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Aqua Utopia|海の底で記憶を紡ぐ
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@pilulasdeinsanidade-blog
Mindfuck
'A razão é, e deve ser, apenas a escrava das paixões...', escreveu o filósofo escocês David Hume. Ele que, lá do século XVIII, já enxergava um dilema atemporal. Da ponta de seu lápis, rabiscava uma ideia que ainda permeia e confunde a mente de milhares. O que é melhor, seguir a mente ou o coração? Desde pequeno, fui obrigado a entender que não podia fazer tudo que queria, nem falar tudo o que pensava. Se gostasse muito de alguma coisa, deveria me controlar para não fazer alguma loucura. Devia usar a razão. Era esse o trato. Sei que existe limite para tudo, mas algo aí nunca fez muito sentido para mim. Se sentimos algo, sentimos e ponto final. É uma sensação, está lá. É uma 'coisa' que nos faz rir, sorrir, chorar, perder o fôlego ou ficar extremamente nervoso. Algo que vem antes do nosso raciocínio consciente... Nossa mente, mesmo com sua imensa capacidade ainda incompreendida, não consegue nos fornecer uma resposta totalmente lógica a respeito desses estímulos. E será que deveria? Será que precisamos dessas respostas? Não há o como negar que a beleza da vida esteja nesses momentos. As coisas mais interessantes e que nos deixam mais intrigados são aquelas que não têm explicação. Que estão no âmago dos nossos corações. Se sentimos, se é real, então porque a razão teria o direito de dar a cartada final? Acredito que vivemos em uma sociedade que tenta (e muitas vezes consegue) castrar nossos lampejos de sentimento. Como numa linha de produção, ela submete nossa mente e corpo ao seu molde do que é correto e aceitável. Um modelo de vida que deve ser seguido. 'Não se deixe levar', 'Não faça aquilo, é loucura!', 'Pense bem...' diz ela. Uma sociedade que transforma em modelo aquele que é racional, que toma decisões lógicas, estratégicas, repensadas milhares e milhares de vezes. Não vou dizer que todos estariam errados em pensar assim mas, ora, qual o problema em deixar o coração ditar um pouco as regras? No fim, tudo será aprendizado de vida! Prefiro muito mais seguir a irracionalidade de um coração maluco, do que deixar o olhar frio e calculista da razão ditar o que eu devo fazer. Dizem que o que problema com os psicopatas não é que lhes falte razão, mas sentimento. Dizem também que a paixão cega, mas será que, no fundo, ela não abre os nossos olhos para uma nova realidade?
Guerreiro da tribo
A tinta percorre o corpo, relevando a essência da alma.
Transforma a pele em tela, pronta para ser observada.
A dor é apenas superficial.
Um grito do corpo, que diz à mente: 'Eu ainda estou aqui!'
Ele pode ter diversas cicatrizes, mas ainda está vivo.
E cada vez mais forte!
Mais consciente, calejado, sábio.
Acostumado tanto com o sabor da vitória, quanto o da derrota.
Como um guerreiro da tribo, indo para a próxima batalha.
Os inimigos temem suas já conhecidas marcas.
Os tambores rufam.
O chão treme.
O medo desaparece.
A flecha rasga o céu.
No horizonte, a tinta jorra do peito.
Vitória!
Meditação
Vão tentar te minorizar.
Vão tentar te jogar pra baixo.
Vão tentar te mostrar que são melhores.
(Respira) (1...2...3...)
Vou mostrar que sou maior.
Vou me lançar na atmosfera.
Vou mostrar que o melhor, é o que me faz bem.
(Respira) (1...2...3...)
Negatividade, nessa casa você não entra nem pedindo licença.
Pode dar meia volta e ficar lá do outro lado da rua, ok?
Quem sabe alguém te acolhe por aí...
Náufrago
Insanamente, sigo em frente e nado contra a corrente.
O barco pode ter se despedaçado, mas aprendi a prender o fôlego.
Seguro a respiração pelo tempo que precisar.
Encaro o mar de igual pra igual.
Já engoli muita água, areia e diversas ideias.
Não tem problema.
