Detestava pensar nisso, mas logo que chegou no serviço naquele dia, soube que era um daqueles onde o serviço ficaria infernal por conta da quantidade de pessoas que já se concentravam por perto; e não deu outra. Por sorte, em metade de seu expediente, ficaria cuidando de coisas menores lá dentro, fora da barulheira - mesmo que precisasse dos fones para bloquear os ruídos, altos o bastante para passarem pelas paredes. Não estava em seus melhores dias. Saltou na rua umas cinco vezes por causa do barulho de carros que sequer estavam por perto; algo que, normalmente, não lhe incomodaria nada. Agradeceu pela paz temporária ao que organizava pela terceira vez os talheres (satisfeito porque não podia ouvir o tilintar deles); apesar dos pesares, o dia estava bom.
Mas, bem. Bom demais para ser verdade. Tão logo respirou fundo pelo trabalho fácil, foi comunicado sobre a necessidade de sua presença como garçom. Lá mesmo. No núcleo da desgraça, como chamava o salão lotado de jovens escandalosos. Praticamente implorou, mas não teve saída; precisou respirar, tirar os fones e se dirigir para lá com um sorriso amarelo. Planejou assim, pelo menos. Não chegou na terceira etapa do plano, uma vez que se tremeu inteirinho assim que ouviu o falatório - a duas portas de distância. Escondeu as mãos em punho nos bolsos e passou a respirar fundo, mesmo sem tempo para tal. Tinha cinco mesas em sua responsabilidade e sequer conseguia raciocinar.
O grande ponto foi: na segunda bandeja, já estava sobrecarregado demais. O problema dos jovens - além de conversarem demais - era a necessidade ridícula que tinham de tocar nas pessoas para chamar atenção. Lhe seguraram o pulso três vezes; puxaram o avental duas e, o pior: lhe cutucaram cinco. Contou, claro, no ápice de seu nervosismo. E com o pedido da terceira mesa na mão, parou de funcionar. Sabia para qual era, e se perguntou como cabia tanta gente numa mesa só.
Tanta gente.
Travou no espaço de saída do balcão. Cada tom mais agudo que ouvia dos clientes era uma recuada nova. Largou o pedido na bancada, em certo momento. As unhas se afundavam na palma na tentativa de evitar um comportamento pior; e então foi tocado. Pela... Sei lá, décima vez, segundo sua contagem. E não queria ser tocado de novo, claro. Por isso, não se deu conta que socar alguém não era a melhor ideia do mundo. Não podia se machucar, ou não poderia trabalhar; e não poderia machucar um cliente, já que isso lhe faria perder o emprego antes mesmo de conseguir formular um pedido de desculpas. Mas tinha entendido a pergunta só depois de agir errado, e só porque o pulso doía dum jeito muitíssimo esquisito. A única reação possível foi pedir desculpas - na sua cabeça, porque lhe faltava voz - e se esconder atrás do balcão, como se isso fizesse dele invisível.