Das mudanças de Outubro.
Tomou-me pelo cheiro do café na casa, em passos lentos. O assoalho ainda úmido, era costume do instinto matutino cuidar da casa, logo cedo. O bairro era silencioso por natureza, ao menos de vozes humanas; os pássaros cantavam lá fora em um coro que acordava-me feito príncipe, os latidos sucediam e, algumas árvores sussurravam ao esbarrar suas folhas. Arrastei os pés pela casa, o instinto de que falo, não era exatamente o meu. Meu mês era Outubro, dos cheiros e das cores, para mim tomado de descobertas. Escondi-me atrás da fumaça do café, bem recolhida entre os vãos da soleira, apoiando a visão que escapava entre os cachos dos meus cabelos teimosos. Mamãe dizia para apertar os fios nas mãos e segurá-los afim de deixá-los angelicais, da pureza de anjo que descobri, hoje, nunca ter possuído. Entre todas as orientações, houve também as insistências para abandonar as conjecturas: criança não deve ter certas preocupações. De certo modo, convenhamos que, questionamentos devem ser oportunos ao momento, mas, cultivo em mim a única certeza de que as circunstâncias do tempo mostraram-se distorcidas em suas sequências. A vida e a morte. A fumaça do café junto ao meu fluxo de consciência; algo realmente insólito, da beleza intocável e de um desespero ímpar quando fui consumida pelo cheiro. Arrastei o peso novamente, pude visualizar a cozinha grande da antiga casa no mesmo segundo em que a cozinha reconheceu-me como um corpo estático frente às saias da mamãe. Ela entrelaçou as pontas dos dedos nos meus cabelos teimosos, sorriu ao me ver- e sei que, até hoje, essa é sua forma de demonstrar alegria e, quem sabe, alívio- iniciou o discurso sobre o que deveria fazer: “O café, o banho, recolher os móveis de brinquedo da sala, recolher as fitas VHS empilhados feito muros da minha casa de imaginária”. O tempo do cuidado também era desproporcional, ela não sabia que havia investido paciência na construção daquele cenário. E eu, com meus sete anos esperava o leite quente na mamadeira. Eu, que ouvia falar como ficariam os dentes em decorrência do vício- e não é que eles são realmente imponentes?- tive que abstrair o discurso, sugar aquele líquido doce e quente para dentro do corpo miúdo como forma de sentir algo desconhecido por dentro. Não sabia de anatomia, o processo pelo qual seria submetido meu corpo após a ingestão de qualquer coisa, era desconhecida. No entanto, o que me instigava era reconhecer o interior como ponto crucial de manutenção do externo. Diziam e ainda dizem, que os sentimentos moram por dentro. A minha extensão não-visual era sentir-me ferver por dentro e compreender, lentamente, do que era composto minha existência. O café dela esfriou em cima da mesa, o cigarro consumia-se e caía ao chão em cinzas. Eu queria entender se poderia mudar minha matéria, se ao queimar algo em mim, também seria finalizada em cinzas. A morte. A única chance de reduzir meu corpo a pó, a única forma literal de ser consumida. Mas, meu riso era de descoberta, minha cor no Outubro ainda era o cinza. Não pelo cigarro, não pela morte, não por nada… era apenas o intermédio, a mediocridade, algo nivelado. O cigarro em sua sublimação, toda transformação é o que é, e eu omitindo o esquecimento daquela mulher inabalável que estendia roupas no varal. Eu sei, disse que ela preparava o café, no entanto, eu nunca soube explicar quem ela era e onde estava. Ela é a palavra que não pensaram em inventar; uma das minhas frustrações na escrita é não saber pontuar uma característica reveladora sobre ela. Recolhi as cinzas, acompanhei a palma da mão ser tomada pelo cinza e voltar ao nada quando esfregava os dedos. O cheiro do cigarro é cheiro de Outubro, e creio que desde aquele dia, nunca lavei as mãos. Sai assim que ela sumiu no quintal, queria ter uma prova de que ela era imperfeita ou que pudesse ver flutuar por sua cabeça os seus pensamentos. O jardim florescia, a antiga casa cultivava um arco-íris estrondoso nos verdes. Era influência do tempo, saberia mais tarde. Por hora, achava que a saia vermelha da minha mamãe contribuía para o crescimento das flores; o vermelho devia causar inveja às rosas, por inspiração elas queriam crescer. E assim, só assim, soube que era arte de Outubro. Anos depois, nasceria alguém importante nessa data e morreriam outras mais famosas. E eu, só queria Outubro para festejar o aniversário de uma amiga, comer e comer. A minha sequência de tempo, já disse, não era programada. E o que define o tempo, é o que nele acontece. Prolonguei os olhos no vão existente entre os coqueiros; engoli os espinhos que desciam rasgando-me por dentro. Ali, no meio daquela paisagem fabulosa, uma morte sangrenta demarcava a terra. Os pássaros cantavam, gritavam, um deles estava estilhaçado pelos dentes daquele cão furioso que, no momento, julgava monstruoso. Eu não sabia o que era morrer, não sabia se poderia solucionar os problemas do mundo caso compreendesse que a morte é uma solidão no solo frutífero. Eu dei alguns passos desnorteados, pensei e pensei, queria tocar o pássaro para absorver a sua experiência: toquei superficialmente e vi que conexão foi impossível, toquei forte para senti-lo quente e a força o fez escapar dos meus dedos. E na minha ânsia por querer salvá-lo da indiferença, cravei um galho em seu corpo, libertei sua alma e suas vísceras para reconhecê-lo como meu mais íntimo amigo. Ninguém nunca saberia tanto sobre mim. E naquela hora, meus dedos vermelhos colocavam-me à beira de algo monstruoso e sublime! Eu não poderia ser a mesma após conferir o cheiro de sangue em minhas mãos.









