ʜᴇɴʀɪᴋ sᴛʀᴀɴᴅ ʜᴀᴠᴏᴄ 𝖔𝖗𝖎𝖌𝖎𝖓 𝖘𝖙𝖔𝖗𝖞
O começo de uma história é sempre simples, certo? Digo, não tem reviravoltas absurdas e nem uma trama difícil demais para se entender. Ao menos a vida de Henrik costumava ser dessa forma. Simples. Não boa ou ruim, mas média, ok, neutra, regular. Talvez o problema aí viesse da necessidade do garoto por aventura, por descobertas e desbravas a respeito do mundo e tudo que existia. Sentia-se maior do que a pequena cidade onde crescera, sonhando tão alto que quase se sentia voando para alcançar seus desejos e aspirações.
Jurou mais que tudo que seu desejo fora atendido quando, numa noite tão comum e pacata, surgiu um menino em sua janela. Sua vida jamais foi a mesma outra vez desde que conheceu Peter Pan. O idolatrava, o amava, o venerava e respeitava acima de qualquer coisa. Peter tinha sido o que lhe deu chaves para se libertar de suas amarras e o mínimo que poderia fazer seria ajudá-lo a conquistar não apenas Neverland, mas o mundo.
Tornou-se então não um mero seguidor ou aliado ou apenas um menino perdido dentre outros, mas seu segundo no comando, seu mais fiel e confiável companheiro. Henrik fora deixado para trás e Havoc nascera em seu lugar. Como deveria ser, é claro!
Virou sua missão de vida seguir o garoto risonho e voador, batalhando contra piratas, nadando com sereias e voando com fadas. A aventura parecia jamais ter fim algum, afinal, não envelhecia estando lá. Ou será que envelhecia?
Veja bem, as coisas que te contam sobre Neverland podem soar belas e mágicas, mas o que ninguém menciona é que a mente segue mudando, segue envelhecendo e por mais conservada que a aparência exterior esteja, as memórias e vivências seguem o curso normal da vida sem qualquer interrupção.
Os anos fizeram Havoc ir mudando aos poucos e a lente que lhe cobria os olhos ia sendo retirada. Numa de suas fugas com as fadas ao tal chamado “Continente”, a curiosidade lhe venceu, resolvendo procurar sua família e ver como estavam.
Ah, perdão, eu disse família? Não, não! Não havia família nenhuma lá, apenas histórias tristes demais para serem proferidas em voz alta. Mas posso dizer que o que Havoc encontrou foram apenas restos do que um dia havia sido. Ninguém mais estava vivo. Ninguém mais estava lá. O tempo passara tão rápido que sequer o percebera. Sua família, por outro lado, caiu em ruínas após sua perda. Não havia mais forma de voltar atrás, os havia perdido afinal. Antes jamais houvesse desejado por algo diferente. Antes jamais houvesse seguido... Pan.
Pela primeira vez em todos aqueles longos anos, o nome de seu líder se tornou amargo em sua boca. Se Pan não houvesse aparecido, nada daquilo teria acontecido. Se não o houvesse persuadido, manipulado e enganado por todo o tempo, poderia ter voltado para casa. Era uma mera criança ingênua quando foi levado embora e naquele dia em que seus olhos foram abertos, os questionamentos começaram a tomar conta de sua mente mesmo quando voltou à Neverland.
Fazendo o possível para se manter ainda fiel à Pan, tudo em volta parecia colaborar para o completo oposto. Quando Wendy e seus irmãos foram embora e Peter ficou desolado, ficou a cargo de Havoc guiar as coisas. O ódio em si crescia mais a cada dia, afinal, Pan parecia simplesmente ignorar a existência de todos eles para se entristecer por uma menina que mal havia conhecido direito.
Sentiu-se não apenas traído, mas abandonado também. Não havia mais forma de seguir o defendendo quando a terra começou a morrer, quando a água secou e tudo em volta parecia tão sem vida quanto o próprio Pan.
Havoc colocou um basta em tudo, se aliando à Hook para que pudesse arrumar uma maneira de não apenas deixar aquele lugar, mas também de salvar os outros meninos perdidos, que estavam assustados com tudo em volta. Se tornou então um espião, um agente duplo, vendendo e distorcendo informações de ambos os lados da guerra: de Pan ou Hook, pois jamais ousaria confiar tão cegamente em alguém de novo. A traição vinda do segundo no comando e mais próximo amigo de Peter não foi percebida por ninguém, é claro, mal sabendo o tão amado “herói” que seus dias de glória estavam contados.
Talvez nesse meio seus sentimentos por Pan, os quais jamais colocou em voz alta ou permitiu serem descobertos, seguiram existindo, mas ao misturá-los com mágoa, abandono e culpa tudo dentro de si virou um caos infinito. Havoc sempre foi uma pessoa que sentia demais, que vivia aos intensos e extremos e mesmo todo seu amor e admiração por Peter Pan eventualmente se tornaram ódio. Talvez, no fim das contas, amor e ódio de fato fossem dois lados da mesma moeda.
No princípio, quando se fora denominado um menino perdido, usava o título com honra e puro orgulho. Ali, contudo, com seu coração despedaçado e o lugar que chamava de lar morrendo, via que nunca fora um título bonito ou divertido para começo de conversa. Talvez ser um menino perdido significasse aquilo, ser sozinho, ser caótico, sem rumo e ser incapaz de fazer qualquer coisa durar.