Olho para cima e vejo o sol queimar, corajoso e cheio de vida.
Talvez o cais não esteja tão longe.
Ou esteja.
Não tem problema.
Insanamente ou não, (sobre)vivo diariamente.
Hipnose.
Seu ouro não é o bastante.
Sua cidade grande não me impressiona.
Seus monstros não me assustam.
Já seus olhos, me fascinam.
Me intrigam.
Me intrigaram.
Foi o bastante.
Talvez seja melhor eu colocar os óculos escuros de novo.
O conselho de Prometeu
Não viva de esperança, meu rapaz. Você se esqueceu do conto de Pandora? Ela aparenta ser nossa amiga... Parece querer nos ajudar, mas traz algo que nos corrói por dentro. Se transveste com sentimentos positivos, porém esconde sua real intenção. Leva tudo o que há de bom e só deixa um vazio. Um vazio que espera ser preenchido, mas que não sabe quando. E, nisso, você se vê ali, parado. Estático. Congelado. Não é a toa que Prometeu a alertou para fechar a caixa. A esperança é totalmente ilusória. Viva de atitudes, meu rapaz! Elas nos enobrecem. Nos fazem crescer, sair do lugar e da zona de conforto. Não tenha medo do resultado. Ele será só mais um aprendizado. Sábio és tu, Prometeu. Mova-se, Pandora!
Era você?
Hoje me peguei pensando em você, passado. Sonhei com aquele seu aroma característico e saudosista. Saí de casa, dobrei uma esquina e vi um vulto... Cada vez mais distante, mais desfocado. Acho que era você correndo de mim! Esses flashbacks são estranhos. Tão reais, tão lúcidos! Evocam tanto memórias recentes, quanto aquelas que tínhamos certeza de que já havíamos esquecido. Dão um belo nó no cérebro e, como se não bastasse, no coração. Dèjá vu. Talvez seja aquela dose a mais de whisky que tomei ontem. (Talvez) Talvez seja o meu cérebro me mostrando fragmentos de memórias que já são parte de mim. E de você. Era você?
Eu acho que você...
Os outros amarão dar opiniões.
- Você deve fazer isso.
- Você deve fazer aquilo.
- Eu acho que você...
Opiniões.
Pontos de vista diferentes.
Às vezes, semelhantes.
Às vezes, contrários.
Nada mais.
E, por isso, eles são os 'Outros' e não 'Você'.
Viva de acordo com suas verdades.
Batalhe por elas.
Morra por elas!
Por elas, não pelos Outros.
Olha pra frente!
- Recebi uma promoção no trabalho, amor.
- Hum...
- E aí eu vou ter que viajar no mês que vem...
- Hum...
- Você não tá prestando atenção em nada Camila, sai desse Candy Crush!
Humberto não conseguia entender como um joguinho podia ser tão interessante...
Como ele odiava aquele celularzinho!
Já havia discutido várias vezes com Camila, pelos mesmos motivos.
Como um celular poderia ser mais interessante do que sua companhia?
Se empolgava para contar diversas coisas, mas sentia que conversava com um fantasma.
Um fantasma que nunca olhava para frente, somente para baixo, para a telinha do maldito aparelho.
O que estava acontecendo com as pessoas?
Quando elas perderam a vontade de olhar para o mundo ao seu redor e começaram a se preocupar somente com este universo paralelo?
Tenho um pouco de pena dessa nova geração, totalmente conectada, que sorri por mensagens, manda beijos por fotos e sabe tudo da vida de uma pessoa, sem nem ter a visto ao vivo ao menos uma única vez.
Que pena.
A tecnologia veio para aproximar, mas parece que afasta cada vez mais.
Nossos olhos deixaram de ser a janela da alma.
Agora, as experiências passam primeiro pelas lentes das câmeras, numa desesperada tentativa de atrair mais sorrisos pela internet, ou para que pensem "nossa, essa pessoa parece ser legal".
Que pena!
É a geração do "Eu sou melhor que você!".
A geração do "Seu like fez meu dia!".
Porra, como assim?
A banalização é geral!
