Dou de ombros. Confiança não está relacionada a minha cozinha, especialmente quando Laila pode encontrá-la assando carne no forno, nossos traseiros estão. Recordo-me perfeitamente de quando, em uma das comemorações do meu aniversário, Laila expulsou uma mulher desavisada que havia lhe dado um bolo de carne. Os olhares temerosos recaem na vasilha , como se tivesse sido oferecido um bebê como sacrifício — qual uma pueril silhueta filmou escondida embaixo da mesa de doces sem glúten. É claro que uma Vivienne nada contente ousou questionar Etóile e é por esse mesmo motivo que meu último trauma com carne se estabeleceu. Tremo com a imagem da porção morta e coberta pelo líquido vermelho posto em meu prato, agradeço aos céus por no final descobrir que era cinematográfico. Não posso discordar, o consumo de carne soa-me irresponsável para àqueles que podem substituí-la, mas não me importo em simplesmente cobrir as narinas quando o odor desagradável preenche elas. Mas, com Abbadon, o risco é alarmante. Nunca vi alguém de seu tamanho ingerir tão ferozmente uma asa de frango e nada elegantemente, devo acrescentar. Curvo os lábios diante da memória. — Claro, claro, De Rosas. Com o sangue sul-americano que corre em suas veias suas receitas são idealmente confiáveis. — Retruco com uma das sobrancelhas elevadas, uma expressão que certificaria minha total confiança em Abbadon. Sem ironia, a propósito. — Acredito que seus pais te ensinaram várias receitas veganas na infância… Aliás, como eles estão? — A adoção nunca foi uma questão realmente relevante em nossas conversas e parte minha até recua em mencionar, especialmente com a crescente ideia de talvez esteja na hora de eu ser… mãe. É fácil perceber a influência da família de Abbadon em sua forma de ver e reagir ao mundo e ainda lembro-me de uma de suas citações do cuidado que sempre tiveram com ela. Sempre os admirei por essa relação. Mas, e se a adoção não for o que aparenta ser? Será mesmo que Abbadon vê seus pais como tais? O quão difícil é e foi para ela? Limpo a garganta, não poderia invadir sua vida dessa forma, qualquer dúvida que tenha é melhor manter para mim. Se contente com o caos de sua própria família, Vivienne. Morpheu se espreguiça e conforme seu corpo retoma a posição anterior, me apresso em filmá-lo. Apanho o aparelho, prezando para que estivesse na horizontal e capto o corpo peludo do animal pelos movimentos graciosos. — E Lilith e Amodeus? — O gato segue no sono profundo e então abandono o celular ao meu lado, sem me importar com as novas notificações. — Estou com saudades deles. — Los Angeles não os merece, penso. Com a confusão diária, mesmo que não possa roubar suas sonecas, imagino como é para Abbadon mantê-los em uma cidade como LA. Morpheu certamente esteve mais calmo nos últimos dois anos e Matthew agradeceria já que não corta mais a madrugada com seus miados estridentes. Merda. Me concentro no comentário sobre Theodore e me ocupo com ele. — Huh. Não?! Não me importo com o fato de que meu único irmão não se presta a me visitar. Ele pode continuar no colo confortável de papai e de Dominique o quanto quiser. — Menciono com certa irritação. Theodore vem me tirado do sério e ainda mais após os boatos soarem em ouvidos perigosamente próximos de Laila. Não quero me envolver, mas se ela descobrir… E, com a teimosia do meu irmão quanto sua amada mamãe é o bastante para ater minhas mãos. Bufo, subindo a palma para o emaranhado a fim de prendê-lo em um coque malfeito. Os pés de Abbadon estão cobertos por meias felpudas e certamente se Morpheu não estivesse adormecido, teríamos problemas em conter suas unhas do que me parecem unicórnios. Mas, agora, é preciso me negar a dar início a um ataque de cócegas e assim, apenas apanho o celular outra vez para filmá-la deitada. E agradeço quando o faço, porque assim que cita o nome, meu rosto se altera por uma instantânea e nada pacífica feição, a qual posso parcialmente ocultar com o aparelho. Falho miseravelmente em bloquear a memória e no instante seguinte, a visão torna-se repulsiva. A pele da ruiva próxima a de Matthew, suas palmas tocando com ardor seu ombro e os lábios a percorrendo com paixão. É instintivo e quando dou por conta, a carne