eu queria ter a pele
e os traços
e a força de uma mulher com opiniões cortantes e inovadoras;
queria vestir a despreocupação que as minhas amigas têm quando elas vão a alguma festa
e dançam, aproveitando seus movimentos que combinam com as luzes coloridas.
eu queria ter a delicadeza de quem aprecia a vida escorrendo pelos lábios mas é educado demais para se sujar;
queria saber a hora de agir
a de deixar ir
e a de nem sequer estar.
eu queria conseguir me sentar e conversar com alguém sobre alguma coisa que, no fundo, eu não quero saber
só para que, quando nossos lábios se tocarem, possamos dizer que ao menos conversamos um pouco.
queria não me importar se a minha saliva
meu cheiro
meu toque
meu gosto
meu eu
for esquecido na manhã seguinte, de um domingo
e poder sorrir porque aconteceu e foi divertido e a vida segue.
eu queria que, desde pequena, eu soubesse o meu lugar no mundo e o que de fato eu faria no futuro
e, depois de crescer, eu distanciasse quem eu fui quando criança
de quem hoje eu sou;
olhar para os pequenos que querem sair com os mais velhos, achar graça deles, passar a mão em seus cabelos e dizer
não
porque é um programa adulto demais para eles irem.
“na próxima, vocês vão
eu prometo.”
(quebrar a promessa, esquecer que a quebrou
e não ter nenhuma culpa
afinal
são só crianças)
mas eu sou contraditória o tempo todo
porque a realidade bagunça a minha cabeça e eu só consigo me enxergar como um peão quebrado
dentro de um jogo de tabuleiro infinito.
sou desanimada demais para conseguir me divertir com músicas que estouram os meus ouvidos e que eu nem conheço ou gosto
e meus pés e braços e cabelos pedem para serem jogados pelos ares
sem pretensão de se mexerem de uma forma bonita ou ritmada
e eu sou tímida o suficiente para não abraçar o ridículo assim, em público
onde o meu ridículo seria apenas ridículo
e não com um quê de “tudo bem, ela é assim mesmo” porque as pessoas nem saberiam o meu nome.
o meu desajeito é explícito no meu andar
e no meu expressar;
se até quando eu como, vejo as migalhas espalhadas pelos meus fios e roupa
como então posso esperar que, a vida que há em mim, se manifeste delicadamente?
eu meto os pés pelas mãos quando dou atenção a aquilo que sinto e penso
por isso acabo parecendo louca
e aproveitando essa insanidade, viro e pergunto talvez sobre os sapatos
ou fantasmas
ou a estrada
ou sobre o ficar
porque eu não consigo usar as conversas como pretexto para algo
pelo contrário,
são as conversas que me conduzem.
eu não sou feita de goles rápidos
e eu me importo sim
porque a minha saliva
o meu cheiro
o meu toque
o meu gosto
o meu eu, não é cerveja barata de menino que busca diversão no final de semana
chega na segunda-feira e acredita que o viver foi aquilo que aconteceu no dia anterior.
eu não tenho a obrigação de divertir
nem de tontear alguém
e nem sei fazer a minha “auto separação”
porque duas menininhas se agarraram em mim e não quiseram me soltar o dia inteiro
disseram que eu as entendia e eu expliquei que quando as pessoas fazem aniversário
elas se esquecem como era ter a idade anterior;
eu não podia fazer isso com elas, as minhas menininhas
porque eu já fui uma delas
e eu devia conhecer mais nomes dos maiores diretores de cinema de todos os tempos
ou mais nomes dos escritores que revolucionaram o mundo.
eu já devia ter escolhido entre cinematografia ou literatura e focar em um;
o futuro é o que fica entre uma piscada e outra
mas como eu não ia fechar os olhos e sentir o abraço de duas menininhas agarradas em mim?
você me disse que preferia a simplicidade
desculpa, river
mas eu sou plural.
MV















