Warm blankets on cold nights|POV
“We worry about what a child will become tomorrow. Yet we forget that she is someone today”
London, 2004
Quando pequena Nix se considerava muito sortuda por poder ter um quarto só para si, mesmo que este fosse minúsculo, até para uma criança já que apenas cabia sua cama e um baú onde guardava seus brinquetos, suas roupas ficavam no quarto de seus pais. Porém ela ainda sim amava aquele lugar, afinal ficava na parte de cima de sua casa, basicamente era um sótão e de noite muitas vezes fora acordada pelo barulho de gatos andando na calha ou pelo barulho de brigas dos mesmos, isso quando não era os gritos de seus pais que acordava a mesma. Porém tinha uma única janela bem pequena, que ficava bem ao lado de sua cama e que olhando por esta dava para ter uma vista linda, que ficava ainda melhor em noites de inverno que era quando ela se encolhia junto a seu cobertor e ficava apenas aproveitando a vista até seus olhos pesarem demais para se manter acordada.
Em geral também por esta janela estar voltada para o leste que a mesma acordava, quando não muito cansada, com os primeiros raios solares da manhã, enquanto nos dias em que estava mais cansada seja pelas atividades do dia anterior ou por ter dormido muito tarde seja qual fosse o motivo era sua mãe que a acordava, ou apenas em raros dias a deixava dormir até que acordasse sozinha. Foi em um dia destes que tinha acordado pela claridade, que ela mais se lembra da antiga casa, a única a qual tinha morado junto de seu pai na infância e depois que saiu desta pela última vez nunca mais retornou. Não era um dia especial, como natal, seu aniversário ou alguma data festiva, mas quando desceu a primeira coisa que ouviu ao abrir os olhos foi a risada de sua mãe, notou que era um bom dia e por mais que debaixo do cobertor estivesse quentinho e confortável ela não demorou ao empurrar para o lado e levantar da cama colocando um casaco antes de descer as escadas, caso contrário levaria uma bronca na certa.
Ela mal havia chegado a cozinha e encontrou seu pai saindo da mesma, provavelmente estava indo acordar a mesma já que quando a viu logo a pegou no colo num abraço a levando consigo para dentro do aposento — olha só quem acordou — anunciou chamando atenção de sua mãe que ao que parecia estava estava terminando de fazer panquecas — bom dia pequena — disse a mesma se aproximando e lhe dando um beijo estalado na bochecha, mas tomando o cuidado de não a tocar já que a ponta de seus dedos estavam sujas — bom dia — foi a úncia coisa que Nix respondeu, com tom animado já com fome querendo comer as panquecas que estavam prontas e quentinhas em uma travessa na mesa — você viu o que sua mãe comprou ? — perguntou seu pai enquanto a colocava sentada direitinho em uma das cadeiras, trazendo para perto dela os pequenos potinhos que estavam ao redor da travessa central, estes que estavam com frutas cortadas e um deles um pouco de chocolate derretido — qual deles vai querer nas panquecas ? — perguntou o mais velho pegando uma panqueca e colocando no pratinho — um quero chocolate e banana — disse a mesma na hora fazendo seus pais rirem, nada mais do que o esperado para ela que amava a fruta por ser docinha.
Seu pai a serviu da maneira que ela pediu e assim que acabou de preparar as últimas panquecas usando o finalzinho da massa tanto sua mãe se juntou a ela e seu pai na mesa. Comeram até não aguentarem mais, claro que os dois mais do que ela, embora tenha sido ela a raspar o potinho de chocolate, o que a deixou tão suja na boca, mãos e roupa que ela teve que se enxaguar e trocar de roupa. Depois disto o dia se seguiu maravilhoso, eles saíram pra passear e jogaram jogos de noite, fizeram tantas coisas que sua mãe podia jurar que ela chegaria na sua cama naquela noite e capotaria de sono, porém a animação por um dia tão bom demorou a deixar ela dormir, ficando no final muitos minutos, talvez até uma hora deitada encolhida abraçando seu cobertor enquanto via as luzes na cidade da pequena janela de seu quarto.
Muitos podiam achar um dia desses normais ou apenas mais felizes do que memoráveis, porém para Nix era um dia da qual nunca iria esquecer, ou achava que não, tinha sido como uma calmaria antes da tempestade já que tempos depois, provavelmente nem um mês ela se mudaria com sua mãe e tudo mudaria.
