Um papo com Guilherme Valadares, criador do Papo de Homem
O PapodeHomem (PdH) vai mudar. O portal focado em entregar conteúdos que beneficiem a vida dos homens, na prática, vai se transformar em uma plataforma mais aberta e mais simples, mas também com mais profundidade e possibilidades de diálogo. A Engage foi a empresa contratada pelo PdH para realizar essa mudança e já está programando e construindo uma nova cara para esse veículo que hoje tem 1 milhão e 800 mil acessos por mês.
Batemos um papo com o Guilherme Valadares, criador e editor-chefe do PdH, que conta na conversa a seguir sobre a história do portal, a mudança que vem aí e sobre o que pensa da geração de conteúdo na web.
Guilherme Valadares | crédito imagem: continuecurioso
E: Como foi o início do PdH?
GV: A ideia do PdH é, na verdade, reflexo de uma comunidade que já existia em 2004. Havia um grupo de emails no Yahoo e lá discutíamos sobre diferentes aspectos da vida de um homem. De repente as conversas começaram a se aprofundar, convidamos outros amigos para participar e isso acabou se tornando um fórum, onde as pessoas entravam gratuitamente. Depois de um tempo, as conversas se tornaram encontros presenciais.
Entendíamos que grande parte do que saía na mídia sobre o lado masculino era estereotipado, sufocante, banal, etc. Foi então que convidei algumas pessoas que faziam parte deste movimento: “quem sabe a gente faz uma publicação que contenha o que a gente quer ler?”. Em dezembro de 2006, criei o PdH, que na época era um híbrido de blog e revista.
E: E quando foi ao ar, como essa linha editorial foi pensada?
GV: Queríamos encontrar uma fala mais autêntica, que fugisse apenas do que é considerado entretenimento. Buscávamos um espírito diferente para comunicar, um lugar onde várias vozes tivessem expressão e - ainda que fosse um punhado de gente escrevendo - isso faria sentido. No começo, o PdH tinha um caráter bem utilitário, (ele cita como exemplos disso as seções Dr. Love, Dr. Health e Dr. Drinks) isso significava, dentre outras coisas, dar lugar a tudo que não podia ser impresso numa revista ou falado em programa de TV. Enfim, estávamos gerando um espaço para estas conversas acontecerem.
E: Quando perceberam que o PdH estava crescendo?
GV: Nunca quis que o PdH fosse só um “puxadinho” ou um projeto paralelo. Depois de quatro anos de portal, consegui me dedicar só para isso. No caminho fui encontrando novos sócios também, o Gus Fune, programador que estava desde o momento zero; o Gustavo Gitti, que trouxe muito forte a ideia do trabalho em rede e da transformação; o Felipe Ramos, que entrou como motor de negócios e o Eduardo Amuri, que chacoalhou nossa visão administrativa e financeira. E por aí vai, hoje temos uma super equipe envolvida no PdH. Começamos a entender melhor a visão das marcas, dos nossos clientes, dos colaboradores e a nossa própria posição, de quem estava nas trincheiras do universo masculino.
Em 2007 criamos uma campanha pela transparência online e fomos amadurecendo o crivo editorial e as conversas. (Nesse momento, Guilherme faz uma série de indagações que representam qual questões o PdH vem abarcar):
Como a gente desbrava as fronteiras do conteúdo?
Como encampar diálogos que deveriam acontecer, mas que não acontecem ainda?
É possível fazer um conteúdo que toque as pessoas e torná-lo duradouro?
Como fugir da cultura do conteúdo de entretenimento, auto-estima, consumo, grotesco e sensacionalista?
A maioria dos veículos de hoje estão enjaulados nessa lógica.Tentamos quebrar isso.
E: Estamos trabalhando juntos na criação de uma nova plataforma. Qual é a mudança que vai rolar?
GV: Hoje vemos o PdH como um portal. Queremos transformá-lo numa plataforma que possa colher conversas que valham seu tempo, conversas que realmente importam. Queremos reunir um grande contingente de autores, que sejam da nossa confiança e que tenham escrita crítica. Buscamos expandir a rede e oferecer uma alternativa viável, além do Facebook e de blogs pessoais, para pessoas que tenham algo importante a dizer.
