A porta se abriu assim que a maçaneta reconheceu as digitais de Alissa. As luzes logo se acenderam e ela passou direto pra cozinha. Gael a seguiu e eles serviram a mesa em silêncio.
A imensa janela de vidro transparecia o céu escuro muito estrelado e era possível ouvir o piar das corujas, o vento forte, o farfalhar das folhas balançando. Alissa se concentrou na Ursa Menor. Quando ela era pequena aquela imagem a fazia se sentir segura: o tempo podia passar e mudar tudo, mas as estrelas estariam sempre no mesmo lugar. Agora ela sabia que até o para sempre podia não durar tanto assim.
– Você acha que amanhã papai já vai estar liberado?
Gael secava a barba grisalha com um guardanapo. Os traços duros pareciam mais sérios com aquela sombra de cansaço.
– Acredito que sim. Vão passar a noite fazendo os exames. – A testa franzida unia todas as suas rugas.
– E se os exames disserem que ele precisa continuar internado? O médico disse que não fazia ideia do que os registros de atividade cerebral dele queriam dizer.
– O médico disse que os resultados foram inconclusivos.
Alissa ergueu a sobrancelha e riu.
– Até amanhã eles já terão descoberto qual é o problema. O diretor do hospital era um dos melhores alunos de Mekhai e ele mesmo se responsabilizou pela equipe que está cuidando do seu pai.
Quando ele terminou de falar, Alissa apoiou o queixo na mão e voltou seu olhar para a janela. Não queria saber qual o problema; queria saber a resposta, a cura. Pouco acima das árvores, as luzes de Mekhai brilhavam ao longe, pequenininhas. Ela não tinha essa fé toda na Academia e começava a ficar irritada com a mania que as pessoas tinham de achar que qualquer coisa era possível se alguém de Mekhai se propusesse a tentar, como se se tornassem deuses só por fazerem parte de lá. As pessoas continuavam morrendo, passando fome, se odiando, sofrendo... O mundo não é tão fácil assim de concertar.
Então uma das luzinhas brilhou mais forte e começou a piscar. Alissa pensou ser um avião, mas também se acenderam luzes vermelhas impulsionadas por um jato de ar e de repente elas cortavam o céu de baixo pra cima cada vez mais rápido.
– O que é aquilo? – Ela apontou para janela atrás de Gael.
Ele se virou para olhar e então levantou num pulo para se aproximar da janela antes do objeto desaparecer no céu.
– É um foguete...? – Ele espremia o rosto contra o vidro.
Alissa se juntou a ele, mas já não via mais nada.
– Mas saiu de Mekhai... Isso estava programado pra hoje? No meio da festa?
O celular de Gael começou a tocar e de repente a imagem pequena e quadrada de um homem num smoking era projetada pelo seu relógio.
– Elliot, o que aconteceu? – Gael perguntou para a imagem numa voz aguda de surpresa.
– Os astronautas fugiram no foguete.
Alissa arregalou os olhos encostada na bancada atrás de Gael.
– Ninguém sabe. As turbinas foram programadas pelo computador da sala de vigilância para serem acionadas, três dias atrás, e os rastreadores estão desligados.
O homem continuou falando, mas Gael saiu da cozinha e Alissa não conseguia mais distinguir as palavras. Ela esperou um momento, mas a curiosidade foi maior.
– O que? A Levi está aí? – Gael parou no meio da escada.
– A Levi está na Academia?! – Alissa perguntou com maior surpresa do que quando ouviu sobre o foguete.
Gael olhou pra ela com a boca seca entreaberta, os olhos estreitos por trás dos óculos a medindo por um segundo.
– Gael! – Alissa disse em protesto, mas ele deu as costas, continuou a subir e voltou a falar com o holograma.