molhada dos meus lábios é sentida pela dor. O pequeno gesto me possibilita retornar. — Provavelmente ter um relacionamento pelo qual não se pode falar é melhor do que um que não possa se dar nome. — É difícil compreender se para o vocalista a decisão de nunca intitular o relacionamento foi um erro. Se precisava do termo para que pudesse fazer o mínimo e não mentir para mim. Nunca entendi o que levou Matthew a não me dizer enquanto nos despedimos que não me amava mais, que amava outra e simplesmente me deixar partir. É doloroso pensar que quando comprava sua aliança de noivado, Matt decidiu me deixar. Finjo ler algo no celular e observo meu reflexo no visor, os olhos que vacilavam com o acúmulo indevido. — O livro… — Sussurro mais para mim do que para Abba. Levanto calmamente, me amaldiçoando por retirar Morpheu de entre minhas pernas para pousá-lo sobre a sua barriga e caminho por passos longos até a cozinha. Vasculhava uma das gavetas quando inclinava o tronco para observar Abbadon, as mãos segurando duas colheres. Não posso contrariar, a silhueta em meu sofá é a maior especialista em expor minhas feridas e me fazer agradecer por isto. Por muito tempo pensei que havia escrito o livro para Matthew e não sobre ele, uma das inúmeras partes da minha vida que consequentemente seriam usadas pela minha mente compulsiva, e é nesse instante que percebo o que ainda sinto por ele. Que por mais que meu coração não aceite e não queira dar um fim, o livro nos sentenciou mais do que àquela noite, não há como estender mais esta história. Acabou. — Enfrentei mais processos do que teria se tivesse dado um soco em Sawyer, então concordo que deveria ter me poupado os meses que os capítulos levaram para serem escritos. — Um riso sincero escapa de mim. A mente divagando pelas semanas anteriores que, inexplicavelmente, eu soube que nosso relacionamento acabaria da pior das formas. Forest e eu somos a mesma merda, afinal. Papai confessou como disse pela primeira vez que amava Laila com a certeza de que acabaria a odiando tão fortemente quanto amou no momento em que a pediu em casamento. Dou as costas para Abbadon e abro a miúda geladeira, buscando pelas embalagens ecológicas e alguns produtos vencidos, o sorvete de chocolate. Retorno para o sofá, mantendo minha bunda confortavelmente ao lado de Abbadon e sendo ignorada por Morpheu que decide dormir na sua mais nova humana favorita. Ela norteia o afeto e diante o gesto sou preenchida pela sensação agradável, devolvendo da mesma forma. Ofereço-lhe uma das colheres e, liberando a massa do sorvete, sinto que qualquer problema havia desaparecido. De Rosas e eu costumávamos comer muito sorvete quando algo dava errado — o que ocorria frequentemente – e antes mesmo de uma segunda colher, as risadas sobressaíram a qualquer desastre. Com o acalento gélido, agradeço pelo apartamento possuir aquecedores e ser possível ingeri-lo sem acabar com um resfriado. A temperatura estava agradável e até mesmo uma amante de verão como Abba se sentiria confortável, apesar de constatar que não seria o sorvete a deixá-la desconfortável. Fito-a com dúvida, incerta do que as palavras significavam intensivamente. Que merda ela está pensando? Aponto a colher em sua direção e movo o corpo para estar mais próxima de si. — Você. — Direciono a colher a mim. — Está dizendo que eu sou quem foi ferida? — Não a interrompi e apenas quando indaga-me que retomo a fala. — Abba, sim, nós eramos uma com a outra. Ferimos quem amamos e não há qualquer coisa que possa dizer a você para afastá-la desse peso, mas acredite em mim, desde o momento em que quase fomos expulsas daquela exposição, soube que seria como uma irmã para mim. Não me levou ao Inferno. Estar com você não é doloroso, não… — Uma pausa para observar. Com cinco anos, ainda não é fácil compreender o que Abbadon está sentindo e é menos ainda por estarmos afastadas. Há mais feridas expostas do que posso imaginar e não posso prever a forma como reagirá se aprofundarmos. De Rosas não é a criança de vinte e dois que conheci, vejo uma mulher, mas isto não quer dizer que ela se encare como tal. Dou-lhe o sorvete. — Descrevi no livro como a chama que incendeia a si mesma por um motivo. Você é capaz de ser