Foram poucas as vezes em que tive essa consciência imediata de que estava sendo feliz. No auge dos meus privilégios, contigo compartilho o meu bem mais precioso: a liberdade. De amar e ir embora. De existenciar momentos e dourá-los. De humanizar os nossos defeitos e rir deles; até dos que já nem existem mais. Eu já nem sei se a poeira do meu sapato é da sua casa ou da minha. Ou em que hora eu te deixei fazer parte da minha vida. Ou quando parei de te negar espaço por acreditar que a minha esperteza e controle seriam a regra. Ou em que parte dessa dança a risada é minha ou sua. Você é um acontecimento, e dos grandes. Gosto de pensar que eu sou uma mulher e você é um menino. Um menino porque nenhum homem havia me tratado assim, bonito e leve. Puro, porque é o que você é. Penso que nada disso é para mim, de que esse jeito de me tratar como uma rainha não é só por amor, é porque é o que você é, para si. Não esqueço do dia em que meu gostar por ti ultrapassou as minhas cordas vocais: quando percebi que você me tratava com o mesmo cuidado para com todas as pessoas que você admira. Para mim, essa é a sua melhor qualidade: zelar o outro como você se zela. E eu aprendo com você todos os dias. Outra vez, quando nem havíamos nos tornado nós ainda, uma amiga me perguntou o que nós éramos, e na época eu respondi: “não é a dança, mas é como se fosse começar”. Hoje penso que essa dança começou desde quando vi meus olhos sob os teus no meio do acaso, daquela segunda-feira de primavera. E quando te conheci, tive muito medo. Muito. Por acreditar que você me roubaria de mim, da minha racionalidade e dos meus planos quase faraônicos. Quem dera eu você tivesse o feito, só assim eu seria mais sua do que minha. Ainda assim, gosto de pensar que não ocupamos o mesmo espaço, mas que compartilhamos diferentes universos. Independentes. O amor quando é uma escolha, não dói. E você ainda consegue me arrancar o fôlego. Eu sempre achei que amaria alguém com os meus mesmos gostos e disforias, e que narcisista eu, em pensar que uma cópia viva minha me traria paz. Enquanto na verdade, seria você quem iria me mostrar o outro lado das coisas, o averso, o nada a ver comigo. Me desvirar e me ver ainda mais bonita. E contigo, enxergar o lado das coisas possíveis, que ainda assim, são irresistíveis. Eu te reconheceria em uma multidão de corpos, de costas para mim, no escuro, na China. De todas as aventuras que vivi, só agora enxergo essas cores e explosões, só agora entendo esse olhar que você tem. Eu que sempre me contentei com tão pouco, ganhei de você um amor que eu achava que não merecia. Vivi muitos amores antes de te conhecer, todos muito intensos, uns mais crueis ou doces que outros, uns mais breves e outros que amo e guardo comigo até hoje, de uma forma diferente. Sempre achei que alguns deles fossem o meu maior pecado, por achar que o meu valor dependesse do reconhecimento deles, por só conseguir me enxergar por esses olhos, muitas vezes deixando a angústia criar raízes profundas. Eu precisei me amar para aceitar que você chegasse aqui e compartilhasse, juntos, uma melhor versão de mim. Penso que já era feliz antes de te conhecer, e sei que você também era. E que bom assim, pois sei que somos prontos para apreciar o que o universo nos presenteia todos os dias até então. Agora eu entendo quando Pablo Neruda disse “eu quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas”…