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Momentos finais...
Este portifólio não se encerra por aqui, do mesmo jeito que estão longe de serem encerradas as discussões sobre educação. Creio que há muito a ser debatido, comentado e questionado e devemos, como futuros docentes, estabelecer isso como uma atividade permanente de nossa profissão. As temáticas até aqui tratadas sã pontos de extrema relevância e que não se esgotam por aqui. É importante sempre trazer esses temas à luz para que a educação não seja uma prática estagnada...
Com certeza aprendi e apriorei meu olhar sobre diversos temas, e esta atividade do portifólio proporcionou uma comunicação e ferramenta de debates. Também foi muito eficaz como instrumento para trasnpor a nível extra-aula os temas abordados, nos dando a oportunidade de expor nossos pontos de vista e entendimentos sobre os assuntos. É um meio interativo e eficaz de demonstrar que as perspectivas didáticas podem ir muito além da sala de aula.
A disciplina propiciou muitos debates engrandecedores, e aqui não foi diferente. Aliás, não será! Esta será uma atividade continuada, onde temas relevantes virão sempre a tona, questionando questões que são fundamentais para se pensar a educação. Estaremos em sala de aula e além da sala de aula abordando a educação.
A conclusão que fica é que esta é uma ferramenta muito eficaz para se acompanhar extra-classe os temas debatidos, bem como deixar os alunos exporem de forma autônoma seus entendimentos e posicionamentos. A interatividade também se constituiu como muito relevante, sendo a comunicação a chave para melhorar as condições do ensino atualmente.
Planejamento: planejar.
A atividade de se fazer um planejamento de ensino envolve mais que o interesse de passar um conteúdo em sala de aula. Exige que se pense a relevância do assunto, se ele dialoga com a realidade dos alunos e da escola, se dialoga com outras disciplinas, se haverão tarefas compatíveis para ser desenvolvido e se o tempo será bem planejado para se dar conta das propostas.
É legal que, no decorrer da disciplina, se pense temas tranversais que dialoguem com outras disciplinas, para que os alunos vejam como um determinado tema pode ser tão abrangente (por exemplo, falar de meio ambiente relacionando biologia com sociologia, falar de economia relacionando matemática com geografia...). As possibilidades são muitas!
É interessante também se pensar atividades que desenvolvam a responsabilidade e o senso crítico do aluno, como seminários e debates. Promover saídas de campo e trabalhos de pesquisa extra-escolar é um ótimo meio de proporcionar ao aluno investigar o assunto além do ambiente restrito da escola, observando-o praticamente no cotidiano. Ressalva-se ainda trazer temas que sejam relevantes para os alunos e que condizem com a realidade social e cultural deles. Assim, fica mais fácil despertar o interesse deles para questões reais e próximas.
As áreas que se comuniquem num determinado tema podem ser múltiplas, se o professor for criativo (e realista) ao propor atividades. Utilizar artefatos das aulas de Artes, Educação Física, etc. são grandes aliados para a participação e desenvolvimento da criatividade dos alunos.
Mas o planejamento deve ser muito bem pensado, principalmente no que diz respeito aos materiais utilizados, a bibliografia, a gerência do tempo e a avaliação... Se bem estabelecidos esses critérios - materiais possíveis e disponíveis, bibliografia concisa e ao alcance dos alunos, tempo bem planejado e avaliação justa e formativa - o plano de ensino pode gerar uma aula prática saudável e participativa. Basta o professor ter objetivos claros e que sejam relevantes, especialmente para os alunos.
Avaliar: como?
Estudar didática não permite que deixemos de lado a questão da avaliação, pois este é uma parte do processo de ensino/aprendizagem muito importante, que carrega um enorme valor semântico e simbólico. A avaliação consiste numa forma de averiguar o desenvolvimento do aluno de acordo com as perspectivas e expectativas do processor. Porém muitas vezes a avaliação funciona como um meio coercitivo e ameaçador, na medida em que é usado para qualificar os conhecimentos dos alunos e assim, é visto como uma arma de seleção e segregação. Muitas vezes os professores não vêem a avaliação como uma etapa do processo de aprendizagem, e vêem como o objetivo final desse processo. É esta visão que vem sendo muito criticada. É possível se pensar essa avaliação como etapa da aprendizagem?
