assim.
Reuni todas as minhas forças restantes, me apegando à vontade de não morrer em tais circunstâncias – dividir os vermes que me comeriam as carnes podres do corpo com um rato em um quarto sujo me parecia muita humilhação – fui, então, caminhando lentamente em direção à porta. Bem devagar, fui passando pelo vão da porta, me agarrando à parede como se ela pudesse me fornecer algum tipo de proteção, uma estabilidade pelo menos. De repente, todas as luzes se apagaram, passos leves no chão de madeira se aproximavam de mim e eis que surgiram dois grandes olhos redondos amarelos da criança fantasma me fitando sem parar e sem piscar um só momento, o medo alastrando ondas geladas pelo meu corpo, minha face pálida grudada na parede fria, o estômago dando voltas em si mesmo, a ânsia subindo pela garganta e a força escorrendo corpo abaixo pelas extremidades, inspiro bem forte e dou outro grito, dessa vez bem mais fraco que vai diminuindo se esvaindo aos poucos até se tornar um pequeno a desafinado. A criatura, então, ainda me encarando, grita de volta. Bem, não grita, na verdade, ela mia. Começo a achar suspeito, não sabia que fantasma miava. As luzes se acedem de novo, e, em minha frente, está um gato preto bem peludo com grandes olhos amarelos me olhando e me julgando. Aparentemente, agora eu tenho um gato.
I love you and I always will
That does not mean I will tolerate your
Bullshit anymore
We're in a fucking cycle
And I am fucking done with that
I can't take it anymore
Take your demons elsewhere
I have enough of my own
I am not your type
I'm not good enough for you
You keep falling over and over
for every pretty little girl in the world
But I'm not one of them
I'll never be
And I'm ok with that
So why the fuck aren't you?
Fuck yourself
Que final de merda foi esse nosso
Se a gente fosse uma serie
Eu estaria puta demais com esse desfecho
Me sinto a propria fleabag
Sendo trocada pela religião
A mesma que por anos me subjugou
Me podou, me traumatizou
Que tipo de nova ironia é essa
Mas que final de merda
O universo tá de parabéns
Transformar o ateu em crente
Só pra me irritar
Foda-se essa mariane aqui em particular
Vai passar
Bem-vindo ao Estranho, um mundo onde ser estranho é algo bom. Não importa se seu cabelo é preto ou roxo, se você é alto ou baixo demais, magro ou gordo em demasiado. Aliás, o mediano é que é estranhado. A pior coisa nesse mundo seria ser igual a todo mundo. Modificações corporais extremas são incentivadas. Quanto mais peculiar e mais específico seus gostos são, melhor. Os rejeitados de outros mundos se unem aqui para viverem em paz, para serem celebrados e reconhecidos em seu esforço de não se encaixar. O esquisito e o grotesco encontram seu lar, seja nojento, seja asqueroso, bote medo em quem passar. Todos são livres para se expressarem através do feio, da destruição, do terror e do horror. Não há religião, não há regras e não há governo. Torne-se detestável e ingovernável, veja se alguém aqui se importa. Seja tudo o que você quiser, só não seja mais do mesmo. Livre-se do belo antes de adentrar por nossas terras amaldiçoadas e você ficará bem. Ou talvez não.
O clima aqui é sempre cinzento e chuvoso, nuvens negras cobrem a maior parte do céu, e uma névoa espessa te impede de enxergar muito além, criando um clima de suspense eterno. A vegetação é densa e imponente, grandes árvores crescem do chão até aonde os olhos não mais alcançam. A fauna é incógnita, os animais estão sempre se esgueirando e observando os transeuntes, mas nunca se mostram completamente, talvez se consiga ouvir seus barulhos vez ou outra, uns olhos grandes e amarelos, uma cauda que passa sorrateira, mas nada além.
Para se alimentar há apenas comidas feias preparadas com ódio e possivelmente letais, como baiacu, mandioca brava, castanhas de caju, amêndoas e algumas sementes e o pudim de leite condensado da minha vó.
Acredita-se que todos são capazes de produzir arte, cada um no seu tempo e no seu modo. Há exibições por todos os lados, latentes e gritantes para incomodarem os acomodados e trazem paz para os atormentados.
Todos vivem praticamente isolados, em seus próprios mundos, lendo, escrevendo, pintando ou desenhando. Exceto quando entramos nas tours de grandes bandas de rock, aí todos se unem com um mesmo propósito de: bater cabelo e rodinha punk.
No mais, cada um no seu canto, sendo estranho e feio em paz.
Dispa-se do normal, arranque sua pele se necessário for e junte-se a nós.