Alissa foi atrás e Gael fechou a porta do escritório em sua cara como resposta. Ela ergueu a mão pra bater na porta, mas desistiu: seria inútil. Desceu até a sala e disse “TV”. A tela gigante imediatamente começou a reproduzir imagens do auditório da Academia, pessoas com trajes elegantes se aglomerando assustadas. No canto do vídeo um quadro reprisava o momento em que o foguete decolou; uma moça ensanguentada e com as roupas destruídas caindo no chão; closes das famílias reais e presidenciais presentes. Agora a moça passava na maca e a polícia cercava o local, afastava as pessoas.
Será que aquela era Levi? Alissa voltou o vídeo e pausou quando o rosto da moça estava mais perto da câmera. Ela estava queimada também. A última vez que Alissa viu Levi, elas tinham 13 anos; era difícil ter certeza, mas poderia ser, por baixo do sangue e das queimaduras havia sim uma semelhança. Mas a repórter não tinha nenhuma informação esclarecedora e as imagens também não explicavam muita coisa.
Gael desceu as escadas apressado, vestindo o casaco.
– Não. – Ele parou segurando a porta de saída – Você vai ficar aqui, dormir e ir para o hospital quando acordar. Eu vou assim que puder.
Ele estava certo: Alissa precisava guardar energias para ver o pai.
Gael suspirou, empurrou os óculos no nariz.
– Eu ainda não sei. Mas conto o que puder quando descobrir.
– O que aconteceu com a Levi? Onde ela tava? Ela ta machucada? – “ou morta?”, pensou.
Gael balançou a cabeça com o olhar vazio.
– Eu realmente não sei, Lis.
Ela engoliu seco com o rosto apertado e abraçou o próprio corpo.
– Tenta dormir. – Gael disse antes de fechar a porta.
Alissa tentou, mas o silêncio e o vazio da casa naquela noite estavam fazendo com que ela se sentisse muito pequena. Em uma situação mais favorável, ela iria para a casa de cetro no meio do Bosque, onde ela sempre se sentia melhor; mas estava tarde e ela não tinha coragem de atravessar sozinha a escuridão. Então pegou o celular e conferiu se Phillipo estava online.
“Ei” – ele respondeu imediatamente.
“Vc pode vir aqui em casa?”
Ele começou a digitar, parou, depois continuou.
“Ok. Chego aí em 15 minutos.”
Alissa esperou na sala um pouco mais de 20 minutos até vislumbrar a luz dos faróis pela cortina e ouvir duas buzinadas. Abriu a porta enquanto ele ainda saia do carro, conferindo os bolsos. Ficou na pontinha dos pés para alcançar seu abraço quente e suave. Phillipo deu um beijo em sua testa e eles entraram.
– Vamos ficar lá em cima. – Ela disse já subindo as escadas.
As paredes cinza do quarto de Alissa eram repletas de pontos de cor. Havia uma parede com muitos quadros, a penteadeira era toda iluminada e acima da escrivaninha amarela ficava um mural cheio de mensagens e post-its. Alissa abriu espaço na cama tirando algumas das almofadas estampadas e se jogou. Phillipo sentou na beiradinha, olhando seus reflexos pelo espelho do armário; então tocou a canela de Alissa e passou a expandir o carinho quando ela não se importou.
– E aí, o que rolou? – Phillipo perguntou.
Alissa fitava as estrelas pela clarabóia estrategicamente acima da cama. Formulou as frases várias vezes sem conseguir dizer, por fim suspirou e fechou os olhos.
– Meu pai tava tendo uns desmaios, do nada. Ele tava no carro, me levando pra algum lugar, e de repente apagava; um minuto depois acordava de novo, zonzo, mas bem. Só que hoje a tarde ele desmaiou e não acordou mais. Um minuto, dois, cinco, quinze... Ele simplesmente não acordava. Eu fui ficando desesperada. – Phillipo apenas segurava a perna dela, ouvindo com as sobrancelhas franzidas. – Aí eu liguei pro Gael, chorando. Fomos pro hospital e ficamos horas lá pra no final ouvir que “o resultado dos exames foram inconclusivos”. – Alissa bufou.