Essa mudança é crucial de várias formas. Por trás desta transformação, existe uma lógica de menos ruído e mais sinal. Eu sinto que estamos perdidos no meio da quantidade de informação circulando na web hoje, então vamos trabalhar com princípios de curadoria e oferecer percursos específicos de conteúdo. Como se fôssemos uma bússula de conteúdo. Estamos tentando construir o veículo que achamos que falta na web hoje.
Nova sede do PdH e do Lugar
E: Como vocês chegaram até a Engage como empresa para desenvolver a plataforma do PdH?
GV: Nós conversamos com outras produtoras digitais e até tentamos fechar com outras pessoas que conhecíamos, mas depois ficou muito claro para nós que a Engage falava nossa língua. Esse entendimento sobre diálogo, abertura, redes (nós acreditamos) que são os pilares do futuro na web. Eu acho um absurdo não existirem mais produtoras como a Engage. O futuro aponta para isso.
Quando tivemos nosso primeiro papo por skype, já sabíamos que ia rolar. A conversa foi muito autêntica, muito real e alinhada com aspectos de visão envolvidos em nosso futuro, como a lógica de redes, de colaboração e mais abertura. Acho que é uma miopia não procurar empresas que apontem nesse sentido. Tem sido bem legal esse trabalho em conjunto.
E: O que significam comunidades digitais para você?
GV: Primeiro a gente precisa entender que para uma comunidade digital prosperar precisa existir um pré-espaço de alinhamento. No Facebook, por exemplo, existem diversos grupos de discussão, mas que não conseguem se aprofundar. É como se fosse uma sala de vidro e lá fora tivesse uma balada rolando, sabe?
Comunidades digitais são pessoas que se utilizam da tecnologia como ferramenta para criar um espaço de diálogo, onde se permita ter boas conversas e cultivar vínculos de confiança. Se as pessoas não entendem os princípios do espaço é muito fácil perder o eixo e virar só confusão e ruído. E aí já deixou de ser uma comunidade.
E: Na assinatura dos textos do PdH você coloca que é “interessado em criar negócios que não se pareçam com negócios”. Pode explicar a afirmação?
GV: Acho que na verdade a frase correta seria “interessado em criar negócios que não se pareçam com negócios usuais”. As grandes empresas e corporações talvez sejam os únicos modelos pelos quais entendemos o significado de negócios. Temos uma escassez de outros modelos de empresas possíveis, com formas de hierarquia diferente, visão de lucro diferente, impacto diferente. Lucro e faturamento são importantes sim, mas mais importante é gerar algum impacto, no caso do PdH, aos leitores, colaboradores e todas as pessoas que fazem a engrenagem girar.
Acredito em negócios que possam trazer uma nova visão de empresa próspera, que gere mais florescimento humano para todo ecossistema. Utilizando as inteligência do novo mundo (baseado em abertura) e aproveitando as inteligências tradicionais. A pergunta é “como unir estes dois mundos e produzir algo coerente”?
E: O PdH caminha para produzir, cada vez mais, conteúdos de teor crítico e profundo. Como você enxerga o futuro do conteúdo?
GV: Me parece nebuloso, há circunstâncias muito favoráveis para projetos baseados em entretenimento da mais baixa qualidade prosperarem. Mas acho também que os conteúdos produzidos que forem realmente benéficos, terão muito espaço. Tornar essa segunda rota um caminho viável de negócio é que será o desafio.
Parte do problema de hoje é o acúmulo de atenção em criar histórias de apelo enorme, sensacionalista - o que nos afasta das necessidades das pessoas. Nas notícias, existe uma estrutura de personagem, amplificada pelo jornalismo de tese, que nos afasta da empatia e da compaixão. Por exemplo, o livro The News, do Alain De Botton, fala bastante disso e para mim é uma das principais referências para onde deveríamos ir com o futuro do conteúdo.
No meio disso tudo, eu vejo sim uma avenida aberta para outros projetos, que entreguem mais sinal, com princípios de curadoria e discurso mais claro, que, em última instância, visem gerar mais benefícios direto para as vidas das pessoas.









