nós, à volta
Ela carpe ao morrer
E nós, à volta.
Os que deviam estar calados, cochicham
Os que deviam falar o dobro, calam-se
Os que estão a queimar passados, cantam
Narinas pretas,
narizes brancos,
olfactos mestiços.
Imaculados ou fungando.
Todos acordando seus epitélios que,
mal se apanham a saborear os óleos essenciais desse pequeno bosque desbastado e tangente à civilização, nos ejectam de pára-quedas do nosso avião-adulto e nos fazem aterrar instantânea e confortavelmente nos vales escuros das memórias dos nossos verdes anos.
Anos Verdes, claro.
Anos Verde-Eucalipto.
Ela carpe ao morrer
E nós, à volta.
Pouco secos, não maduros, murmurando.
Quase como ela, crepitando-nos.
Aço das cordas trinado,
metacarpos calejados.
Metade das nossas forças, evaporada.
A outra metade de nós, condensada,
ali sob o tecto comum celeste,
uma abóbada que nenhuma capella dei scrovegni consegue repetir.
Ela carpe ao morrer
E nós, à volta.
Numa mistura de orvalho e cansaço.
O de lenhar.
O de talhar.
O de atar.
O de carregar.
O de improvisar.
O de guiar.
O de encher.
O de serrar.
O de puxar.
O de temperar.
O de escavar.
O de atear.
Ignizámo-la,
pulsou vermelha.
Rubra, clamou.
Consumiu-se-nos.
Afastámos as nossas já ferventes coxas para não ardermos.
O seu ventre ferveu,
as suas entranhas estoiraram.
Nunca deixámos de fitar quem nos fita.
E agora ela carpe ao morrer
E nós, à volta.
Entoando os dois baixinho.
Leve assobio.
Melancolia (a das que aquece).
Calor que se transforma em morte,
fim que se transforma em luz.
Quase apagada,
ela chora e canta.
E nós, à volta.
Essa Madeira que nos deu um dia abrigo e fogão e mesa oferece-nos esta noite notícias de um lugar misterioso que não conhecemos. Por pouco, muito pouco, e durante pouco, muito pouco, quase que entendemos as letras da sua balada final.
Ela carpe ao morrer
E nós, à volta.
As brasas são transístores do núcleo da Terra.
Do fundo de nós.
Do fim de nós.
Do início de nós.
Do fundo de nós.
No fundo, de nós.
Transístores que carpem ao morrerem
E nós, à volta,
Escutamos.
Gonçalo Fontes
(para todos os Escuteiros meus amigos, com quem já partilhei fogueiras)