consumida por outro alguém até não restar nada além de um pequeno fulgor, um que não poderia ser apagado com o breve sopro, mas é, porque tem medo de queimar quem está a sua volta, Abbadon. Escolheu amar Dragan mesmo que ele não mereça. Escolheu vir aqui, mesmo que saiba que deixei você no pior dos momentos. Não é você que nos leva ao Inferno, é quem nos guia com a luz de sua alma. Não se esqueça disso. Me salvou uma vez. É a Beatrice, não Dante. — Digo e um sentimento maternal surge, embora a diferença de idade entre nós seja mediana, há momentos em que percebo nela a fragilidade que me cercou na sua idade. No entanto, Abbadon sempre o faz mais honestamente do que fiz. Afundo a colher na massa e entretida com o sabor adocicado, sou pega desprevenida por sua pergunta. Não a fito. O calor percorre o corpo e o desconforto cresce na garganta, ao mesmo tempo que minha mente caótica se estabelece. Fecho os olhos, uma tentativa de ignorar o quanto ainda dói pensar no que aconteceu. O orgulho não é sentido nesse momento e nem a mágoa é capaz de mascarar o real sentimento que silencia Abbadon com os gritos. Naquela noite, quando chegamos em seu apartamento, estava destruída e quis destruir o que havia ao meu redor: uma forma de mentir que os fragmentos que recolhi diante de Matthew poderiam ser reunidos como os que cortaram minha palma quando apanhei os cacos de vidro. Queria que a dor física pudesse dissipasse a dor de perdê-lo. — Não estive em Paris durante esse tempo. — A verdade soa e a dúvida se havia sido involuntário é quase confirmada. Abro os olhos para encará-la. — E… sinceramente? Acredito que não. Fugi de quem não deveria e as consequências não se importaram de me punir. — Respondo, a voz soando, mas por um corpo que permanece inerte, como se fizesse parte de um instante que ocorreu a muito tempo. — Deixar Los Angeles não impediu a dor de se estabelecer, de me sufocar até o ponto que não conseguir respirar. E, não, não apenas por Matthew, mas pelo que ele representava de mim. Eu o amo ainda, Abbadon. Tão fortemente quanto nos conhecemos e quando decidi que queria me casar com ele. Mas, o sentimento vive apenas nas minhas memórias que pensei que seriam eternas. Sei que ele ama… — Inspiro pesadamente e as lágrimas anteriores incontidas não se rebelam, não há porque se desfazer. É a verdade. — Que ele ama India. — Curvo os lábios, ocupando-me com uma colher preenchida por sorvete. — Nós deixamos de existir. Mas, ainda estou aqui e é o que importa. Ele não foi o primeiro e espero que não seja o último. — Sussurro a última parte como uma confissão e num lapso, levanto-me outra vez. No entanto, sigo para mais adentro do apartamento e em poucos segundos, retorno com uma moldura nas mãos. O título se revela e o entrego para Abbadon. — Nunca contei a você a história de quem amei e quero fazê-lo. Assim, você perceberá que é real quando digo que amar alguém é eterno mesmo que acabe, mesmo que seu coração encontre outro. E, mesmo que você e esta pessoa sigam rumos totalmente opostos. Que precisem dizer adeus. — Curvo os lábios pronta para dividir com Abbadon o que mantive em segredo por 8 anos.
Os olhos foram rolados, mas não de uma forma petulante, apenas em forma de reação imediata a um estimulo externo, algo que vinha naturalmente à Abbadon e que pintava algumas imagens do porquê tantas pessoas a achavam insuportavelmente arrogante ou a classificavam como uma pessoa ‘nojentinha’. ❝ — Não seja xenofóbica, não é um look bonito de se usar casualmente. — ❞ Uma sobrancelha foi levantada como se estivesse desafiando Vivi a entrar naquela dança de insultos falsos, talvez precisassem de um pouco disso para voltarem aos trilhos das conversas usuais e da comunicação velada que tinham cuidadosamente construído ao longo dos anos.