– E aí que ele ta lá, fazendo mais uma porrada de exames e a gente não sabe o que vai dar.
– Por que ele não foi ao médico antes, quando começou?
– Sei lá, Phillipo. Meu pai vive praquele Bosque, passa o dia lá. Ele é mais o “administrador do Bosque da Ilha de Gava” do que qualquer outra coisa. Ele decidiu que não era nada demais e continuou fazendo o que tinha que fazer, trabalhando até não ter tempo de pensar nele mesmo nem em mais nada.
– Eh... Não foi a melhor decisão, né. – Alissa balançou a cabeça negativamente pra ele e desviou o olhar. – Mas o Niko é forte, saudável. Assim que souberem o que ele tem, ele vai melhorar rápido, você vai ver.
– Mas não é só isso. – Alissa falava rápido, tomando muito fôlego, os olhos brilhando cada vez mais – Quando a gente chegou em casa, ligaram pro Gael da Academia. Aconteceu uma confusão louca lá, roubaram um foguete. E aí a Levi apareceu; toda queimada... Suja de sangue. Ela caiu lá e começou a chegar um monte de policial, de médico...
– Quê? Roubaram um foguete? – Phillipo contorceu o rosto em uma careta.
– É. Ta passando sem parar na TV, você não viu?
– Onde você tava? – Alissa perguntou num tom que beirava à indignação.
Phillipo voltou a olhar pro espelho, passou a mão pelo cabelo. Alissa se sentou na cama.
– Tava na casa de um amigo meu, ajudando a concertar o carro dele.
– Que amigo? – “Me convença”, era o significado real dessas palavras.
– Tiago. – Phillipo olhou para ela por sobre o ombro.
Alissa se encostou na cabeceira da cama cruzando os braços e fazendo um muxoxo. Mas, na verdade, ela não tinha direito a cobrar nenhum tipo de explicação de Phillipo; nunca teve. Ela ajeitou o cabelo atrás da orelha e desviou o olhar. Acima do sofá magenta em formato de boca haviam várias fotos. Seu foco se direcionou instintivamente: ela e Levi em vestidos azuis de alcinha se abraçavam segurando cestas de flores; atrás delas, Geppeto, com uma mão no ombro da filha, posava ao lado de Gael e Nikolai, que exibia a aliança fazendo um carão.
– Que foi? – Phillipo perguntou com a voz grave.
Alissa apontou com o rosto para a foto.
– É... Ela foi dama de honra comigo no casamento do meu pai com Gael.
– Quantos anos você tinham? Uns 10?
– Eu te conheci um pouquinho depois disso. – Ele deu uma risadinha.
– É, “pouquinho” mesmo, ne? Fui quase uma Lolita.
– Quase nada. Totalmente.
– Pelo menos agora você não corre mais o risco de ser preso.
– E aí você não quer mais ficar comigo. Tsc, tsc.
Eles trocaram olhares cúmplices se divertindo com a situação.
Ela se ajeitou de novo na cama, fitando o céu. Phillipo se deitou ao lado dela, abriu um braço como convite e Alissa se aconchegou em seu peito. Ele fazendo cafuné, ela acariciando a barba rala dele.
– Levi foi minha amiga num momento bem estranho da minha vida. Ela foi importante pra mim.
– Por que estranho? – Phillipo olhava pra cima enquanto passava os dedos até o final dos longos fios castanho-avermelhados de Alissa.
– Ah, porque eu já tinha me acostumado a viver só com o Niko. Minha mãe morreu, foi tão difícil, tão triste... Eu e Niko tivemos que cuidar um do outro. Depois que isso passou, pensei que seríamos só eu e ele. – Imagens passavam pela sua cabeça enquanto ela falava. Ela e Niko chegando em casa depois da cremação, sua mãe dentro da urna de cerâmica; a toalha de piquenique mais cheia de comida, para esconder o lugar a mais; o abajur sempre aceso pros fantasmas não se esconderem no escuro; Niko buscando-a de madrugada numa festa em que tudo deu errado; Alissa lhe dando conselhos sobre seus namorados... – Enquanto eles namoravam tudo bem, mas depois do casamento eu estranhei um pouco. Me senti meio sozinha...