Sim, se pensarmos na avaliação formativa, aquela que é utilizada como forma não de qualificar o aluno, mas de auxiliar seu aprendizado. Nessa perspectiva, o erro também é aprendizado, na medida em que o professor demonstra ao aluno porque ele errou e como ele pode consertar/aprender. Isso pressupõe que a relação entre aluno e professor seja mais humana e o erro averiguado na avaliação seja instrumento para o aluno aprender, formando seu senso crítico e participando de sua própria avaliação. A avaliação formativa, assim, atua não como instrumento para qualificar o erro, mas utilizá-lo como aprendizado.
Acredito que a avaliação é válida no sentido em que seja utilizada como instrumento de acompanhamento e de aprendizagem, não como meio de dar um veredito final sobre o que o aluno não sabe. Ela deve ser pensada "como o aluno sabe, como ele pode vir a saber". Avaliar assim requer instrumentos básicos: comunicação, maior contato entre professor-aluno, autonomia para autoavaliação e confiança. Acredito que, partindo desses pressupostos básicos, é possível avaliar sem que a avaliação seja um meio de constranger, mas sim de ensinar.
Texto base:
A avaliação como atividade crítica de conhecimento. In: MENDEZ, J.M.A. Avaliar para conhecer, examinar para excluir. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002.
Mafalda, exemplificando uma perspectiva das Novas Didáticas.
Comentando: As Novas Didáticas
Já se faz um bom tempo que a didática tradicional dos sistemas escolares é questionada e criticada. Pautada em métodos que vêem o aluno como imaturo, dependente, em tarefas maçantes e repetitivas e métodos grosseiros de avaliação, ela sistematiza o trabalho escolar em uma tarefa fácil de realizar, vigiar e corrigir, numa relação de dominação do professor sobre os alunos e na exigência de tarefas e trabalhos iguais para todos, sem avaliar as diferentes soluções que podem ser dadas, ou as dificuldades dos alunos, ou a relevância de determinadas tarefas, entre outros. Ou seja, a didática tradicional se pauta como um sistema de controle e avaliação quantitativa, calando a livre autonomia dos indivíduos.
A didática tradicional não vai sair completamente dos sistemas de ensino de um dia para o outro. Mas há alternativas eficazes para tentarmos ir aos poucos transformando a educação. São as Novas Didáticas, que trazem uma versão mais humanista para se pensar a educação, onde o aluno tem mais possibilidades, não é coagido pela avaliação e tem liberdade e autonomia para aprender. Perrenoud (1997) nos sugere que as novas didáticas surgem como “resultantes de uma crítica das didáticas tradicionais, se apresentam como alternativas propostas a todos os que não se contentam com as formas clássicas do ensino e do trabalho escolar.” (p. 83).
Para justificar o efeito benéfico das novas didáticas, nos afirmando em Perrenoud, identificamos junto com ele os aspectos básicos das mesmas: 1) O aluno é visto como sujeito ativo da aprendizagem, ele constrói o conhecimento junto com o professor; 2) a construção dos saberes se dá através de interações sociais, numa construção progressiva; 3) a escola se torna receptiva à vida, trazendo aspectos cotidianos ao ambiente escolar; 4) o respeito pela diversidade e pela cultura; 5) a valorização da autonomia do aluno; 6) o método da motivação e a valorização dos aspectos cooperativos do trabalho escolar.
Esses aspectos são estruturados por reestruturação das tarefas escolares, que segundo o autor, são a chave da ruptura com a didática tradicional. Nesse ponto de vista, as novas didáticas são, a meu ver, não só ideais, como eficazes, muito mais para os alunos quanto para os professores. Elas proporcionam trazer aos alunos problemas e tarefas que se ajustam à realidade de cada um, estabelecendo que não fiquem todos realizando a mesma tarefa, ficando cada um com um problema que considera pertinente a si dentro de tantos apresentados dentro de uma temática. As tarefas também propiciam abertura na busca de soluções dos problemas, dando suporte à criatividade fundamentada dos alunos. Traz problemas reais, cotidianos, para a sala de aula, fazendo o aluno reconhecer sua realidade e estimulando-o a realizar as tarefas, bem como estimula a criatividade na elaboração dos problemas. Proporcionam ainda a possibilidade do trabalho em grupo, sem hierarquização dos alunos por notas, pois cada qual desenvolverá uma tarefa diferente, propiciando a divisão do trabalho numa relação dialética. Esses aspectos são positivos, pois, como afirma o autor, proporcionam ao aluno uma experiência de sentir sujeito da aprendizagem, construindo o conhecimento e participando de forma autônoma.
