Hoje decidi ir embora pela primeira vez antes de ser deixado, eu decidi partir antes de ser partido, mas eu não sabia que quando se vai embora se deixa uma parte de você para trás, e mesmo tomando todos os cuidados para que isso não acontecesse, aconteceu, estou partido do mesmo jeito.
Assim como quando eu tentava escalar limoeiros nos anos noventa e tinha minha pele rasgada por espinhos, assim como quando eu sentia minhas pernas estremecendo após pular de um galho alto de um pé de manga, assim como o ralado do meu joelho ardia após qualquer decisão estúpida e precipitada, me senti machucado da mesma maneira.
Dei uma olhada breve por todo seu quarto pequeno, que foi meu também, foi nosso, e me pareceu que eu estava indo embora de casa.
Sim, pensei em você, em como você se sentiria, se você choraria no banho e arrastaria as costas na parede até sentar e apoiar sua cabeça entre os joelhos, se choraria na cozinha lembrando-se que não estou mais lá para lhe fazer um omelete e carinho na sua cabeça, se choraria pensando que a cama é grande demais para uma só pessoa. E me doeu o coração porque te ver chorar sempre fez doer aqui dentro, dá um aperto no peito, não é algo que eu consiga lidar. E parei de pensar sobre isso porque sabia que se continuasse seria eu quem choraria primeiro.
Pensei em seus anéis e em como você foi a melhor e maior parte de mim, e por isso me dói tanto te deixar agora, seu nome é em homenagem ao deus dos deuses e sei que sou insignificante perto de você, acho que este é o maior motivo pelo qual preciso partir, dói admitir que fere meu orgulho não estar tão perto de você quanto eu gostaria de estar. Você consegue girar tão rápido, eu giro tão lentamente, você é tão quente, eu sou tão frio.
E você sabe como ninguém que eu deixo os olhos arderem mas não deixo uma lágrima sequer derramar, por medo, por vergonha, por orgulho.
Abotoei minha camisa e percebi por fim que estava indo embora pela primeira vez e para sempre, e queria levar algo a mais desse quarto pequeno mas só vou levar seu gosto na minha boca, que sumirá aos poucos.
Fecho a porta atrás de mim pela última vez com um suspiro cansado, por alguma razão já estou sentindo saudades de sua grandeza e leveza, sinto saudades das suas risadas que me deixam alucinado. Sei que nunca mais vou ouvi-la, apenas em meus pensamentos, por isso peço aos céus que continuem fazendo você sorrir.
Deixei um bilhete na escrivaninha em cima de seu livro favorito
mas deixei uma parte de mim
que nunca vou recuperar”.