Ela deixou sair um riso alto e carregado de ironia, algo que ele desconhecia porque ela nunca precisou usar esse tom com ele. Talvez já tenha visto outras vezes, com outras pessoas, mas não com ele. Nunca com ele. “ ━━ Eu não acredito em NADA do que você diz. NADA! ━━ ” E depois de gritar, porque parecia que agora só conseguia falar desse jeito, voltou a andar pelo quarto procurando o que mais poderia quebrar. Estava tão furiosa que queria quebrar até os pertences dos outros. Quem garante que os outros campistas daquele chalé sabiam da canalhice e vinham acobertando? “ ━━ Não foi um erro. Foi o erro. O maior erro da sua vida. ━━ ” E por muitos motivos, ela conseguia pensar. Porque ela queria fazer da vida dele um inferno, porque ela queria quebrar o quarto dele e até mesmo ele, porque ele havia perdido algo real. Tentou andar para trás, mas não impediu que ele se aproximasse, tocasse nela, e por um minuto ela deixou. Mesmo com a raiva, com o asco por agora só pensar na tal garota recebendo a mesma carícia, ela deixou. Porque queria deixá-lo ter um pouco mais do gosto dela, antes de lhe olhar nos olhos e lhe encher de perguntas que, na verdade, ela não queria respostas. Só queria lembrá-lo do quão idiota ele foi, e do que ele perderia por conta de sua atitude egoísta e canalha. Falava com uma voz tranquila, completamente o oposto do que estava segundos atrás. “ ━━ Quantas foram, Magnus? Quantas delas dormiram ao seu lado? Eu não estou falando de trepar, eu estou falando de dormir. Quantas delas ficaram do seu lado durante suas insônias? E quando sua maldição te perturba tanto que você surta, como eu surtei agora? Algumas delas foi sua parceira como eu fui? ━━ ” Talvez sim, e essa possibilidade lhe doía. Talvez ela não tenha sido boa o suficiente para ele. Não, Maddy, você não é essa pessoa. Em poucos segundos, ela quase deixou sua mente lhe levar para um lugar obscuro, onde se culparia por algo que ela era simplesmente a vítima. E, pela primeira vez desde que aquele inferno começou, ela chorou. “ ━━ Eu te pedi um bom motivo para não socar a sua cara. Você não me deu. ━━ ” Ela relembrou, sentindo a mão coçar para começar uma briga física ali mesmo. Desvencilhou o braço que ele segurava, com fúria, com grosseria, e andou até a cama completamente bagunçada. O corpo pesava, ela quase sentou, mas lembrar o que aconteceu ali lhe dava nojo. Procurou outro colchão e se sentou, apoiando os pés no travessão da cama e tentando controlar a respiração, enquanto as lágrimas não paravam de escorrer. Ergueu a cabeça para olhá-lo, os cabelos bagunçados de quem tentava se recuperar de uma crise de gritos, o reflexo perfeito de uma pessoa completamente destruída. “ ━━ Se não imagina uma vida sem mim, por que você fez isso? Eu não era o suficiente para você? Todas as declarações… E nossos planos… O quanto daquilo foi verdade? Se você ao menos se importa comigo, em consideração ao tempo que passamos juntos, não mente mais para mim. ━━ ” E depois de toda a raiva, vinha a tristeza, as lembranças boas que lhe doíam, a busca por um culpado. Porque era doloroso demais acreditar que tudo foi uma mentira, que não haviam culpados a não ser o ego e a canalhice dele.
Ela estava certa, aquele havia sido o erro da vida de Magnus, e ele conseguia reconhecer isso, tarde demais, mas conseguia. As pálpebras pesavam, e ele começava a ver tudo mais embaçado do que antes, alguns piscar de olhos e lá estavam as lágrimas caindo e rolando pelo seu rosto. Não era de chorar, contava nos dedos as vezes em que chorou de verdade. Quando viu o pai sendo agressivo com os irmãos mais novos, quando tivera que deixar sua família sem a menor ideia do que seria deles, e quando Osíris simplesmente lhe deu as costas, como se ele fosse uma decepção. Agora tinha mais aquele momento com Maddie, para adicionar a sua lista de choros. “Por favor, catnip, me perdoa.”. tornou a repetir, a voz embargada fazia com que as palavras saíssem com alguma dificuldade. A mão seguia deslizando e apertando com carinho o braço dela, como se desejasse sentir que aquilo era real, que ela estava realmente ali, despedaçada na sua frente. Não era um sonho, infelizmente, não era. O mudar de tom, o deixou atônito, surpreso e um tanto assustado. Conhecia Madelaine, sabia que ela costumava ser volátil, mas nunca o fizera com ele. Sempre foram uma constante, se conheceram da forma mais aleatória possível, se apaixonaram desesperadamente e ela sempre foi a sua pessoa. A mais leal, a mais fiel, a mais presente. O completo oposto de tudo que Magnus era. Suspirou e soluçou cansado, se dando parcialmente por vencido. Se fosse uma mensagem, um bilhete, uma roupa, qualquer outra coisa que Maddie tivesse encontrado, talvez ele tivesse chances. Mas ela viu, e depois daquilo, nada mais seria como antes. “Nenhuma. Só você.”. E essa foi a primeira verdade que ele conseguiu dizer na noite. Poderia ser um canalha, não valer muita coisa, mas ele não dormia com as outras. Considerava dormir um ato de vulnerabilidade e confiança, coisa que ele só se permitia demonstrar para e com ela. Ainda segurava firme a mão dela contra seu peito desnudo, lamentando-se por ter tempo apenas de colocar a calça. Os olhos tentavam buscar os dela, e se antes as lágrimas saiam com alguma relutância, agora elas corriam livres pela face do Lightwood, pois parecia que seu controle estava atrelado ao dela. Bastou que Maddie cedesse a dor, para que ele fizesse o mesmo. “Preferia que socasse minha cara, que me quebrasse em dois, em mil. Preferia qualquer dor física, do que isso que estou sentindo.”. confessou, sentindo-a desvencilhar dele, e até tentou segurar, mas não conseguiu. Seguiu seus passos como um cão abandonado, no instante em que ela se sentou, ele se ajoelhou a sua frente. Os braços envolvendo as pernas, não conseguia manter as mãos longe dela, como se precisasse daquilo para manter um pouco de controle, um pingo de sanidade. Naquela noite Magnus descobriu que não era só a voz de Maddie, cantarolando uma música em seu ouvido, que era capaz de silenciar as vozes. A discussão e a dor, conseguiam fazer o mesmo. Quase como se néftis assistisse de algum lugar o sofrimento do semideus, e decidisse lhe dar uma trégua. “Tudo foi verdade, Maddie. Absolutamente tudo.”. todos os planos de viagens, sonhos futuros, o que fariam daqui um mês ou um ano. Magnus não mentia sobre o desejo de estar com ela no amanhã. “Eu fui estupido, Maddie. Sei que não tem desculpas, mas também sei que somos bem mais que isso. Me dá outra chance, por favor.”.