Minhyuk não estava tão calmo quanto nos dias normais, não estava apenas tentando descobrir um jeito de que pessoas como ele vivessem livremente.
Estava no topo de um de seus prédios de observação, como gostava de chamar, aquele local abandonado quando a tecnologia tomou conta, era um dos poucos onde poderia ir tranquilamente, sem ter o governo tentando localiza-lo.
Estava caminhando por entre as beiras da estrutura quando viu um garoto entrar correndo no edifício e logo em seguida mais um, soltou um sorriso de escarnio, aquele era seu dia de sorte? Mais dois para assustar ou então mais um casal para interromper?
Ele não era do tipo amargurado, mas se amaldiçoava toda vez que via um casal em publico ou pessoas encontrando suas almas gêmeas, enquanto ele era mais um dos defeituosos que o governo tentava esconder e matar. Ele então desceu, andar por andar tranquilamente, sua audição privilegiada pelos anos fugindo do governo e se infiltrando onde não deveria, o fazia escutar as duas respirações pesadas, porém foi só quando chegou no andar que eles estavam que sentiu a queimação e então a luz se fez presente, naquele momento ficou sem ar, e estava perplexo, aqueles dois eram então sua alma gêmea?
Cambaleou para trás até sentir a parede em suas costas e soltou um suspiro pesado, aquilo era um pesadelo e ele tinha certeza, não poderia ter acontecido em pior hora e ainda mais sendo eles. Então juntando todas as forças que tinha e a curiosidade de saber quem eles eram, saiu de seu esconderijo, indo até a parte onde a lua iluminava. “— Eu não sei quem vocês são, mas sei que estão ai, podem vir aqui, ninguém vai entrar por aqui, pelo menos, não por enquanto.” A voz saiu rouca e tranquila, tentava não assustar os rapazes.
Arthur não era uma pessoa de confiança fácil – muito pelo contrário, jamais confiava plenamente em qualquer um –, mas tinha uma crença cega no amor e no destino que muitas vezes beirava o extremo. Por isso, seu primeiro impulso foi o de seguir, sem questionar, aquela voz que lhe parecia tão reconfortante, em direção à silhueta parcialmente iluminada pela luz da lua cheia. Mas ainda tinha em si o instinto de defesa, a reação automática de “lutar ou fugir” típica de animal selvagem que tanto lhe salvara na selva de concreto que habitava, e essa fez com que desse dois passos para trás e procurasse conforto no vidro gelado da garrafa, pressionando-a contra o próprio corpo, abraçando-a como uma criança medrosa.
Fechou então os olhos e permaneceu em silêncio enquanto uma guerra acontecia dentro de si.
Tinha imaginado inúmeros possíveis cenários para seu primeiro encontro com os dois, mas nenhum o preparou para o medo do desconhecido. Não sabia quem eram, de onde vinham, com quem estavam, o que fariam com ele. Quantas histórias de almas gêmeas que acabaram em tragédia já havia ouvido! Sempre preferiu fingir que eram lendas, criadas para tirar dos jovens qualquer resquício esperança, e orgulhava-se de nunca ceder a elas — mas agora temia que fossem verdade.
Vários “e se” ecoavam em sua mente. O medo quase falava mais alto, apoiado pelo trauma que passara há poucas horas, mas Arthur sempre sonhou com aquele momento e não iria acovardar-se agora que ele havia chegado.
Largou a garrafa no chão, fechou o zíper da jaqueta e abraçou o próprio corpo trêmulo e dolorido.
Um passo pequeno, um suspiro, outro passo.
Seu coração disparava como nunca antes, misturando extremos de euforia e pavor. A adrenalina que corria em suas veias fazia com que conseguisse ignorar todos os machucados espalhados em si. Sentia, ao mesmo tempo, tudo e nada. Uma sensação que nenhuma droga conseguiria igualar, e ele podia viciar-se facilmente naquilo.
Continuou caminhando em silêncio até a metade do caminho, quando virou-se para sua direita e encarou aquele que praguejava baixo; não conseguia ver seu rosto, apenas sua postura defensiva. De repente, pareceu sentir-se mais seguro. Não estava sozinho ali, afinal.
Seus olhos voltaram à silhueta daquele que os chamava por um instante, antes de pararem novamente no outro ao seu lado. Pensou em estender-lhe a mão, mas reprimiu-se; as escondia por um motivo. “Você vem?” foi o máximo que conseguiu dizer, numa voz doce e calma, não denunciando o medo que sentia. Sempre foi bom em fingir.
Sentia o sangue fervendo, especialmente porque sabia que aquele lugar não era seguro. Não era seguro por conta da polícia. Não era seguro por causa do sistema. Mas, especialmente, não era seguro pelas lembranças atreladas naquele prédio. Uma das poucas vezes que o filho dos esgotos tivera uma vista da velha NY. A luz da lua era a única coisa que tinha ali que deixava as coisas iluminadas.
Mas Kyung não precisava de luz pra conhecer aquele prédio como a palma da sua mão. Tudo o que vivera ali, da forma que vivera ali e os traumas que isso tinha deixado nele, não passaria tão cedo. E ainda estava com as mãos em alta guarda, esperando os donos dos passos aparecerem bem à sua frente. Eram tímidos demais para serem de militares, mas ainda assim, não abaixava a guarda e nem deixava a comida longe de si.
Então a silhueta iluminada pela luz da lua apareceu. Ele era menor que a si e seus belos cabelos pretos ganhavam um brilho diferenciado, juntamente com o azulado que a lua deixava naquela pele que parecia macia. De onde ele estava, Kyung percebeu que o garoto estava tão frágil como uma das suas crianças e isso fez com que ele engolisse em seco. “Nem ferrando. Vou é dar o fora daqui.” Respondeu grosseiro, guardando o soco inglês dentro do bolso e se abaixando para pegar a sacola.
Enrolou-a no pulso e começou a andar para saída do prédio quando seu coração, o mesmo que sempre foi dito que não existia, falhou a batida e uma sensação de angústia acomodou-se em seu peito. O menino que ainda era somente uma silhueta era frágil. E se o terceiro naquele lugar fosse alguém ali para pegá-lo e a marca tivesse vindo com defeito? Ele era frágil, não ia conseguir se defender. “Que saco!” Voltou para a direção da voz e finalmente conseguiu ver o dono da terceira voz.
Agora eles tinham rostos. Ou quase isso.