A verdade é que ela não se sentia à vontade com Gael. Ele era muito sério; quando ele ria, a boca só se abria um pouco e ele nunca jogava a cabeça pra trás ou balançava o corpo. Como se sentir a vontade com alguém que não ri de verdade? Ele era sempre muito educado e convidava pra programas legais, mas só Alissa e Niko se divertiam; ele ficava atrás, sorrindo de longe.
As vezes, Alissa ouvia ele discutindo com a ex-mulher no telefone – ele e Niko se conheceram quando ele ainda era casado. O que a mulher dizia era uma incógnita, mas não devia ser nada confortável porque a voz de Gael parecia um trovão. Ele só deu bronca em Alissa uma vez; mas se não fosse pelo orgulho, aquela voz a teria feito chorar de medo.
– Mas, em compensação, tinha a Levi. – Alissa continuou – Como o Gael e o Geppeto eram muito amigos e estavam sempre resolvendo alguma coisa da Academia, nós passávamos bastante tempo juntas. Acho que ela foi a primeira pessoa pra quem eu contei tudo.
Tudo. Como foi a sensação de andar no shopping lotado no dias das mães e não comprar nenhum presente. Como era ser filha “meio” adotada. A primeira vez que ela viu sua avó chorando. Como era ouvir os barulhos do pai com os namorados. Como ela tinha feito o copo estourar uma vez que ficou muito irritada. Os sonhos estranhos. Como era o próprio corpo adormecido na cama visto de cima. O medo de gafanhotos. O ideal de primeiro beijo. As mentiras para faltar à aula. E aquela vez em que ela acordou no meio da noite e se assustou ao sentir o novo marido do pai em sua cama.
– Tudo sobre mim. – Ela disse simplesmente. – Mas aí o Geppeto morreu e tudo ficou muito estranho.
– Vocês pararam de se falar?
– É... Ela se mudou, nós fomos perdendo contato. Depois de um tempo eu não soube mais nada sobre ela.
– Eu senti muita falta, fiquei bem chateada. – Ela dizia lentamente – Mas aí eu aceitei que ela tinha me deixado pra trás e segui em frente também. A gente sempre tem que seguir em frente.
Phillipo virou de lado de olhos fechados, ficando de frente pra ela, acariciando seu rosto. Alissa fechou os olhos também e colocou sua mão sobre a dele.
– Eu to com sono. – Ela disse depois de um tempo.
– Quer que eu apague a luz?
Nikolai, sentado na cama do hospital, tomava um iogurte de amora com linhaça. A enfermeira deixou as vitaminas no horário da refeição, mas Niko insistiu: nada era mais saudável do que mastigar uma sementinha de linhaça. Já bastava os monitores e aquele roupão, ele queria se esquecer um pouco de que estava em um hospital.
– Pai? – Alissa chamou colocando só o rosto dentro do quarto.
– Hmmmm! – Niko terminou de engolir e colocou o pote na mesa ao lado – Oi, meu amor! Vem cá, entra.
Eles deram um abraço apertado, Nikolai subindo e descendo as mãos pelas costas da filha.
– Como você ta? – Alissa perguntou antes de soltar as mãos dele.
– Entediado. – Niko revirou os olhos; depois riu. – Estou ótimo, meu bem. Louco pra ir pra casa. E você?
“Preocupada”, ela queria dizer, mas respondeu apenas que estava bem. Niko voltou a comer.
Alissa pensou um momento antes de responder. Gael não tinha dado notícia desde a noite anterior. Ela ligou pra ele antes de ir pro hospital e ele disse apenas para ela retornar quando tivesse novidades.