As novas formas de estabelecer as tarefas, como ditas acima, obviamente deliberarão uma adaptação dos professores, especialmente para gerir o controle dos alunos e do tempo. Mas essa tarefa não se torna tão cruel quando vistos os efeitos benéficos que as Novas Didáticas podem proporcionar. Mesmo os alunos que tenham dificuldade de se adaptar a esse novo sistema, as novas didáticas conseguem dialogar com antigas estratégias da didática tradicional, adaptando-as de forma positiva na estimulação dos alunos. Perrenoud, assim, nos apresenta argumentos que não deixam contestação da necessidade de novas didáticas nos sistemas escolares.
“Uma didática tradicional encerra os alunos numa rede cercada por obrigações e contolos. Uma nova didática leva-os para um turbilhão de projectos e de possibilidades [...]. Os alunos deixam de se contentar com o fazer simplesmente o seu trabalho. Pedimos-lhes para serem activos, inventivos, para terem ideias, para tomarem iniciativas, para assumirem responsabilidades, para serem simultaneamente autônomos e capazes de trabalharem em grupo, suficientemente investidos no seu trabalho para levarem tarefas a cabo, suficientemente descentrados para negociarem a divisão do trabalho e os projectos com os outros...” (p. 86).
Ora, de que outra maneira podemos conceber uma didática humanista e formadora de bons cidadãos conscientes e pessoas autônomas se não pensarmos essas novas didáticas como uma alternativa para uma transformação positiva?
Referência:
PERRENOUD, P. Práticas pedagógicas, profissão docente e formação. Lisboa: Dom Quixote, 1997.
Ser interacionista? Por que?
Nos últimos debates em Didática se trabalhou a contribuição das correntes que compõem o Interacionismo nas torias de aprendizagem. Para me posicionar sobre o Interacionismo, é preciso antes sintetizar de forma bruta as duas principais correntes que representam esse conceito.
A primeira diz respeito à Piaget, que tratou da psicologia genético-cognitiva. Para Piaget, em primeiro plano, estruturas iniciais do desenvolvimento cognitivo condicionam a aprendizagem, ou seja, antes de aprender, a criança passa por uma série de desenvolvimentos cognitivos iniciais, com o quais ela adquira seus primeiros conhecimentos. Conjuntamente, a partir da aquisição dos primeiros conhecimentos, esses possibilitarão a transformação e o desenvolvimento de dessas estruturas iniciais, que futuramente irão possibilitando a aquisição de novos conhecimentos mais complexos. A aprendizagem é tanto um fator como um produto do desenvolvimento. O interacionismo em Piaget ocorre pois o autor, em determinado estagio do desenvolvimento cognitivo da criança, considera que a interação com o meio social será tanto um fator de aprendizagem, e conseqüentemente, do desenvolvimento. A percepção, a representação simbólica e a imaginação passam a ter implícito um componente da atividade física, fisiológica ou mental, o que condiciona o desenvolvimento. O sujeito ainda tem participação ativa na organização das informações. E há quatro fatores que influem no desenvolvimento das estruturas cognitivas: maturação, experiência física, interação social e equilíbrio.
A segunda corrente, defendida principalmente por Vygotsky, em contrapartida afirma que a aprendizagem precede o desenvolvimento, e não o contrário. Mas se assemelha no que diz respeito à importância da interação social (indivíduo-meio social – escola) no desenvolvimento e na aprendizagem. Nessa perspectiva, a atividade e a coordenação das ações que o indivíduo realiza não são as únicas responsáveis pela formação das estruturas formais da mente, mas também a apropriação da bagagem cultural, que é produto da evolução histórica da humanidade, e que se transmite na relação educativa. Também a atividade do indivíduo é motor fundamental do desenvolvimento. Assim, a criança, em suas trocas espontâneas com o meio físico e psicossocial se põe em contato com o sentido dos objetos, artefatos, instituições e outras produções sociais, fazendo com que a escola cuide da aquisição mais apurada e organizada do substrato de idéias, significados e intencionalidades que configuram a estrutura social e material da comunidade na qual se desenvolve a vida do futuro cidadão.