❝ — Você não diria isso se soubesse o quanto aprendi de receitas para te agradar. É difícil alimentar alguém vegano, sabia? Mas não, eles nunca me ensinaram receitas veganas, na verdade Papai não acredita em pratos sem carne. Bem... — ❞ Preocupados. Era o que queria dizer, não culpava ambos pela insistência que ficasse mais tempo em Ushuaia, tão pouco a relutância em deixá-la ir a Buenos Aires sozinha por alguns dias antes que viesse a Paris, na verdade ainda nem tinha contado que voltaria à L.A assim que a temporada na França acabasse, afinal ela sabia muito bem que receberia aquele longo suspiro de Frederik seguido por um ‘Você deveria falar com seu pai’ e então teria que realmente conversar com Cesare, eles eram tão bons em ignorar certas coisas quanto ela, mas não havia dúvidas de que a preocupação enchia os corações dos argentinos ao ter sua única filha aparecendo em casa sem avisar só para chorar por horas sem dizer uma palavra. ❝ — Eles estão bem. cupados como sempre, fazendo o de sempre e sendo apaixonados um pelo outro como sempre. Alguns de nós têm essa sorte. — ❞ Os ombros foram dados e a limitação de proferir que seus pais estavam bem lhe causava mais desconforto do que todas as vezes em que dissera para alguém que ela estava bem. Um sorriso foi aberto ao ser perguntada sobre seus gatos, eles tinham sido sua companhia em momentos muito ruins e Abbadon provavelmente devia sua vida aos dois bichinhos de estimação. ❝ — Lilith teve um acidente alguns meses atrás, ela se enfiou dentro de um dos carros, mas está tudo bem agora. Ambos estão bem e ativos como sempre, eu comprei tantas roupas novas para eles que me sinto uma daquelas mulheres que precisam suprir algo c-... — ❞ Abbadon parou de falar ao perceber o que realmente estava falando, o próprio cenho sendo franzido, ela era uma daquelas pessoas que precisava suprir a falta de algo consumindo para si e para seus animais, depois da morte de Aisling as coisas tinham saído do controle no departamento coisas para os gatos e Abbadon tinha certeza que os eventos estavam ligados. ❝ — Acabo de perceber que virei a tia dos gatos. Meu Deus. A que ponto cheguei. — ❞ Dessa vez a risada que lhe escapara era verdadeira, era engraçado para ela que tivesse chegado a tal conclusão no meio de uma fala completamente aleatória sobre o bem estar de seus gatos. ❝ — Poderia voltar a L.A...Ficar comigo um pouco, eles precisam de carinho e atenção... — ❞ Eles. Ela na verdade queria dizer nós e por nós queria mesmo era dizer ‘eu’. Queria dizer que ela precisava Vivienne em geral, já que cada vez mais a perspectiva de voltar para L.A para se afundar mais uma vez em uma agenda louca apenas para voltar para a casa vazia todos os dias lhe assustava, como um fantasma no fundo de sua mente a lembrando que mais uma vez estaria como merecia: Sozinha. ❝ — Eu não tenho irmãos. Eu não posso te dizer que sei o que sente, mas...Quando Elias não me atende ou escolhe o lado de qualquer outra pessoa que não seja o meu em uma briga? Eu sei o quanto machuca, então...Se quiser me contar o que aconteceu ou o que esta acontecendo...Ou eu posso ser sua nova irmã! A gente troca seu sobrenome e te leva pra Argentina na mala. — ❞
O teto não parecia mais interessante à Abbadon e portanto o chão virara o alvo de seu olhar enquanto pensava se não deveria contar tudo a Vivienne sobre o que sabia do relacionamento de Matthew e India, arrancar o band-aid de uma vez e deixá-la medicar a ferida como quisesse. Ela tentava dizer a si mesma que não iria querer saber se fosse o contrário, entretanto todos sabiam que Abbadon tinha uma curiosidade mórbida e se deleitava do próprio sofrimento emocional como uma sadomasoquista, isso não queria dizer que devesse ter o poder de decisão sob aquele assunto. Talvez contasse mais tarde, quando tivesse certeza de que a morena aguentaria a notícia do casamento sem tomar como um baque desnecessário ou um ataque a sua reclusão. Um pequeno susto lhe ocorreu ao sentir o peso de Morpheu em seu corpo, mas ao invés de afastar o gato tudo que fizera fora acariciar lhe os pelos com a sestra o mantendo calmo para que voltasse a seu limbo de inconsciência felina. ❝ — Deveria ter deixado mais claro que era sobre ele, eu compraria mesmo se tivesse escrito o nome dele claramente. Eu não me importo o que disseram, o livro é ótimo e não há realmente um crime em escrever sobre SUAS experiências, certo? É tão injusto que tenha tido dores de cabeça só por fazer sucesso. — ❞ Ela lembrava-se muito bem da febre que tinha sido quando o livro lançara, o delírio coletivo de todos postando os trechos que achavam que falavam sobre o relacionamento de Vivienne