kuba,
eu aprendi que a gente precisa dar nomes aos nossos medos e demônios e é por isso que eu relutei bastante em te destinar um texto meu, uma vez que nunca consegui te enxergar como um medo ou um demônio. confesso que uma pedra doída residia na minha garganta, me impedindo de admitir para o meu Eu que eu precisava te superar, e eu só consegui o fazer quando aceitei nos enxergar como reais e humanos. e a vida, dúbia.
não o escrevi antes porque me faltava coragem em não te enxergar mais por aqui, como as folhas amontoadas no quintal em que insisto em mantê-las no mesmo lugar, apesar de. havia uma mentira na minha voz, no meu olhar e nas minhas lembranças porque a sua partida sempre se pareceu como um intervalo. eu estava crendo em uma volta que não aconteceu. me senti como se exergasse as ondas do oceano se aproximarem na costa, mas elas insistiam a não chegar. havia uma angústia mesclada com raiva que queimava ardosamente dentro de mim porque fiz de tudo para que fôssemos para sempre e fomos, porque tudo o que existiu foi tão real a ponto de ser tão nosso, que, o tempo não existiu ali.
os teus olhos já não caem mais sobre os meus e há meio século que não existimos mais numa pele compartilhada. a poeira do meu sapato não é mais a mesma do teu. eu cresci tanto sem você e o tempo se tornou tão distante que quase não reconheço mais as memórias em que você se fazia presente.
eu cogitei diversas vezes te enviar uma mensagem, mas passei a acreditar na teoria de que vivemos tudo o que tínhamos o que viver e nada mais existia além disso. daquilo. todas as possibilidades paralelas existiram e nós as encaramos, engolimos e as aceitamos. você para mim não foi uma fase, mas uma jornada como tantas outras que naturalmente terminam. se acabam. não nego a dificuldade incabível que foi superar o teu desaparecimento, pois me tornei incapaz de imaginar uma vida futura em que você não fizesse parte.
me adaptei a um novo eu, em que você não existisse mais nem sequer nas minhas balelas diárias entre amigos ou numa vontade de te ter presente.
ainda me embrulha a sensação de te escrever um texto que não seja romântico ou sádico, que não explicita a minha saudade de você ou o meu amor inconcebível, insaciável e inconsciente por ti. mas kuba, eu construí tanta força em mim, tanta força que sou capaz de finalmente perceber que você não mais faz parte da minha vida. e afirmar isso não mais atormenta o meu coração. há uma leveza na claridade que há em saber que existimos. e graças a deus por isso, porque sem ti eu jamais aprenderia a me amar como me amo agora. insisti tanto em querer que tu enxergasse os meus detalhes capazes-de-serem-amados, que acabei me apaixonando por eles. aprendi que se eu conseguisse fazer tudo aquilo por alguém, tratar-te tão bem, poderia fazer o mesmo por mim. e graças a deus por isso. você me fez real e eu te agradeço por isso, apesar de.
eu entendo a poetização que existia nos meus textos para ti. eles eram doces e sutis. sei que muitos se identificavam com a pureza e delicadeza daquelas palavras, mas apesar de serem eternas, elas não mais residem no presente e eu respeito o futuro o suficiente para saber que você não irá voltar.
eu te amei como um Sol tonto que não sabe fazer nada além de brilhar, e nós existimos porque foi preciso.
kuba, esse não é um texto de despedida ou sobre o meu amor próprio. é um texto para te lembrar da legitimidade do nosso encontro como pessoas e a cadência e respeito pelo fim.



















