Tenho sentido falta do mar. Mais do que o normal.
Tava pensando e acho que a gente tem uma conexão mesmo. Nossa história é curiosa.
Quando criança, meus pais costumavam me levar em Santos? Guarujá? Não sei, uma dessas cidades do litoral sul de São Paulo. Eu lembro de pouca coisa útil nessa vida, mas tenho algumas lembranças bem pontuais dessa época, tipo um dia em que fiquei brincando na orla e meu maiô se encheu de areia. Ou de como fiquei impressionada em algumas das vezes que vi as conchinhas.
De todas as lembranças, uma me vem à tona tão claramente que mal sei dizer se é lembrança ou invenção:
Sempre preferi a água. Brincar no mar até dormir com a sensação das ondas no meu corpinho. Nesse dia, não sei porquê, estava na areia.
Meu olhar em direção ao azul infinito foi interrompido por um avião vermelho, desses de propaganda que tem uma bandeira atras. Não lembro o que tava escrito, mas lembro de ficar feliz por conseguir ler. Eu era recém alfabetizada e ele parecia voar no meu tempo, pra mim. Baixando um pouco o olhar, um carrinho amarelo de sorvetes Kibon meio que combinava com tudo.
Aquele cenário tão grande, tinha cores tão intensas. Óbvio, as cores primárias em todas ali, no mesmo quadro. Parecia mágico para alguém com 5/6 anos.
Eu poderia dizer que era apenas o olhar da infância, com um mundo a se se descobrir, mas acho q não. Tenho experiencias de praia interessantes, curiosamente, pois não tenho experiencias relevantes em quase lugar nenhum.
Tempo desses, no Guarujá, eu boiava e parecia bem perto da lua cheia, que tava gigantona naquele dia. Nadar é o mais próximo de voar.
Teve também a vez que do nada, fui com uma amiga de cursinho acampar em Maresias e sentimos na pele o choque de classes.
Foi perto do mar que senti um término de um relacionamento se aproximando. Foi lá que passei a enxergar novas formas de aceitar meu corpo e minha cor. Foi lá que eu vi que as vezes sou até corajosa. Foi lá que vi que tenho muito a aprender sobre mim e como me relaciono com algumas pessoas.
Não sei se essa nossa conexão se dá pela história ancestral que o pacífico carrega, se é apenas uma coleção de bons momentos construídos na primeira infância ou se é só o contraste para o refúgio de alguém que cresceu na capital.
A verdade é que me sinto muito à vontade perto mar. Como se aquele lugar fosse meu, independente ser praia bonita ou não. É o único lugar em que consigo acalmar o barulho da minha cabeça, me sentir presente, confortável com o fato de eu ser eu, tão pequena na imensidão do céu e das águas.
To com saudade e com necessidade do mar.