Acredito que, na minha concepção e área de estudo, o interacionismo se restringe mais ao campo da educação, pois os conhecimentos necessários para tratar do desenvolvimento cognitivo e formação de estruturas mentais estão muito mais para a área da psicologia e medicina. No que toca a educação, me posiciono favorável ao interacionismo, pois vejo que é de fundamental importância a interação do sujeito com o meio social no processo de aprendizagem. A educação não se restringe mais à sala de aula, e o contato com o mundo exterior e as experiências através deste podem ser grandes fatores de aprendizagem, que podem proporcionar aos alunos não apenas novas formas de ver os objetos do conhecimento, mas também trazer esses objetos ao nível da vida ativa deles, transformando a aprendizagem em mais fácil e prazerosa. Interagir o conhecimento escolar com o meio social dos alunos, deixando-os ter papel ativo na aprendizagem se constitui um método de ensino que rompe com as barreiras do aluno passivo receptor das teorias tradicionais da aprendizagem.
E respondendo à questão: Por que ser interacionista nos dias de hoje?
Porque a ação educativa, na perspectiva interacionista se faz na:
- Construção do conhecimento através do processamento da informação.
- Busca relação entre conhecimento cotidiano e conhecimento cientifico.
- Busca relação entre pensamento e experiência.
- Atividade que permite interação do aluno com o próprio e com os outros.
- Propicia espaço para participação, respeita opiniões e diferentes culturas.
Referências:
Proposta Pedagógica: Sócio-interacionismo. In:http://www.neocyber.com.br/cmsescolas2/index.php/propostafront (16/11/2011)
SACRISTÁN, J. Gimeno; GÓMEZ, A. I. Pérez. Compreender e transformar o ensino. 4.ed. Porto Alegre: ArtMed, 1998. (p. 34-43)
Multiculturalismo e currículo
Nas últimas semanas, em que o debate na Didática esteve abrangendo as teorias de currículos e suas temáticas, seminários sobre esses temas foram apresentados por diversos grupos. Os temas abrangeram das mais variadas correntes e suas importantes contribuições teóricas e práticas para a formulação de conceitos na educação, desde o Capital Cultura de Bourdieu, o contexto histórico do surgimento das teorias de currículos, as teorias de Paulo Freie e Althusser, o pós-colonialismo, entre outros, que engrandeceram muito o debate. Em especial, esta postagem destaca a apresentação que tratou sobre as Questões de Raça e Etnia nos currículos, que remeteu à importância do multiculturalismo no currículo.
Como bem destacado pelo grupo, noções de raça para diferenciar grupos humanos não são mais válidas desde meados do século XX, o que deixa sem sentido haver a hierarquização de pessoas baseadas na superioridade racial de algumas por aspectos biológicos, como a própria biologia já diz. O conceito de raça passou a ser um conceito ideológico para legitimar relações de poder, em grande parte realizadas sobre a forma de dominação cultural através da valorização de tipos de conhecimentos. A escola, há muito tempo sendo denunciada como uma instituição que reproduz as relações de poder da sociedade, assume assim um importante papel para mudar esta realidade e mostrar aos alunos que todas as formas de culturas (etnias) são importantes na história da humanidade e não se pode hierarquizar e privilegiar no currículo escolar apenas uma forma de manifestação cultural.
Fica-se, assim, o encargo de se pensar o currículo não apenas como transmissão cultural, mas como transmissão da diversidade cultural de uma sociedade, como a brasileira, não privilegiando determinados saberes, mas estabelecendo diálogos entre diversas formas de saberes oriundos das diversas culturas trazidas à escola pelos alunos. O grupo apresentou a temática de forma a estabelecer o debate sobre a importância de se pensar o multiculturalismo no currículo escolar, tarefa que não é fácil, mas também não é impossível. A princípio, precisamos nos desnaturalizar de noções como "superioridade racial" e "saberes privilegiados".
Para a perspectiva multiculturalista crítica, “não existe nenhuma posição transcendental, privilegiada, a partir da qual se possam definir certos valores ou instituições como universais.”(SILVA, 1999:90). Assim, colaborando para o debate que foi levantado a partir do seminário, é importante que nós, enquanto educadores, devemos conhecer os universos culturais dos alunos, alinhavando o ensino às suas realidades culturais e sociais, não ignorando suas formas de identidade. Devemos saber lidar com o pluralismo cultural que forma nossa sociedade e respeitar as diferenças culturais, não estabelecendo valores hierárquicos entre as formas culturais de saberes. Privilegiar um currículo que almeje esses objetivos não só deve ser pensado como uma alternativa para a educação, mas como uma alternativa por um mundo mais tolerante e diverso. Referências:
MUNANGA, K. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. III Seminário Nacional Relações Raciais e Educação - PENESB-RJ, 05/11/2003.
