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Ressignificar é, antes de tudo, um ato de coragem, é atravessar os destroços do que um dia fomos e escolher não se perder entre eles. Não se trata apenas de esquecer, muito menos de apagar, se trata de olhar para aquilo que nos partiu e encontrar ali uma nova forma de existir. A vida com a sua crueldade e ternura nos ensina que nada permanece intacto: nem nós, nem as pessoas, nem os caminhos que acreditávamos ser eternos. Há marcas em mim que não desaparecerão nunca, marcas na pele, marcas na memória, marcas no coração, marcas na alma, mas não as carrego como prisão. Aprendi que as minhas cicatrizes me mostram o quanto eu fui forte, elas me dão força e me lembram que eu posso passar pelo inferno e ainda assim estar de cabeça erguida. Elas me lembram todos os dias que eu precisei ressignificar coisas, pessoas e situações, principalmente porque não me cabiam mais. E isso, por mais doloroso que seja, também é um ato de libertação. O verbo ressignificar além de redefinir, exige um luto silencioso: o de deixar morrer o que não nos serve mais. Não é apenas soltar as mãos que já não nos sustentam, mas reconhecer que a nossa própria essência mudou. Há quem confunda isso com desistência, mas não, é transformação. Desistir é fechar os olhos e recuar, mas ressignificar é abrir mais os olhos e enxergar além, se permitir continuar, mesmo com a bagagem pesada daquilo que já se foi. Passei muito tempo tentando caber em lugares que me sufocavam, em afetos que me diminuíam, em expectativas que não eram minhas. E quando o corpo gritou, quando a alma sangrou, percebi que o preço era alto demais. A partir daí tudo precisou ganhar outro nome, outro peso, outro lugar dentro de mim. O que antes era dor pura se tornou aprendizado, o que era perda passou a ser espaço aberto para novos caminhos, o que parecia fracasso se revelou apenas movimento, um chamado para seguir em outra direção. Ressignificar é, em certa medida, reconstruir a própria gramática da vida. É dar outros significados às palavras que nos feriram, é reescrever capítulos que antes pareciam definitivos, é aprender que até o silêncio pode ser voz. Quando entendi isso, percebi que não sou menos por carregar as marcas do que vivi, sou mais. Sou feito de cada renúncia, de cada despedida, de cada noite em que me refiz sozinho, mesmo sem acreditar que conseguiria. No fim, não é sobre apagar o passado, mas sobre costurar um presente possível com os retalhos dele. É aceitar que certas dores nunca desaparecem, mas deixam de ser ferida aberta para se tornarem cicatriz. E toda cicatriz, por mais feia que pareça, é uma prova de que sobrevivi. Hoje caminho sem pressa mas com firmeza, sei que a vida ainda me exigirá novas coisas, sei que terei de soltar de novo, de reinventar, de aceitar que nem tudo dura, mas já não temo. Porque se o inferno não me derrubou, nada mais será capaz. E é nisso que reside a beleza de ressignificar: perceber que a queda não define, que a perda não encerra e que a dor quando atravessada se converte em força. Talvez seja justamente isso que nos torna humanos, a capacidade de renascer dentro do mesmo corpo com novas formas de olhar e de sentir.
— Diego em Relicário dos poetas.
Na maioria das vezes não é preciso estar pronto, mas ter coragem.
“Ficou pela metade nossa despedida. Nenhum de nós teve coragem de dizer adeus.”
— Amor é singular.
Precisamos aprender a ser impermeáveis, a fechar as portas do nosso coração para tudo o que faz mal, tudo o que não agrega e tudo aquilo que não nos pertence.
— Elisa Lua
é século 21,
amar e ser amado
não é pra qualquer um.
Eu era melhor mas me perdi.