Mina não pode evitar o riso que se formou ao ouvir o rapaz lembrando as inúmeras vezes em que ele havia sugerido que fugissem de tudo, deixando as famílias para trás, viajando pelo mundo, conhecendo outras pessoas, outras culturas, apenas os dois e nada mais. E em todas às vezes a garota havia negado a sugestão de Nathaniel, mantendo-se firme ao que julgava ser sua obrigação com o clã Yaxley, recusando-se a deixar para trás tudo o que havia se comprometido em cumprir um dia. “Eu acho que não é tão simples assim. Você sabe que não é.” Reforçou o que sempre dissera para ele nas conversas que partilhavam sobre o tópico futuro, tópico esse que Mina sabia como terminaria para ambos: Nate estaria viajando enquanto fugia de qualquer noiva que Helena poderia arrumar, enquanto Mina estaria entregando-se para o futuro marido que Elladora escolhera a dedo sem reclamar. Era assim que o futuro aconteceria os dois tinham certeza. Entretanto a vida havia se encarregado de jogar todos os planos deles agua a baixo. Nate era o noivo que Mina esperava em ter e só de conhecê-lo como conhecia sabia que era a pior coisa que poderia ter acontecido entre eles.
A garota estava completamente satisfeita com a atmosfera amistosa que estava pairando sobre eles ali. Mais uma vez riu quando o ouviu concordar sobre Selina ser maluca, da mesma maneira que já havia feito inúmeras vezes antes na vida. Era maravilhoso poder ter a sensação de que nada havia mudado, nem que se fosse por apenas alguns momentos, mesmo que a verdade lhe nocauteasse poucos instantes depois, jogando em sua cara que nada era igual antes e que nunca mais na vida seria. Tudo havia acabado. Os anos dourados de Nathaniel Bellanova e Mina Yaxley infelizmente haviam chegado ao fim. E o futuro aos deuses pertence. Não seria possível saber o destino deles, mas era obvio que nunca seria como o passado uma vez fora.
Tornaram-se pessoas diferentes, este era um fato que não podia ser ignorado. Por mais que tentassem permanecer os mesmos, estavam diferentes. E não era apenas na aparência, pois era um aspecto que claramente demonstrava a diferença entre ambos antes e naquele momento, a barba que surgia no rosto de Nate e os fios dourados de cabelo de Wilhelmina que agora estavam mais longos do que ela jamais possuíra na vida. Não, não era só isso. Qualquer um que os conhecesse mais que o mínimo possível poderia notar a diferença no jeito deles, na expressão do rosto dele e na forma polida que ela utilizava para falar. Ou será que apenas ela percebia isso?
Deixou que Nate se afastasse e a rodasse no ritmo da musica que vinha do grande salão de festas dos Burke apenas para depois trazê-la novamente para perto de si. Quando retomou a proximidade entre eles, Mina encaixou-se dentro do abraço dele, descansando sua cabeça no ombro dele. “Não vamos falar disso agora, por favor.” Pediu ainda aninhada no peito dele. O maior receio da garota é que a menor insinuação do assunto pudesse levar a uma discussão que mandaria toda aquela maravilhosa sensação que estava sentindo para o espaço. Deu um tapinha no ombro dele quando o ouviu insistir que ela estava linda, a deixando meio sem graça. Não estava muito habituada a elogios, tampouco estava habituada a vestir-se da maneira em que estava naquele dia, tudo aquilo era culpa de Elladora e de sua insistência em manter a filha impecável para os olhos alheios, sem nem se importar se a garota sentia-se esquisita no vestido ou se os pés dela estivessem doendo demais dentro dos sapatos de salto.
Wilhelmina não sabia ao certo o que a havia levado a iniciar ao beijo, não fora ela a responsável pelos beijos anteriores e eles sempre vieram sem que esperasse, talvez naquele momento ela quisesse enfim ter controle sobre aquilo. No momento inicial a questão sobre a reciprocidade dele não havia sequer passado por sua cabeça, entretanto no instante em que colara seus lábios aos dele a dúvida lhe atingiu em cheio: e se ele não quisesse aquilo? Mas quando ele a puxou mais para perto e retribuiu o beijo todas as dúvidas de Mina foram para o espaço, a deixando completamente feliz com seu impulso. O beijo dele tinha um gosto familiar para Mina, talvez fosse champagne, algo que a garota estava bem acostumada a beber. Os lábios dele eram macios contra os seus, a sensação era maravilhosa. Usou suas mãos que já estavam à nuca dele para se segurar quando o abraço dele a colocou na ponta dos pés. Ela não queria saber de nada além do beijo naquele momento, não queria nem mesmo parar para encher seus pulmões de ar. Mina adoraria continuar ali para sempre, sentindo os lábios dele nos seus, vivendo o beijo que a cada segundo se aprofundava mais como se os dois fossem as únicas pessoas restantes no mundo e nada mais importasse.