SILVA, T. Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
Para ilustrar a reflexão sobre currículo, se faz interessante esse vídeo que propõe como podemos pensar o currículo escolar na educação contemporânea.
Teorias de Currículo: reflexão crítica
No debate sobre Torias de Currículo encontram-se 3 principais vertentes:
Nas Teorias Tradicionais de Currículo, o funcionamento da escola é visto como o funcionamento de uma indústria, ou seja, cada aluno deve adquirir o conhecimento necessário para desempenhar determinada função no mundo do trabalho, além que a passagem dos conhecimentos se dá de forma mecânica e repetitiva (como funciona uma linha de montagem). Nessa teoria, estabelece-se que é necessário educar para o trabalho, e o currículo se pauta na necessidade de estabelecer claramente os objetivos da educação e na fixação das habilidades que os alunos exercerão mais tarde. Como uma organização mecânica do ensino, o currículo se distancia substancialmente dos interesses e ignora os conhecimentos prévios, a cultura e as necessidades dos alunos.
Já a partir dos anos 60, com a eclosão de diversos movimentos sociais pelo mundo que começaram a questionar os valores sociais, a ordem estabelecida, guerras e movimentos de emancipação, no campo da educação também surgiram as Teorias Críticas dos Currículos. Na Teoria Crítica, a idéia básica era a questão de que a escola passa a ser entendida como um “aparelho ideológico do Estado”, onde a educação e o currículo contribuem para a reprodução da sociedade capitalista na escola – desigualdades, divisão das classes sociais, etc. Têm-se assim uma idéia da correspondência entre as relações sociais no trabalho e as relações sociais na escola. Crianças e jovens das classes dominantes têm seu capital cultural reforçado, enquanto crianças e jovens das classes dominadas têm seu capital cultural desvalorizado, e por esse processo, ocorre a reprodução cultural da cultura dominante. Estabeleceu-se, assim, a denúncia de que a escola e o currículo não são neutros, funcionando como uma forma de reprodução e manutenção da sociedade capitalista.
As Teorias pós-críticas, surgidas a partir dos anos 80, formaram uma continuidade e aprofundamento das teorias críticas, com novas idéias e contribuições para o pensamento curricular. Apareceu, aí, a vertente do multiculturalismo, criticando aquela referência única cultural nos currículos e ressaltando a valorização das múltiplas culturas dos alunos e comunidades. Além disso, passam a habitar os debates sobre currículo também as questões de gênero, identidade, raças, etnias, relações de poder, etc. Nessas teorizações, vê-se a necessidade de:
• ampliação do conhecimento/cultura para além da escola: equiparação entre diferentes manifestações culturais (conhecimento das mídias, da publicidade)
• Apagamento das fronteiras entre instituições no que se refere ao conhecimento/cultura. A escola é vista como um espaço de diálogo entre as múltiplas culturas que compõem a sociedade, além que de é destacada a importância do conhecimento cotidiano dos alunos para sua formação, que não deve ser pautada apenas no currículo mecânico dos saberes organizados em disciplinas.
Creio que na educação brasileira atual, pelo menos no que se refere ao que vivi durante minha escolarização, os currículos escolares transitam ainda nas teorias tradicionais, porém já abrindo espaços significativos para as teorias críticas/pós-críticas. Ainda há uma certa insistência na preparação para o mercado de trabalho, especialmente porque vivemos numa sociedade extremamente mecânica e tecnológica, porém a forma como está se dando essa preparação está abrangendo também as questões do multiculturalismo, mas isso não exclui a reprodução da cultura dominante nas escolas. Considero a escola atual ainda fortemente tradicionalista, arraigada a valores tradicionais e insistente na formação não-crítica dos alunos, e creio que, para haver uma mudança ideológica-estrutural na escola é preciso haver uma mudança estrutural na sociedade.
Texto de referência:
Silva, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
Sobre o papel do professor, e dialogando com o tema anterior sobre a função social da escola, recomendo o filme "Sociedade dos Poetas Mortos" (1989), que conta a história de um professor que despertou a curiosidade dos alunos pela disciplina baseado em formas não-ortodoxas de ensino e ao mesmo tempo questionou e despertou nos alunos o pensamento crítico sobre como a escola exige deles a disciplina e a formação para o trabalho em determinados setores.
