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Ironias da vida. (via delator)
Nicki Minaj e o incômodo com a mulher negra que fala
Texto por Maria Clara Araújo
Há algum tempo eu já tenho o interesse de escrever sobre cultura e representatividade negra e, frente ao debate que a Nicki Minaj levantou ontem no Twitter, acho que esse é o momento ideal para falarmos de certos tópicos acerca de uma questão tão ampla que, infelizmente, ainda é tão deturpada.
Azealia Banks frequentemente apontou problemáticas sobre as questões raciais dentro da indústria fonográfica, porém sempre teve seu discurso deslegitimado devido à imagem de barraqueira sem causa que construíram para representá-la. Sim, tenho consciência das inúmeras posturas inadequadas que a Banks teve – e ainda tem –, porém, na minha opinião, ela sempre foi muito categórica quando falava sobre o quanto a cultura negra é desvalorizada dentro do contexto norte-americano. Em uma de suas entrevistas mais famosas e polêmicas, Banks afirmou que “Eles dizem: ‘Sim, você pode! Você é incrível!’ para brancos que se apropriam da cultura negra, mas quando se trata de pessoas não-brancas, o discurso é o inverso, e é dito ‘Você não tem nada! Você não tem valor!’” E que valor seria esse que não está sendo reconhecido? Justamente o que Nicki Minaj apontou ontem ao falar sobre a não indicação de seu vídeo da música “Anaconda”.
Pessoas negras não têm seu trabalho reconhecido a menos que sejam diplomáticas, quietas, condizentes em relação às violências que seu povo sofre. Isso ficou ainda mais claro para mim quando no documentário da Nina Simone foi dito que, enquanto ela era omissa em relação às questões raciais, a massa norte-americana a consumia de bom grado, porém, a partir do momento em que ela começou a se rebelar e usar sua música como forma de empoderamento negro, as portas começaram a se fechar. Foi dado o spotlightpara uma outra mulher negra que, até então, apenas cantava para o entretenimento, e não com o intuito de causar uma revolução.
“Anaconda” é uma música com recorte racial. É preciso termos consciência de que quando Nicki Minaj fala sobre “skinny bitches”, ela se refere a mulheres brancas. Mulheres que, muitas vezes, têm seu corpo colocado em contraste com o corpo das mulheres negras – que têm suas silhuetas associadas à vulgaridade, como se fosse da natureza da mulher negra ter uma postura dita como lasciva. Isso acaba contribuindo diretamente para a hiperssexualização desses corpos, que são entendidos como exóticos.
Nicki Minaj fazer uma música que empodere seu corpo, suas curvas, traços de sua raça, tem uma mensagem muito maior do que o entendimento limitado que sociedade branca tende a ter sobre isso. “Anaconda” me parece ter como intuito fazer com as mulheres negras, principalmente as afro-americanas, saibam que seus corpos são maravilhosos, que seus traços fazem parte de sua negritude e que isso, diferente do muitos dizem, deve ser exaltado e tido como orgulho. Porque nunca se deve ter vergonha de sua raça, por mais que o racismo estrutural nos diga o contrário quando nos faz correr do sol, alisar nossos cabelos e odiar nossos lábios grossos e narizes grandes.
Contudo, uma mulher negra empoderada incomoda muita gente. E diante desse incômodo da mídia branca ao se ver sendo cutucada com razão, eles correm para o principal e mais antigo modo de deslegitimar o discurso de uma mulher negra: fazendo com que ela pareça louca, desequilibrada, barraqueira. Observem aqui mesmo, no Brasil, nossos discursos: quem são as mulheres que chamamos de faveladas? De barraqueiras que, supostamente, não conseguem manter um diálogo? Porém que diálogo é esse e quem diz qual forma de dialogar é a correta? Janet Mock, famosa ativista trans negra, pontuou isso ao responder um tweet do E! que recorria ao estereótipo da “#AngryBlackWoman” (algo como “mulher negra barraqueira”) como forma de deturpar os questionamentos extremamente importantes que Minaj levantou. Usando esse artifício, a discussão sai do foco e é tratada como uma rotineira briga de mulheres. E nessa “briga”, a mulher negra, como sempre, é a desequilibrada e a mulher branca, indefesa e angelical, a que está sendo criticada de forma irresponsável e sem motivos.
E, a partir daqui, eu falo é sobre Taylor Swift e sua dificuldade em rever privilégios. A artista respondeu aos tweets de Minaj transformando uma imensa discussão que permeia questões sociais em uma indireta para Taylor. Além disso, usou a carta de que todas as mulheres deveriam estar juntas, o que até soa engraçado, visto que a mesma há algumas semanas lançou o vídeo de uma música que supostamente foi escrita como crítica a outra mulher, que também é da indústria fonográfica. Taylor é só um espelho do modo como mulheres brancas, muitas vezes, tendem a usar a velha carta da sororidade para silenciar questionamentos importantes de mulheres negras que atingem diretamente seus privilégios. Isso não é sobre você, Taylor! Porém, infelizmente, acabou se tornando. Algo tão importante foi deturpado perante a grande população e tratado como uma briga de mulheres, mas com um marcador importante: a mulher negra é a desequilibrada que, sem razões, ataca a mulher branca.
No mais, fico muito feliz que a Minaj tenha começado a falar sobre assuntos que dizem respeito a todas as pessoas negras da indústria. Ela está ajudando a quebrar a cultura do “não falar sobre”, que, infelizmente, ainda é sustentada por muitos artistas negros. Para não comprometer suas carreiras, alguns adotam a postura do negro quieto, que apenas sorri para as câmeras e parece satisfeito com o que conquistou até ali. Sabe aquele horrível ditado brasileiro “Nego quando não caga na entrada, caga na saída.”? Então, é isso. Sejamos negros, mas quietos, que andam nas pontas dos dedos e sempre estão muito agradecidos pela solidariedade do branco. Taylor disse que, se ganhasse, chamaria Minaj ao palco. É parecido com o “Ela é até da família” que a patroa usa quando fala da empregada.
Força à Minaj e vida longa às mulheres negras empoderadas!
Chico Buarque
Vivemos de instantes e de instintos, mas também distantes e distintos.
MR
I believe in boys with sad eyes and soft smiles. I believe in girls who roar back at the thunder and still kiss like the first time they fell in love. I believe in the people who’s skin never felt like home to them, so they carved home out of the dust beneath their shoes and kept on going. I believe in all the ones who are told they don’t belong. I don’t think I belong either. I don’t know what it means to “belong” but I know the ones shouting have nothing to offer, that fitting in is the fad diet we’re all starving ourselves to. I believe in us. The ones who have never felt good enough. I believe in the girl next door, who likes to be called “her” but who woke up, today, with a gender that felt like hand spun wool and spilled milk, and who still doesn’t know how to tell her mother. I believe in the ones dating the wrong people so their parents won’t have to know who it is they want to love. I believe in a fear like that. I believe in the kindness of strangers and I believe that turning a blind eye isn’t what makes you bad. It only makes you scared like the rest of us. I believe people learn to be brave. I believe in the hands picking flowers as much as I believe in the hands that plant them. Because sometimes our hearts are too big for our bodies and they like to go bumping against each other– sometimes, love doesn’t mean what you think it does. You and I don’t love the same, but we are, all of us, out here loving. I believe in the collection of fingerprints you pick up from everything in the world you have ever touched. If I believe in anything, I believe that that is enough.
―Ashe Vernon
You know, hope is a mistake. If you can’t fix what’s broken, you’ll go insane.