Filosofia, Arte e a Havan.
Plotino, um filósofo do século III, traçou uma conexão explícita entre a beleza e a bondade. Para ele, a qualidade daquilo que nos cerca conta porque o que é lindo está longe de ser frívolo, imoral ou “atraente” em termos autoindulgentes. O que Plotino propõe é que as propriedades estéticas das formas arquitetônicas, musicais e artísticas no geral são diretamente ligadas e análogas às qualidades morais e servem, sobretudo, para reforçá-las. Ou seja, tanto quanto pessoas, monumentos e arquiteturas podem ser descritos como brutais, opressivos, alegres, transparentes, delicados. Além disso, o filósofo diz que, assim como pessoas podem influenciar o comportamento de outras, a arquitetura, os monumentos etc, podem influenciar o comportamento dos indivíduos, encorajando-os a serem bons ou maus. É sabido, portanto, que, desde a antiguidade, os monumentos e arquiteturas, como linguagens estéticas, têm uma função importante na construção de uma harmonização do homem em sociedade, podendo torná-lo melhor ou pior em vários sentidos. Portanto toda obra com conteúdo estético tem uma função pública de construção ética e esta é a sua maior beleza. Inclusive não é fortuito o fato de que ética e estética sejam palavras tão parecidas Recentemente Ribeirão Preto ganhou, em uma área considerada nobre, um “Partenon” e uma “estátua da liberdade”. O primeiro faz referência a um templo que, na antiguidade, ocupava o centro da acrópole ateniense e enaltecia uma divindade, Palas Atena, ligada a virtudes como a sabedoria e a razão. A segunda, a estátua da liberdade, um monumento inspirado no Colosso de Rhodes dos gregos e que foi dada de presente aos estadunidenses pelos franceses em comemoração à independência das colônias americanas e representa, além da liberdade, a amizade entre os dois países. Cabe perguntar, então, se os monumentos construídos em ribeirão, com claras referências formais às obras artísticas supracitadas, cumprem também os mesmos objetivos éticos e públicos. Nesse sentido, é mister o diálogo com as obras para tentar desvendar justamente o que elas querem comunicar em um contexto diferente das de origem. Para isso alguns historiadores da arte lançam mão de algumas perguntas iniciais, tais como: qual o tipo de obra feita, quando, como e quem. As obras em Ribeirão fazem parte de uma mega loja de departamentos chamada Havan, a loja em si tem 30.000 m2 e é acompanhada de uma réplica da estátua da liberdade com 35m de altura. Foi construída no entorno da área do parque municipal Curupira, área esta que, de acordo com uma lei municipal, era destinada somente à construção residencial de limitada altura, mas, segundo o jornal A Cidade, a legislação foi alterada em benefício de particulares. O que temos é que a construção da Havan não representa os símbolos originais de virtude do Partenon ou até mesmo da Casa Branca, como alguns associam, e nem um plano de exaltar o bem público ou o interesse coletivo. Representa ícones erroneamente e levianamente ligados ao consumismo e, também, os interesses privados prevalecendo sobre os interesses públicos, fazendo referência não somente a lei que foi alterada, mas também à paisagem que foi apropriada pelos empresários. São construções desprovidas do sentido histórico original e, por conseguinte, desprovido do sentido ético e estético que o espaço da pólis (cidade) e a sua utilização deveriam ter. Fazem parte de uma associação vazia entre o que as pessoas vivem e aquilo que as circunda. Isso tudo propiciado pela cultura massificadora do consumo que destrói qualquer sentido histórico, artístico ou de bem público em benefício daquilo que vende. É a representação da alienação cultural e ao mesmo tempo a reforça. A única divindade louvada no templo da Havan em Ribeirão Preto é o dinheiro e a única liberdade é a que torna os homens cada vez mais dependentes de coisas para serem homens e felizes. Acredito que Plotino não enquadraria as obras em Ribeirão na relação entre beleza e bondade (virtude), mas ao mau gosto e aos vícios.
Rafael Faria
cientista social professor de historia, historia da arte e sociologia.