Pluralidade cultural e Papel do professor
Na realidade de diversas sociedades, é preciso se reconhecer a diversidade de formas de transmissão do conhecimento, observando que este se dá em diversos lócus para além da sala de aula. A educação e a busca pelo conhecimento se dão em diversos espaços, não podendo ser atribuída somente à escola. A rigidez com a qual se reveste a dinâmica pedagógica deve ser questionada, uma vez que há uma pluralidade de formas culturais de apropriação do conhecimento. A escola como um especo de construção do conhecimento deve ser um espaço também de inúmeras possibilidades de expressão no processo educativo. É preciso que se reinvente a escola, promovendo “ecossistemas educativos”, pois somente assim se pode dar conta dos desafios da pluralidade cultural.
Já o papel do professor na escola se insere como um importante agente da ação educativa. é importante que o professor tenha domínio do conteúdo que leciona e se coloque em diálogo com os estudantes. Como transmissor da "memória educativa", é importante que ele se proponha à transmissão do conhecimento sob diversas formas, estimulando a aprendizagem e despertando a curiosidade do aluno. Isso diz respeito não apenas aos conteúdos ministrados em aula, mas também no manuseio de novas tecnologias que cada vez mais se inserem nos sistemas educacionais.
Textos base dessa postagem:
"Construir ecossistemas educativos - reinventar a escola" de Vera Maria Candau e "O papel do professor na sociedade digital" de Vani Moreira Kenski
Comentando: "As funções sociais da Escola: da reprodução à construção crítica do conhecimento e da experiência" (A. J. Pérez Gómez)
A educação, em amplo sentido, cumpre a função de socialização do homem, uma vez que, como é defendida por muitos autores, essa é condição para a humanização do indivíduo. Assim, o processo de educação estabelece-se como a transmissão de valores morais, físicos e intelectuais, necessários para a manutenção da sociedade. Muitos autores da sociologia da educação salientam que o papel dessa socialização dos alunos na escola é prepará-los para o mundo do trabalho. A segunda função da escola, de acordo com o autor, é a preparação para a vida pública, ou seja, princípios e habilidades pelos quais o indivíduo possa intervir e viver na sociedade. Porém a escola nesse processo de socialização transmite e consolida valores que asseguram uma falsa igualdade de oportunidades, assumindo a máscara de a escola é igual para todos.
Essa caracterização da escola acentua uma sociedade desigual e discriminatória, que dando ênfase ao individualismo em detrimento da solidariedade, mina já nos primeiros momentos da aprendizagem, as possibilidades dos menos favorecidos social e economicamente. Para o autor este é um dos pilares do processo de socialização como reprodução na escola. Pautado em Bourdieu e Passeron, ele reafirma que a escola legitima a ordem social e cultural existente e reproduz as contradições sociais. Dessa forma, a escola cumpre a função de impor a ideologia dominante. A escola organiza a experiência cotidiana do aluno da mesma forma que é organizada a relação de produção do operário na fábrica e sua relação com seu patrão. A orientação homogeneizadora da escola confirma e legitima as diferenças sociais. Quando se aceita as aparências do currículo e certas formas de de organizar a experiência dos alunos como comuns e iguais para todos, fica fácil se aceitar a ideologia da igualdade de oportunidades para todos. Viver sob esse manto de igualdade é a forma mais eficaz de socializar as novas gerações. A escola, ao mesmo tempo em que discursa a formação plena do indivíduo no ideal de liberdade de oportunidades, prega e reproduz em seu seio o comportamento disciplinado e submisso das grandes massas no processo das relações de produção do mundo do trabalho.
O texto de Pérez Gómez se assemelha á importante contribuição do filósofo István Mészáros, cuja análise da escola na sociedade industrial a caracteriza como um microcosmo da organização social (desigual) onde através da reprodução das desigualdades e da falsa igualdade de oportunidades se socializa o individuo desde cedo para sua acomodação na sociedade desigual e sua função no mundo do trabalho. É preciso se pensar sobre as conseqüências desse tipo de educação e que tipo de homens estamos formando nesse processo esmagador de dominação e pensamento acrítico.
Como sugestão de leitura sobre essa temática, recomendo o texto "A Educação para Além do Capital" de István Mészaros e "Escritos de Educação" de Pierre Bourdieu.
Por Renata L. Andrade