Fotografias
Ainda hoje, ao abrir a gaveta da escrivaninha e encontrar as tuas fotografias, sinto renascer em mim um desejo antigo, quase visceral, de querer ser outra pessoa. Porque eu fui tantas, tantas! E, no fim, deixei-me reduzir a uma só. Acho que é por isso que, passados tantos anos, as imagens que guardas – ou talvez que libertas – continuam a maravilhar-me. Cada uma é uma história, um mundo inteiro em suspensão, a mesma mulher a multiplicar-se em versões tão diferentes, tão inesperadas, que me levam a perguntar: como pode tudo isso caber num único ser humano?
Eu, por outro lado, quando perdia uma rotina, perdia o mundo. Sem as linhas que os dias desenhavam, desfaziam-se os contornos do meu universo. Tudo ficava amorfo, indistinto, e eu já não sabia onde começava ou terminava o quê. As regras do quotidiano, essas linhas tão finamente traçadas, davam-me limites. Delimitavam-me. E, por mais que me queixasse da sua rigidez, eu agarrava-me a elas como quem se agarra à margem de um rio furioso. Elas diziam-me quem eu era, ou pelo menos quem eu deveria ser. Diziam-me como falar, como me apresentar, como existir. Porque tínhamos uma linguagem comum, não é? Uma linguagem onde não havia muito espaço para mal-entendidos, mas também nenhum para a Poesia.
E foi isso que percebi tarde demais: a Poesia não cabia naquele mundo que eu conhecia. Ela era o meu outro eu, o meu eu escondido, sussurrante, tímido. Um eu tão distante que parecia inexistente. Mas era eu. Era eu mais do que todas as outras coisas que eu tinha sido. Porque nesse eu cabiam todos os outros eus, os eus que nunca permiti que emergissem, que se mostrassem, que gritassem. Todos os eus que me habitavam e que, se eu não tivesse sido tão cobarde, poderiam ter reescrito a minha história.
E então, olho para ti. Para as tuas fotografias. Para o que elas revelam. E percebo: tu foste capaz de fazer aquilo que eu nunca fui. De dar corpo aos teus outros eus, de os deixar viver, de os imortalizar. Há uma coragem feroz em cada imagem tua, uma audácia que eu só agora consigo nomear. Porque tu te recusaste a ser uma só, enquanto eu, por medo, aceitei a abreviação de mim mesma.
Quem me obrigou a isto? Quem me estreitou, quem me encaixotou nesta forma reduzida? Foram eles? Fui eu? Talvez nunca saiba. Mas agora, olhando para ti, sinto que ainda há tempo. Talvez nunca recupere o que não vivi, mas talvez ainda consiga resgatar o que me resta. Ainda há tempo para devolver espaço à Poesia. Ainda há tempo para me multiplicar. Porque o que me dói não é o que vivi; é o que deixei por viver. E isso, talvez, ainda possa ser resgatado.
@martacasamorim