– Na Academia. Eu perguntei pra enfermeira e ela falou que daqui a pouco seu médico vem falar com a gente.
– Hmmm... E como você veio? – Ele falava entre uma colherada e outra.
– O Phillipo? – Ele disse arrastado, meio zombando. – Papai no hospital e você prevaricando pra relaxar?
– Pai. Não. – Alissa riu – Não rolou nada, ele só me colocou pra dormir.
– Ham... Sei. E você ta tomando anticoncepcional?
– Quê? – Niko espalmou a mão no ar – Foi só uma perguntinha aleatória. Até você ativar o seu programador uterino, coisa que você já deveria ter feito, nós precisamos garantir que essa barriguinha não vai abrigar nenhum bebê.
Alissa balançou a cabeça sorrindo.
– Pai, você e minha mãe estão me prevenindo sobre isso desde que eu tinha 6 anos e vocês me contaram que ela não sabia quem tinha colocado um projeto de ser humano dentro dela. Pode ficar tranquilo que eu não vou precisar de nenhum melhor amigo pra me ajudar a criar um filho. – Niko a encarou com a boca puxada de lado – E não rolou nada com o Phillipo.
– Uma mulher prevenida vale por duas. Saindo daqui nós vamos marcar uma consul...
Niko parou no meio da frase com o barulho da porta se abrindo. O médico que entrava no quarto tinha olheiras profundas e um olhar distante.
– Você é a acompanhante? – Ele perguntou para Alissa.
Ele conferiu o tablet em sua mão, depois o colocou sobre a mesa e foi até um monitor. Ele tocou na tela algumas vezes e a imagem 3D de um cérebro com pontinhos vermelhos e azuis foi projetada no ar. Devia ser um cérebro natalino: alguns pontinhos acendiam, outra parte apagava por alguns segundos, depois se concentravam num brilho azul e apagavam de novo; parecia um pisca pisca.
– Esse é o cérebro do seu pai. Os pontos vermelhos são os neurônios ativos enquanto ele está acordado. Os azuis são neurônios trabalhando em baixa frequência, como quando ele está dormindo. Essa parte apagada...? – Ele apontou e olhou para Alissa, como se conferindo se ela estava ouvindo – Não deveria estar apagada.
O médico falava só para Alissa, que ouvia com um medo disfarçado de seriedade, enquanto Niko estava intrigado como se não fosse o seu cérebro ali.
– O normal é termos vários pontos do cérebro em atividade, assim. – Ele apontou para os pontos vermelhos espalhados.– Em situações de concentração excepcional, como em meditação profunda, é isso o que acontece: – Ele puxou outra imagem 3D do monitor – toda a energia cerebral converge para um único ponto, por isso o azul brilhante. Mas por algum motivo, seu pai teve um blackout cerebral: os neurônios não reduziram a freqüência, eles pararam de funcionar todos ao mesmo tempo. Existe uma doença que causa efeito parecido, chama-se Síndrome de Guillain-Barré. O que acontece é que os leucócitos começam a corroer a bainha de mielina, a capa que recobre a “calda” dos neurônios. Isso interfere na transferência dos impulsos nervosos. Não sabemos o que dispara o ataque, mas a pessoa vai perdendo os movimentos e pode morrer, porque o cérebro pode parar de mandar o comando para os batimentos cardíacos. O estranho no caso do seu pai, é que foi um apagão geral, instantâneo e com os neurônios em perfeito estado.
– Uau. – Niko disse de olhos arregalados. Alissa olhou para ele com a boca aberta e os braços cruzados.