Ainda era inverno quando um barulho alto acordou Nix de um sonho profundo, ela estava virada como sempre para a pequena janela que mostrava o céu escuro iluminado por pequenos pontinhos de luz, bem poucos mesmo já que com a poluição da cidade não se dava para ver quase nada das estrelas e também o brilho das luzes das casas e prédios. Por um instante ela pensou que tivesse sido um gato no telhado, o que era bem comum visto que na sua vizinhança tinham muitos gatos de rua e ela até mesmo já tinha alimentado alguns algumas vezes, por mais que sua mãe lhe dissesse para não o fazer. Então ficou apenas parada encolhida na cama, dava uma preguiça pensar em se mexer, porém logo ouviu a voz de sua mãe e mais barulhos, seus pais estavam brigando de novo, ela realmente não conseguia entender o motivo de tantas brigas e realmente não gostava delas, então apenas puxou o cobertor mais para cima tapando as orelhas esperando o sono voltar ou a briga acabar.
Conseguiu ver quando as luzes da casa a frente da sua ligaram e sua vizinha bisbilhotar irritada pela janela da frente, afastando as cortinas apenas o suficiente para botar o rosto colado a janela, Nix não gostava dela pois uma vez a ouvira falar com sua mãe que chamaria a polícia por conta das brigas dela e também que ela não era responsável o suficiente para cuidar da própria filha e ela não havia gostado nenhum pouco do que aquilo lhe parecia, por mais que ela não soubesse o que a polícia podia fazer em relação a ela, não estava fazendo nada de errado e sua mãe a amava e cuidava muito bem. Naquela noite diferente de outros demorou bem pouco para os gritos pararem, mas quando já esperava ouvir seus pais voltarem para o quarto, quer dizer um deles enquanto o outro dormia no sofá, ouviu os passos de alguém se aproximando da sua porta e a abrir e contrastando completamente com os gritos anteriores sentiu a mão de sua mãe a tocar na perna delicadamente — Nix, acorda meu anjo, rapidinho — sussurou a mesma. Nix se virando para a mesma sentou, sem conseguir entender muito o que estava acontecendo, aquela era a primeira vez que ela a acordava depois de uma discussão. Em geral quando os dois brigavam eram em horários que achavam que esta estava dormindo, algumas outras vezes sua mãe até ia dormir com ela ao invés de ficar na sala ou voltar para o quarto, dormindo abraçada a ela, porém naquela vez ela estava descabelada e vestida para sair.
— a gente está indo pra casa da Sam hoje tá ? — foi somente isto que ela lhe disse enquanto colocava nela uma de suas jaquetas, deu para ouvir quando seu pai saiu da casa pelo barulho de porta fechando no andar de baixo, surpreendentemente ele não a bateu. Curiosa a pequena espichou o pescoço para a janela vendo o mesmo parar no quintal, parecia estar fumando — o papai vai com a gente ? — perguntou, embora soubesse que não, em geral tinham dias que sua mãe apenas a levava consigo para passar uns dias na casa de uma amiga de escola sua, na verdade a úncia que a mais velha ainda tinha contato e durante esses dias seu pai nunca aparecia, mandava algumas cartas para ela caso o período fosse maior que dois dias, mas pensava Nix que ele mantinha distância e respeitava tal desejo de sua mãe também, além de que não parecia se dar bem com a tia Sam. — não, papai não vai meu amor — respondeu a mesma com um triste, já o motivo Nix não sabia ao certo, logo sua mãe a pegava no colo ela ainda enrolada no cobertor já que estava frio e levava a pequena consigo enquanto ia para o quarto onde roupas voavam de seus lugares para duas pequenas mochilas e assim que finalizadas a mais velha pegou as duas colocando desajeitadamente nas costas. Por um minuto Nix quase chegou a pensar que não se despediria de seu pai, na verdade já estava indo reclamar quando ouviu passos atrás de si e viu o mais velho entrar no quarto com cara cansada, mas um pequeno sorriso no rosto ao ver ela e esticando as mãos para ela a pegou por alguns minutos — tenha uma boa viajem pequena, se divirta muito tá ? — disse lhe dando beijos na bochecha e testa com ternura. Na verdade a despedida foi bem breve mesmo e logo ela estava no noite bus com mãe vendo por breves segundos a casa desaparecer, ela naquele momento jamais pensaria que seria a última vez que veria a mesma, talvez se soubesse teria aproveitado mais sua cama e da vista que tinha.








