escrevo anonimamente, numa rede onde, curiosamente, você é a única que sabe me dar o nome, porque encarar a sua caixa de mensagens parece tão assustador quanto mergulhar em um rio cujo fundo não se enxerga — não sei o que vou encontrar ao afundar ou quanto tempo irei levar para voltar à superfície. é que amar, em silêncio, quem tanto me gostou e que tão delicadamente tocou a minha alma é tão sufocador quanto confinar, em uma caixa tão pequena, uma coisa que nasceu para ser grandiosa. e essa coisa somos nós e esse laço inominável, imensurável, que liga o meu dedo mindinho ao teu. acaso, destino ou qualquer nome que a sua religião possa dar a esse encontro, isso ainda me persegue, mesmo quando entendo que ciclos podem se encerrar quando seu propósito é cumprido. e que dádiva é poder se despedir das possibilidades, dos momentos sonhados, mas não compartilhados, e encontrar nesse adeus a paz de saber que esse encontro cumpriu sua missão; dádiva essa que desconheço. tem noites em que me encontro em claro pensando naquela viagem para São Paulo, naquela vez em que eu quis viajar até a sua cidade para te surpreender no seu aniversário, naquele dia em que estávamos no mesmo lugar, na mesma hora, e dolorosamente percebi que a distância entre nós ia além dos quilômetros que separam Brasília do Espírito Santo. mas, às vezes, ainda sinto esse laço sendo puxado do lado de cá, como se, no meio, entre a sua ponta e a minha, o destino brincasse de nos entrelaçar sem o nosso consentimento — numa tentativa de se fazer vivo e intocado pelas barreiras do acaso. e é nesses momentos que te lembrar me entremeia a dor de não poder mais dividir com você os sonhos que eu realizei, a promoção no trabalho ou as sombras que vagam pelo meu quarto quando o cansaço me impede de fechar a porta. dói porque sempre foi fácil me abrir para você, dói porque você conheceu as minhas mais raras facetas e as tocou com amor. e esse é um patamar de amizade que talvez eu nunca me permita alcançar com alguém, porque me abrir para você foi o maior ato de amor que eu poderia ter feito por mim há 6 anos atrás . dilacerei-me sob o seu olhar e, ao invés de dar meia-volta, ir embora, você fez do canto arranjado no meu coração um lar e, até hoje, suas coisas ainda estão aqui, assim como uma mãe que não se desfaz do quarto de um filho, para o caso de ele voltar, para que sempre tenha um lar.




















