Não era segredo nenhum de que, por mais que James adorasse uma boa festa, ele também apreciasse os momentos que passava com sua família. Ainda mais depois de tudo o que acontecia em sua vida - quadribol, faculdade, um namoro -, o Potter sentia muitas vezes que precisava manter seus pés no chão; voltar às suas raízes por um tempo. O local preferido de todos os Weasley-Potter para aquilo era, obviamente, a casa dos avós Weasley, lugar onde tornava-se impossível não sentir-se bem vindo. Lembrava de que era seu lugar favorito de ir em sua infância depois do Chalé das Conchas, a casa de seu tio Bill e tia Fleur. Em parte porque Molly sempre enchia os netos de tanta comida e chá, e por outra pois era quando encontrava-se com seus primos e lá, naquela pequenina casa, eles não tinham a pressão de serem filhos de alguém. Eram só uma família como a outra. Por mais que não aparentasse, James gostava de ficar fora dos holofotes por um tempo.
Ao encontrar-se lá, parecia que nada havia mudado. Tirando o fato de que ele estava um metro mais alto, os móveis aconchegantes ainda estavam lá; a xícara de chá ainda repousava ao seu lado, soltando fumaça de tão quente. E, por mais que não esperasse, uma de suas primas estava lá: Molly. James nem sempre conseguia ter um bom relacionamento com todos da família - Dominique que o diga - mas com Molly tudo parecia se encaixar. De alguma forma os dois se entendiam em todos os aspectos, mesmo sendo tão diferentes. Mesmo com a presença dela ali, os dois demoraram a conversar. Esse fato se devia aos diversos álbuns de fotografia de sua família, o que arrancava boas conversas e risadas pela sala de estar de Molly Weasley. Até James possuia um dos álbuns em seu colo, admirando as fotos guardadas por seu pai. Ali, encontrava muitas lembranças de seu avô, um homem que nunca conhecera: o via em fotos com amigos, ele e Lilian segurando o pequeno Harry, felizes. Quando o olhava, parecia que a foto tentava conversar com ele. Como se aqueles olhos claros o transmitissem mensagens que nunca poderiam ser ditas em voz alta: Seja melhor. Você é um Potter.
A presença súbita de Molly ao seu lado fez com que James saísse de um transe, piscando os olhos algumas vezes para entender o que estava acontecendo. Assentiu silenciosamente quando ela lhe questionou, esperando o que vinha por ali. O assunto era conhecido por ele, mas não muito discutido; por mais que ele - e não somente, como a maioria de seus primos - se sentisse assim, tinha quase a certeza de que ninguém comentava uma palavra sequer, por medo de machucar os pais. Ainda sim, ele a entendia. A entendia porque a pressão de ser James Sirius Potter era gigante; os três de seus nomes tinham grande peso. “Sim” ele respondeu com certo pesar, baixando seus olhos. “É como…. se quando nossos pais olhassem para nós, estivessem olhando para outras pessoas. Porque não importa quão bom seremos, eu sempre lembrarei de James e Sirius, e você de Molly e Minerva” James desabafou, tomando um belo gole de seu chá quente para engolir o resquício de culpa que começava a invadi-lo ao dizer tais palavras. Não queria machucar seus pais; gostava de seu nome. Mas sabia que estava certo. Sabia que, assim como Fred, seus nomes os lembravam grandes homens, mas também grandes tragédias. E assim como Molly, lhe lembrava de que ele nunca conseguiria ser nenhuma daquelas pessoas.
A morena sentiu uma onda de gratidão ao ver que James Sirius entendia, e assentiu, dando um gole no seu chocolate quente. Seu casaco quente a confortava, e a bebida a esquentava por dentro, mas ela ainda se sentia tão vazia. Estava em uma casa onde tanta história tinha acontecido, pro mundo bruxo, e pra a família dela, mas até onde isso deveria se misturar? Olhou para o primo, e pensou em como a vida dele era intrinsecamente mais difícil nesse aspecto, pois ele era o filho do Menino-Que-Sobreviveu. A vida deles estava constantemente exposta em livros de história e revistas de fofoca. Se alguém descobrisse o que havia acontecido no clube e a chantagem que Elektra Mulciber estava fazendo com ela, se Elektra resolvesse vazar as fotos que havia tirado... Molly estava fodida. E o pai também. Não aconteceria se ela fosse outra pessoa. Quer dizer, não é que ela não era grata por quem ela era, amava sua família, só que Molly estava cansada de ter que esconder as coisas que fazia constantemente.
“É, nós sempre vamos ser os segundos, algo como os substitutos. As segundas versões de alguém que eles conheceram e querem eternizar de alguma forma. E o pior é que nem a Rose e o Hugo escapam dessa, você já percebeu isso? As pessoas esperam que ela seja igual à tia Hermione, e ele seja igual ao tio Rony. Acho que porque a Victoire, a Dominique e o Louis nasceram loiros, precisam puxar ao lado da tia Fleur. Isso é meio ridículo. Nem o Frank e a Alice escapam disso. É muito nobre da parte de todos eles homenagearem, é uma forma de mostrar quanto eles amam essas pessoas. Mas eles não percebem a pressão que isso tem na gente. E James, eu fui pesquisar a história da família Black. Sirius Black, aquele, era o terceiro.” Molly riu sem humor, balançando a cabeça negativamente. “Eu me sinto sem identidade. Eu não sou a avó Molly, eu nunca vou ser. Eu não sou a Professora Minerva, e eu nunca vou ser.”
Claro que Molly jamais diria isso em voz alta. Ela praticamente consegue imaginar a cena trágica se desenrolando em frente a ela, o silêncio sepulcral na sala, e então os gritos de raiva, misturados com a mágoa permanente que marcaria a relação deles. Existia um orgulho enorme em carregar o nome de duas maravilhosas nas costas, e Molly amava as duas, especialmente a avó. Nem tudo era ruim, eram nomes lindos. Minerva era a deusa romana do comércio, artes e sabedoria. Molly significava “a senhora soberana”, “vidente”, e “pura”, do inglês medieval. Era um significado legal, certo? Ainda mais sendo algo que a ligava com a avó.