– Se fosse o caso de Guilan- Barret, trataríamos com imunoglobulina, ou seja: injetaríamos leucócitos saudáveis para destruir os doentes que começaram a atacar os neurônios; a bainha de mielina se reconstituiria naturalmente com o passar do tempo e os impulsos nervosos voltariam a ser transmitidos normalmente, cessando a paralisia. – O médico dizia com as mãos no bolso do jaleco – Mas os neurônios estão em perfeito estado, eles desligaram e ligaram sozinhos, como se fossem uma lâmpada com mal-contato. A questão é: nada garante que eles não vão queimar no próximo curto-circuito.
Ele tocou o monitor de novo e os cérebros sumiram do ar.
– Ta... E isso quer dizer o quê? – Alissa falava calmamente – Que meu pai pode morrer a qualquer momento e vocês não sabem como impedir?
– Ainda não sabemos o que os fizeram parar, então por hora não temos como evitar que volte a acontecer. O que podemos fazer é mantê-lo sob monitoramente no hospital por mais algum tempo para manter os batimentos cardíacos artificialmente caso aconteça um novo blackout. Mas ele está completamente bem, não houve nenhuma sequela, então duvido que vá querer ficar internado preventivamente.
Alissa e Nikolai se entreolharam. Ele continuava bonito como se não tivesse quase morrido e passado a noite num hospital: o rosto quadrado, os cachos dourados um pouco amassados, pequeninas linhas ao lado dos olhos. Niko sorria tanto que quando ficava sério parecia um menino.
– Nós não podemos viver com essa dúvida, correndo o risco dele morrer do nada. Tem que ter alguma solução.
– Nós temos todo o interesse em encontrar a solução. Não só nós, mas especialistas e residentes de Mekhai também. Seu pai é um caso a ser pesquisado. É isso que o hospital se propõe a fazer, se vocês concordarem.
Os deuses de Mekhai, é claro.
– Nós concordamos. – Nikolai disse com a voz rouca.
– Obrigada. – Alissa disse ao garçom que mais uma vez deixava as bebidas na mesa, pegou o copo e voltou à conversa – Então isso quer dizer que você vai se mudar pra cá?
O bar suspenso onde estavam era um dos principais observatórios da ilha: de lá era possível ver a cidade se estender até tocar o oceano.
– Sim. – Erin tirou a camisa xadrez e pendurou na cadeira – Eu preferia continuar prestando assistência e ficar pulando de país em país, mas os cargos de coordenação ficam aqui na sede, então... – Ela deu de ombros e bebericou de sua taça.
– Que notícia maravilhosa, Erin! Vai ser tão bom ter você aqui. – Elas deram as mãos sobre a mesa e sorriram grande o bastante para fecharem os olhos; os dedos cheios de anéis de Erin se entrelaçando aos dedos finos e compridos de Alissa – Quando você se muda?
– Eu volto hoje para Paris pra entregar o apartamento e pegar minhas coisas, depois passo uns dias na casa da minha mãe e venho. Devo estar aqui na semana que vem.
– Ah, então vai dar tempo de você ir na recepção dos calouros comigo! Eu não queria ir sozinha.
– Até parece que você vai sozinha, Lis. – Erin a encarou com a cabeça tombada de lado.
– Ah, praticamente... Laila vai ficar entretida com os outros calouros e o Hector e o Ivan eu acabei de conhecer, né? Não sei se vou ter assunto por mais de dois minutos e sem um cachorro gigante e elétrico pra preencher a conversa.
Hector, sem querer, arremessou a bolinha de Guga exatamente onde Alissa e Erin estavam sentadas no Jardim Aberto de Mekhai. Nada mais eficaz do que um labrador marrom pulando desajeitado pra quebrar o gelo. E o amigo asiático (trajando bermuda cáqui e tênis de corrida) ainda fez o favor de convidar as meninas pra festa da próxima semana. Quem precisa de adestrador e senso de estilo, afinal?
– Ivan é engraçado demais com aquele jeito sonso dele... – Erin soltou as palavras entre um sorriso; os dentes muito brancos contrastando com o batom vermelho. – Mas deve ser bem inteligente, já que está participando do projeto. Tem meu respeito.