Com a resposta da garota, a reação de Nathaniel foi fingir uma expressão de decepção em seu rosto, balançando sua cabeça em negação. Logo em seguida, ele sorriu, porque ouvir a risada dela sempre lhe encantara de uma forma que não sabia muito bem como explicar. E enquanto se balançavam de um lado para o outro, vagarosamente, no ritmo da música, o jovem só conseguia imaginar como seria se eles não tivessem o peso de suas famílias sobre suas costas — Mina muito mais do que ele, era evidente —, como seria se apenas pudessem decidir o que fazer de seus futuros sem se preocupar com seus pais querendo tomar decisões incabíveis por eles. Como seria se fossem donos de si próprios? Pegava-se imaginando os dois como trouxas, livres da pressão do sangue puro, do status familiar, com vidas normais, trabalhos normais, viagens, expectativas para o futuro, sem acordos matrimoniais rendendo bons negócios. Era algo que o garoto, secretamente, sempre invejara nos trouxas. Ou naquelas famílias bruxas nas quais os filhos tinham a liberdade de tomarem suas próprias decisões. Ele era um rebelde sem causa, era verdade, mas ainda assim sempre tivera a pressão de seus pais em sua vida, nunca conseguia se livrar disso por definitivo. “Ou você que não quer simplificar. Talvez por receio do futuro, por não saber o que te espera. Já pensou nisso?” Questionou, erguendo suas sobrancelhas. “Sair um pouco dos padrões de nossas famílias não nos faria nenhum mal, acredito eu.”
Sentiu o perfume intenso dela quando a aconchegou em seu peito, as batidas dos corações dos dois meio descompassadas, mas unindo-se enquanto dançavam. Era uma sensação extremamente reconfortante ter Mina em seus braços mais uma vez, como se ele fosse capaz de tudo agora que ela estava novamente ao seu lado. Mina sempre fora a sua paz, ela que costumava colocá-lo nos eixos quando ele se perdia, quem lhe trazia tranquilidade e aquela sensação familiar que Nathaniel jamais tivera em sua casa. Mina era sua família, sua casa, era tudo o que Nate tinha, era a melhor coisa de sua vida. Como poderia tê-la deixado escapar daquela forma pelo simples fato de não conseguir engolir seu estúpido orgulho uma vez em sua vida? “O seu pedido é uma ordem, Srta. Yaxley.” Seu tom de voz tornara-se um pouco mais brincalhão, tentando evitar que o momento ficasse constrangedor. Também não queria tocar naquele assunto, e distraí-la disso era o melhor que ele poderia fazer.
Os últimos beijos que os dois jovens haviam trocados aconteceram em momentos em que seus sentimentos estavam totalmente a flor da pele. O primeiro fora no meio da descoberta de que estavam noivos, um apagão de luzes e um assassinato, depois houveram brigas, mais beijos, desentendimentos, mais beijos, e tudo se tornara uma completa confusão entre os dois, algo que nunca acontecera, porque apesar de naqueles anos todos de amizade já terem divergido várias vezes sobre diversos assuntos, Nathaniel e Mina sempre tiveram uma relação estável e de bom entendimento. Não saber como agir perto dela era uma novidade para o garoto, algo com que ele não estava acostumado e algo com que não gostaria jamais de se acostumar. Sentia falta da intimidade que tinham e faria qualquer coisa a seu alcance para retomar aquele sentimento. É claro, qualquer um diria que mais uma troca de beijos seria o ideal para criar ainda mais intimidade, mas no fundo Nathaniel estava receoso, sem saber como agiriam assim que se afastassem e tivessem de encarar um ao outro novamente.
Mas naquele momento ele não se importava muito com o que poderia acontecer no amanhã ou no que teriam de enfrentar. Seus braços estavam bem seguros ao redor de Mina e o beijo era a melhor coisa que acontecera com o garoto em meses. Ele não tinha nada do que reclamar. Quando precisou de ar, no entanto, afastou-se. Não o suficiente para soltar seus braços da cintura de Mina, apenas para respirar fundo, seus narizes ainda se tocando de leve enquanto abria seus olhos e fitava os de Mina. Eles estavam mais unidos ali do que haviam estado em muito tempo, e não havia nada no mundo que pudesse fazer Nate desejar afastá-la. Sair de perto dela era sempre como perder uma parte de si, e ele já havia perdido muito, não iria se permitir perder mais.
“What are we doing?” Perguntou, sua voz entrecortada pela falta de ar, sussurrando quase contra os lábios dela. Realmente, aquela era uma questão que precisava de uma resposta urgente, mas Nathaniel não conseguia ver uma a seu alcance naquele momento. As reviravoltas nas vidas dos dois haviam acontecido tantas vezes e de formas tão repentinas nos últimos meses que ele já nem sabia mais o que pensar a respeito do que eram, do que estavam fazendo, ou do que fariam. Mas eles definitivamente não eram apenas amigos. Não eram apenas dois jovens forçados a estar em um noivado que havia lhe trazido tantos problemas. Só precisavam descobrir o que realmente eram e o que aquilo tudo significava. Levou suas mãos até o rosto de Mina, segurando-o. Precisava olhá-la nos olhos enquanto descobriam juntos o que precisavam saber, apesar de ter certeza que a garota estava tanto ou ainda mais confusa do que ele. “Eu preciso de uma definição, algo a que me agarrar agora mais do que nunca, porque esse beijo, e os outros, e tudo o que tem acontecido entre nós... Mina, eu não vou conseguir te deixar ir embora mais uma vez.”