1. você sabe que eu não te esqueci, não sabe? mas isso não quer dizer que eu sinto sua falta. eu não sinto. lembro porque foi grande. e, hoje em dia, não costumo dizer que foi amor. chamamos de obsessão. eu, minha terapeuta, meus amigos. cê foi uma espécie de vício. destrutivo, como a maioria deles.
2. ter gostado das mentiras que você contou me fez duvidar da minha capacidade de dizer a verdade. sei que você não me lê, por isso não me dói dizer as coisas de forma tão dura. você foi um grande mentiroso, mas o espetáculo da sua vida me distraía da minha, não? não posso dizer que sei quão dura foi a sua. não era como se eu merecesse a sua verdade, não é? nem no fim. nem no fim você foi capaz. talvez eu precisasse da sua crueldade, sabia? mas tu se manteve no personagem... eu que cansei de sustentar o meu.
3. chorei tanto e por tantas noites. te amaldiçoei. mas pragas só pegam em quem merece, minha mãe sempre diz. às vezes me pergunto: será que elas te pegaram? já desejei que sim.
4. já faz um tempo que deixei de ouvir as músicas que a gente ouvia. não porque me doem. e sim porque percebi: elas eram você, não eu. eu as ouvia por sua causa, não por minha. "eu só queria ser o tipo de garota que eu sei que você gosta". que ideia. você só gostava de uma única garota. eu não era nada como ela.
5. a minha cor favorita é verde. descobri isso em 2019. o ano em que completei um ano sem você. pode não parecer nada, mas acho que mentia uma versão minha. estávamos tão distantes assim? também menti, também me inventei pra você. por "amor". mas não acredito que isso me isente. te perdoei, não deixei de te considerar um perigo. a única coisa que eu podia fazer, naquela época, era me proteger até da ideia de você. radical, não? você foi doloroso a esse ponto.
6. quando voltei brevemente pro jorge, contei da gente. ele quase riu. disse que eu era grande demais pra essas coisas. eu era. mas também era pequena demais e cheia de medos, o que também foi culpa dele. lembro de o olhar nos olhos e dizer: se você não tivesse me ferido, talvez eu não tivesse adoecido a ponto de dizer que ele foi bom pra mim. ah, como eu soei mesquinha e má e fraca. era a grande diferença entre vocês. ele amava meu egoísmo. eu tive que abrir mão dele pra não te perder. a ironia: nunca tive. nem por um momento. nunca. que vergonha.
7. sei que vão chamar de ressentimento, amargura, raiva. sei que vão dizer que sou mal amada e que não te supero. ah, eu aceito. aceito todas as palavras e julgamentos. sabe, eu não tenho os mesmos medos. não tenho medo de ser uma pessoa com faces, metades, defeitos. eles ainda me preservam pura, não tanto intacta. nosso relacionamento que sequer foi de fato um relacionamento me deixou marcas. e não aquelas bonitas.
8. mas, olha, por sua causa escrevi textos de amor. talvez os melhores da minha vida. não que eu tenha que te agradecer, afinal, eu os escrevi. só acho que devo reconhecer. por causa da dor que cê me causou eu encontrei pessoas que foram capazes de cuidar. uma troca justa, não acha? tudo que falei de você me levou pra longe. é engraçado. é engraçado como minhas palavras que imploravam por presença no fim me salvaram e impediram nossa proximidade. foi escrevendo sobre nós que entendi que nunca fomos plural. foi falar de amor pra perceber que não existiu nenhuma versão em que tu me amou. foi daí que comecei a agradecer por ser uma escritora. foi nessa de te esquecer que encontrei fé.
9. meus orixás me contaram nos búzios que uma parte do seu pensamento em mim me atrapalhava. sorri. não porque queria que pensasse em mim, mas gostava da ideia de um castigo. afinal, até deuses são assim impiedosos.
10. hoje, 6 anos depois, me dei conta de uma coisa: adoro a ideia de te odiar, por isso não te esqueço. adoro o drama, as reviravoltas, a graça que é contar nosso fracasso. hahaha. adoro nos chamar de tragédia. é divertido, é puro entretenimento. as pessoas me olham com aquele jeitinho de "meu deus menina que dedo podre" e eu rio. foi assim que encaixei essa coisa da memória. meus erros me fazem quem eu sou. então lembrar de você é lembrar da minha versão boba e magoada e vulnerável e entregue. é a linha do tempo. é como traçar a trajetória de um glow up psicológico. eu nunca me apaixonaria por você de novo. e isso é bom, sabe? saber disso é muito bom. quer dizer que não importa quem você foi, se te contei pior do que era ou do que é. não ligo, de verdade, não ligo.
sua realidade é desimportante assim.
acho que a balança da justiça finalmente se equilibrou pra mim.