e Matthew, as piadas, as indiretas, tudo tinha sido acompanhado de perto e por mais que a cantora tivesse ficado chocada com a história...Ela não culpava a amiga, afinal ela também se lembrava de como tinha tido que parar Vivienne e segurá-la em seus braços enquanto essa tremia de ódio, como tinha cuidadosamente retirado cada caco de vidro da mão da cineasta enquanto tentava a acalmar minimamente, de como tinha ficado até de madrugada limpando e arrumando as coisas, sumindo com as evidências de que Matthew algum dia existiria na casa para que Vivienne não precisasse reviver a noite fatídica, ela se lembrava de ficar noites em claro observando a outra para ter certeza de que ela estaria bem. Que teria tudo que precisasse e que nada acabaria lhe atrapalhando o tão merecido descanso. Então, ver o livro? Tinha sido um alívio. Como se estivesse vendo a justiça ser feita e o melhor de tudo é que a própria vítima tinha sido capaz de trazer justiça. A colher foi alcançada antes que Abbadon se desse o trabalho de realmente sentar no sofá, cuidadosamente mantendo Morpheu em uma posição que continuasse a dormir pacificamente. O doce foi colocado na boca com cautela como se estivesse pensando sobre o assunto enquanto o digeria. ❝ — Bem, eu não fui exatamente a amiga modelo enquanto você estava em L.A...Sinto que deveria ter feito mais naquela noite e antes, eu não sei. Eu só...Sinto muito por não ter tido as respostas para a sua dor. — ❞ Mesmo que parte de si soubesse que as respostas não eram contidas por ninguém, ela ainda se culpava por não ter dado o suficiente conforto para manter Vivienne perto das pessoas que ela precisava ter ao redor. ❝ — Você é boa com palavras...Mas eu não acredito exatamente, afinal você não me deixou, você deixou a cidade porque era o que você precisava no momento em que você mais precisava. Para falar a verdade eu deveria ter ido com você, eu poderia muito bem ter parado a gravação do álbum e ter pelo menos te ajudado a se instalar, talvez assim não tivéssemos perdido tanto contato. E Dragan...Não fale assim, não é assim, ele mereça mais amor que as pessoas o dão crédito. E eu o machuquei. Bem feio dessa vez, você ficaria decepcionada comigo se soubesse da história toda. Então a deixarei acreditando em minha inocência por mais um segundo. — ❞ O sorvete fora levado à boca mais uma vez, lágrimas começavam a se formar nos olhos de Abbadon e era mais do que claro para ela que não demoraria muito para que começassem a escorrer contra seus comandos, pelo menos a sensibilidade em seus dentes causadas pelo alimento gelado a mantinha focada na conversa, as palavras de Vivienne a causando certo questionamento, mas ela não se atrevera a perguntar onde diabos ela tinha se metido nos últimos dois anos se não estava em Paris aproveitando a vida como uma verdadeira francesa. A colher foi deixada no pote e mesmo com o coração pesado Abadon moveu Morpheu para que pudesse deitar-se nos braços da amiga abraçando-a um pouco de lado, ela entendia toda e cada palavra que era proferida, entendia como era se sentir daquela forma, como era ter a dor lhe consumindo de dentro pra fora, como era pensar no que havia feito de errado, no que tinha de diferente de outra pessoa. A argentina havia perdido as contas das inúmeras perguntas que tinha deixado seu bom senso a impedir de proferir e que agora a falta de respostas a deixava acordada a noite, ela se perguntava se com Vivienne era assim, se haviam coisas que a outra queria saber e ainda assim se recusara a perguntar em nome de alguma regra não falada de que não havia motivos para esclarecimentos. ❝ — Como você sabe? Quer dizer...Como você pôde ter tanta certeza de que... — ❞ As palavras morreram em sua boca, ela se odiava por ter tantas perguntas e por fazê-la em momentos tão importunos. ❝ — Eu acho que eu nunca te disse isso, mas você é tão forte. Eu te admiro tanto. E eu não estou falando sobre Matthew, bem, disso também, mas em geral, todas as pressões e desafios que passou, todos os traumas, seus pais, tudo...Eu só...Eu queria ter as palavras certas para te explicar o quão forte você é aos meus olhos e o quanto te ver aqui falando sobre isso, mesmo que vá doer me faz te admirar ainda mais. Você