Enquanto viver, sempre buscarei aquele sorriso sincero, aquele olhar que você entende na hora, o contato, o cheiro, a tensão.
Sempre buscarei a convivência de verdade. Não a digital.
Os sentimentos foram trocados por emoticons.
Mas os meus não! Pensa Humberto.
As pessoas se olham, mas não se vêem.
Que tal voltarmos a olhar para frente?
Canção de ninar.
Life goes by
But the good memories stays nearby.
They will easy you like a lullaby
When you have nothing else to try.
Saúde, meu filho!
Maldita gripe, já virou rotina!
É espirro pra cá, tosse pra lá.
A garganta irritada, talvez como reflexo da vontade entalada de colocar muita coisa pra fora.
Será que é isso?
Será que é reflexo?
Mais um gole de chá com gengibre, mel e limão.
Mais uma receita caseira.
Mais um final de semana parado.
Ô inverno comprido.
Ê São Paulo gelada...
Chega mais, verão.
Chega mais...
Tá faltando tempero.
- Porra, isso aqui tá insosso pra cacete!
No balcão do boteco, Humberto come uma bela garfada do feijão fumegante, que escorre na lateral da bandeja de inox.
- Pô Seu Zé, tu não tem um Sazon pra botar nisso aqui?
E dá um gole no suco de laranja, para ajudar a descer um pedacinho que havia ficado preso no fundo da garganta.
- Ô chefia, vou ser sincero contigo. Procurei isso aí em todos os armários, mas não achei não, sumiu! Tô sabendo que a coisa tá faltando tempero!
Seu Zé dá as costas e vai atender uma moça que acabara de sentar no balcão.
- Um picadinho e um guaraná com laranja, por favor!
Cabisbaixa, a moça rapidamente volta os olhos para a tela do celular, em silêncio.
Assistindo a cena, Humberto tem um breve flashback da discussão com Camila no jantar da noite anterior. Maldito celularzinho, pensa.
Seu Zé passa com o picadinho e coloca na mesa da moça, que sorri de volta e agradece.
- Tá nervoso, Humberto?
- Ah, ontem briguei com a Camila rapaz, maior bosta!
- Pô Beto, liga pra ela, deixa de bobeira!
Humberto pensa, matuta, seu cérebro frita e quase escorre pelos ouvidos.
Ele fica chateado ao novamente se recordar da discussão.
Coisa boba, pra variar. Custava ela parar de olhar pra tela do celularzinho, jogando aquela droga de Candy Crush?
Caramba Camila... É toda hora!
Ao mesmo tempo, ele lembra do sorriso que ela dava quando ganhava alguns pontos. Das risadas e dos mini ataques de raiva, quando a internet do celular ficava lenta.
Lembra dela saindo do banho, abrindo a porta e deixando o celular cair no chão. Êta menina desastrada!
Ela se abaixa pra pegar e deixa o cabelão esparramar pelo corpo.
Adoro ver ela com o cabelo molhado. Adoro também o aroma que o shampoo deixa no cabelo dela, pensa.
Tão gostoso quanto o cheiro do feijão que ela fazia.
Aquilo sim era feijão.
Com caldo, com tempero, com sabor, com amor.
Cadê você Camila?
Humberto tira o celular do bolso, tecla o número dela e.... ocupado.
(Merda)
- Ei moça, tu não tem um Sazon não? Isso aqui tá sem graça que dó.
Forza!
Não vou deixar minha mente me dominar.
Mesmo quando meu corpo adoecer, não vou deixar.
Se o coração confunde, a mente prega peças.
Ah, prega!
Pode acreditar...
Mente insana, corpo insano.
Mente sã, corpo são.
Então, quanto maior for o desafio, mais vou acreditar no sucesso.
Vou me forçar a acreditar e, com foco e coragem, vou superar.
Vou chegar lá!
Inspira... Expira...
Vamos chegar lá!
E, de lá, continuaremos.
Forza!
"Amo a liberdade, por isso deixo as coisas que amo livres. Se voltarem é porque as conquistei. Se não voltarem é porque nunca as tive." - Bob Marley
Algumas pessoas crescem e, ao invés de adquirirem maior conhecimento e se tornarem mais conscientes, ficam mais arrogantes.