– “O sonso é o novo sexy”? – Alissa repetiu as palavras de Erin daquele dia.
– O sonso é o novo sexy. – Erin piscou e levantou a taça, concordando.
– O Hector também é bem inteligente...
– O Ivan é mais. Hector tem uma bunda muito melhor, óbvio, mas o Ivan deve ter um cérebro sensacional. Aquela jeitão de nerd autêntico nunca decepciona. – Alissa lançou um olhar surpreso de censura e Erin a encarou de volta. As duas riram.
– O mais legal, pra mim, é eles serem amigos. Acho tão ridícula essa rixa entre patronos e bolsistas... É a coisa mais escrota e egoísta do mundo.
– Ah, até que dá pra entender: os patronos se sentem meio que roubados... Mas não deixa de ser idiota da parte deles.
– Dá pra entender coisa nenhuma, Erin. Os dois passaram no processo seletivo, os dois merecem uma vaga. A única diferença é que um tem dinheiro para pagar por dois e o outro não tem dinheiro nenhum. Nada mais justo do que quem tem mais, pagar mais. É simplesmente ridículo, não tem como defender.
Erin concordou sem dar muita importância e penteou com os dedos a franja. Àquela altura, o vento soprava ainda mais forte e agitava alguns fios negros do seu cabelo cortado reto rente ao queixo.
– Mas ainda vai ter a recepção depois do roubo do foguete?
O burburinho das mesas ao lado passava quase despercebido enquanto Alissa observava as nuvens douradas do fim de tarde se movimentarem pelo céu.
– Acho que sim. – Respondeu distraída – Não faz o estilo da Mekhai deixar se abalar, eles escondem seus pontos fracos muito bem.
– Mas o que aconteceu? Como conseguiram roubar o tal foguete?
– Ué, mas seu padrasto não é um dos pro reitores?
– É, de pesquisa e extensão. Ligaram pra ele assim que aconteceu e ele foi correndo pra lá, deve estar lá até agora, inclusive. Mas eu não faço ideia... Parece que invadiram o sistema operacional interno e programaram as turbinas para serem ativadas naquele horário, alguma coisa assim. Você que é a programadora de sistemas aqui, deve estar sabendo melhor que eu.
– Sério que foi um hacker? Eu esperava mais da Mekhai. Se eu soubesse que eles eram tão amadores assim, eu mesma teria hackeado só pra tirar uma onda.
– Foi alguém lá de dentro, né... Mas como eles conseguiram eu não sei mesmo. Passei a manhã no hospital com meu pai e tem essa história da Levi também... Nem acompanhei as notícias hoje. – Erin acariciou seu joelho sob a mesa enquanto ela falava sem sustentar o olhar – Eu só vim aqui porque não podia perder a oportunidade de te ver um pouquinho antes de você se enfiar de novo num avião.
Erin olhou as horas no celular e bebeu o resto da taça num gole só.
– E por falar nisso, já passou da hora de eu ir!
Alissa ficou observando a amiga se preparar para ir embora. Seu corpo um pouco pesado pelo álcool; seus pensamentos começando a soar como um narrador dentro de sua cabeça.
– Será que um dia eu vou ser assim? – Alissa não sabia se tinha dito ou apenas pensado.
Erin se inclinou sobre a mesa, olhando nos seus olhos bem de perto:
– Você ainda tem muito a aprender sobre si mesma.
Então ela se inclinou, deu um beijo suave nos lábios de Alissa e sorriu.
Alissa ficou ali, de testa franzida, observando ela se afastar pisando firme e rebolando. Erin tinha o andar de alguém inabalável. O jeito de andar, de sorrir, de falar... Pra ela era tudo tão preto no branco e, ao mesmo tempo, como se a vida fosse tão colorida, tão cheia de possibilidades e nenhum limite. Erin era uma corrente elétrica. Era grande. Era uma mulher.