Nunca havia notado o quão fácil é morrer. Descobri hoje cedo que posso morrer se eu me jogar na frente de um caminhão. A morte certa dependeria não só da velocidade da máquina, mas do jeito que meu corpo se chocaria com a lata. Desde cedo já sei que a morte indolor só pelo gás de cozinha, poético, como representou Torquato Neto. Todas as outras formas de morrer são medíocres, mas melhor medíocre do que amaldiçoado. A mais cruel das maldições é a vida eterna. Você vive e vive e nada, portanto morrer é o remédio. Mas morrer como? Por minhas mãos, pelas do meu irmão, ou cruelmente assassinado por desumanos. Morrer de mãos atadas, a covardia. Uma overdose também mata, mas morrer de uma vez ou aos poucos com os fármacos e alimentos industrializados. Em agonia, de corpo aberto. Ouvi dizer que uma garota foi estuprada por quatro indivíduos até a morte, e que havia um corpo lá no rio, nunca me esqueci do menino que sumiu e nem da professora baleada. Certamente não iria querer morrer de qualquer jeito, mas mesmo na velhice é de qualquer jeito que se morre. E de repente parte pra longe, tão longe que dá fome, fome de tanto vazio que há dentro de mim. Cheio do vazio, desapareço, amanheço, entardeço, anoiteço. Viro memória. Mudam-se as horas, vezes sol, chove, mormaço. Tudo continua, em seu ritmo, fluxo, é contínuo. Hoje já não existo.