sabe que você pode me contar tudo, sabe? Eu sei que eu só sei parte da história...E eu não posso começar a imaginar tudo que tenha passado para decidir se afastar por tanto tempo, mas o simples fato de ter me procurado quando se sentiu pronta pra voltar já me faz me sentir privilegiada de ter a confiança de alguém tão bom e maravilhoso como você. Você conhece o método Vaganova? Sei que está mais familiarizada com as técnicas francesas, mas no método Vaganova eles dizem que todo e qualquer ballet pode ser ensinado com um grand pas de deux, eles te ensinam que não há como uma dupla de bailarinos ter sucesso se não são capazes de dançar em sincronia, movendo cada parte do corpo em conjunto e acima de tudo: Confiando um no outro. A vida é como uma grande lição de Vaganova, você não pode dançar se seu parceiro não te inspira confiança, não importa os erros que tenha cometido ao longo do caminho, ele não tinha o direito, no final, você saltou e ele não estava lá para te segurar, então... Ele não era o parceiro certo, mas a peça ainda não acabou, certo? E quem quer que seja sua alma gêmea, ele ou ela, deve estar por aí se preparando para ser abençoado, porque você, minha amiga, é mais que uma divindade. Você é uma entidade feita de luz, força e amor, qualquer um que venha a te amar é melhor que o faça direito ou irei me certificar de que não tenham a chance de tentar de novo. — ❞
Os dedos seguraram a moldura e as lembranças das tantas vezes que tinha lido o mesmo livro inundaram os pensamentos de Abbadon com rapidez suficiente para que ficasse quase tonta, os olhos foram piscados e as lágrimas já caíam mais rapidamente de seu rosto e quando dera por si já estava soluçando, não tinha certeza de se estava chorando por seus próprios sentimentos ou pelo relato de Vivi. Não tinha nem mesmo certeza se não tinha a ver com o livro e sobre tudo que ele tinha significado para si quando adolescente e tudo que significava agora, antes mesmo que percebesse os joelhos estavam sendo dobrados e as pernas abraçadas enquanto se deixava chorar tudo que estava segurando. ❝ — I know it’s stupid, but I don’t want to let him go. He is my first love and I fucking hate to feel this way, but I think he might be my last too, because I don’t want to love anyone else, I tried, I tried so hard to make anyone get close to what I used to feel, but no one can make me feel like him. — ❞ Era tão hipócrita de sua parte discursar sobre parceiros certos e seguir em frente quando não conseguia seguir suas próprias palavras, circunstâncias diferentes, dizia-se mentalmente, entretanto duvidava que isso fosse de alguma ajuda para fazer aquilo parecer melhor. ❝ — I fucked up so badly. I destroyed the most precious thing I had and know I don’t know how to stop. Because everytime I’m near him it seems like my only ability it’s to make things worse, I keep on hurting him and hating myself for it. For what? I have tried everything to make it stop, I tried not thinking about, I tried not talking about it, I tried even runing from it and nothing. Nothing works. Nothing works and I just keep missing him all the time. I miss even the stupid things like his stupid white shirts with holes in it and how he refused to throw them out or buy new ones, but would go out of his way to get the best things for other people, the way he sleeps with his mouth a little open, i fucking miss hearing his voice so much that I got to the point where the only way I can sleep is hearing his songs and I fucking hate it, I fucking hate that I miss the way he wake up and how he would try to convice me to stay more and his fingertips and his hair and that damn nose piercing. And I just...Need it to stop. I don’t want it. I’m fucking ready to not feel like the first love it’s going to be the last one, so if you could please tell me how the fuck I make it feel less painful...I would appreciate. Há tantas coisas que eu quero te contar e há tantas coisas que eu quero que você me conte que eu não sei nem por onde começar, mas...Eu deveria te contar primeiro que ao contrário do que aconteceu com você...Isso foi minha culpa. Eu o deixei e agora eu estou pagando o preço, eu só não percebi que o preço seria minha sanidade. — ❞