Ok, pai...
- Pai, a Dona Célia quer que você vá na escola amanhã pra conversar com ela… Receoso, Humberto dá a notícia para o pai, que estava na cozinha preparando ovos mexidos para o café da manhã. - Como assim Beto? O que aconteceu, filho? Humberto tenta escolher bem as palavras e, engasgado, explica a história sem conseguir conter o choro de desespero. - Foi o Michel pai, desculpa! Ele me empurrou e me chamou de menininha. Ele ficou rindo de mim! Eu dei um soco nele e ele quebrou um dente pai, desculpa! - Humberto, não acredito! Filho meu não resolve as coisas assim! Tem que usar a razão! Agora vou ter que ir lá na escola… Tá de castigo! Confuso, Humberto pergunta: - Razão, pai? Como assim? Ele me xingou! - Razão filho, é aquilo que a sua cabecinha pede para você fazer, quando o seu coraçãozinho fala o contrário… não pode sair por aí batendo em todo mundo que te xingar, Beto! - Tudo bem pai, desculpa… (os anos passam) - Beto, que foi? Você tá quieto hoje… - Ah pai, eu e a Camila terminamos… E cai no choro na mesa de jantar. - O que aconteceu, filho? - Ah pai, a Camila acha que eu estou muito dependente, muito carente… falou que temos que ver outras pessoas. Tô perdido pai, não sei o que fazer, gosto muito dela! Rapidamente, Humberto dá uma mordida na fatia de pizza, numa tentativa frustrada de enganar as lágrimas. - Não sei o que fazer pai. Quero falar com ela, quero ficar com ela. Tá difícil… - Calma filho, use a razão! Às vezes é melhor assim… e outra, você ainda é muito novo, as coisas se acertam com o tempo! Incrédulo no amanhã favorável, Humberto termina de comer, sobe para o quarto, pega o celular e, depois de alguns minutos de indecisão, liga para Camila. - Alô, Mila? - Beto, não quero falar contigo. Preciso de espaço, por favor, não me liga mais - E desliga. (os anos passam) - Eu preciso disso pra segunda, sem falta Beto! Esquece o final de semana! Arremessando uma pilha de papéis, Henrique, o chefe de Humberto, vira as costas e vai embora do escritório para, secretamente, encontrar-se com Fátima, sua secretária. E amante. - Puta merda, não aguento mais essa falta de respeito, bixo! Abalado e irritado, Humberto não consegue tirar da cabeça o email que, sem querer, havia lido na semana passada: "Então a gente se vê em Búzios. Um beijo, minha delícia." Era uma conversa entre Henrique e Fátima, entregando a viagem que ambos fariam para Búzios. Mais um final de semana que Humberto havia trabalhado, sem saber que o fazia para cobrir as luxúrias de traição de seu chefe. - Isso não tá certo, não dá mais! Chega! Várias cenas passam em sua cabeça. Ele pensa na carreira. Pensa no dinheiro. Pensa nos planos que tinha para o final do ano. Pensa no presente que queria comprar para Camila, celebrando os 4 anos de namoro. Ele se recorda do pai repetindo o mantra “Use a razão meu filho, a razão!”. Humberto respira profundamente. Uma, duas, três vezes… (Foda-se) - Ô seu Henrique, olha só, eu me demito! Pega essa papelada toda e se vira, não vou ficar sustentando traição não. Adeus. Uma sensação de alívio bate em seu peito. Sente como se tivesse acabado de vencer uma árdua batalha e ele, ainda em riste com o rifle na mão, houvesse sobrevivido. Finalmente havia se livrado deste problema. Novamente ele vê a imagem de seu pai falando "Use a razão meu filho, a razão." Merda, pensa. Mas calma, quem dirá que ele está errado? Quem dirá que ele está certo? Quem dirá que o certo é usar a razão e não o coração? Só o tempo. Enquanto isso, vamos aprendendo. Os anos passam e Humberto continua a seguir os conselhos de seu coração. Mas, até lá, não contem nada para o pai dele, se não ele fica de castigo.