Hoje eu só quero me livrar de mim.

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@reflorear-se
Hoje eu só quero me livrar de mim.
Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã, somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. Há nisto alguma exageração; mas é bom ser enfático, uma ou outra vez, para compensar este escrúpulo de exatidão que me aflige. Entretanto, se eu me ativer só à lembrança da sensação, não fico longe da verdade; aos quinze anos, tudo é infinito.
Machado de Assis. Dom Casmurro.
Talvez eu saiba, em algum lugar no fundo da minha alma, que o amor nunca dura. E temos que arranjar outros meios de seguir em frente sozinhos com uma cara boa. E eu sempre vivi assim, mantendo uma distância confortável. Até agora, eu tinha jurado a mim mesma que eu estava contente com a solidão, porque nada disso algum dia valeu o risco, mas você é a única exceção.
The only exception. (via darkismo)
Demasiado tempo sofri e por muito tempo estive olhando para lugares distantes. Por demasiado tempo pertenci à solidão. Agora esqueci o silêncio. Tornei-me todo inteiro boca e estrondo de um rio que desce de elevadas rochas. Quero precipitar minhas palavras nos vales. A torrente de meu amor poderia muito bem se chocar com obstáculos intransponíveis! Como uma torrente não encontraria enfim o caminho do mar? Sem dúvida há um lago em mim, um lago solitário que basta a si mesmo; mas minha torrente de amor o arrasta consigo para a planície.
Friedrich Nietzsche em “Assim Falava Zaratustra” (A Criança e o Espelho), p. 68 (via expiratie)
Estou hoje num dos meus dias cinzentos, como diz nosso escritor; dia em que tudo é baço e pesado como a cinza, dia em que tudo tem a cor uniforme e nevoenta dele, desse cinza em que eu às vezes sinto afundar o meu destino. Estou triste e vagamente parva, hoje, e, no entanto, estou na capital do Alentejo; aos meus ouvidos chega o ruído dos automóveis, o barulho cadenciado das patas dos cavalos de luxo, o pregão forte e sensual que é toda a alma de mulher do povo, e por cima disto tudo, a espalhar vida, luz, harmonia, sinto o sol, um sol de fogo, o sol do meu Alentejo sensual e forte como um árabe de vinte anos! Pois tudo me irrita! Que direito tem o sol para se rir hoje tanto? Donde vem o brilho que Deus pôs, como um dom do céu, nos olhos das costureirinhas que passam? Donde vem a névoa de mágoa que eu trago sempre nos meus?! Vê?… É o dia pesado, o dia em que eu sou infinitamente impertinente e má como uma velhota de oitenta anos. Eu odeio os felizes, sabes? Odeio-os do fundo da minha alma, tenho por eles o desprezo e o horror que se tem por um réptil que dorme sossegadamente. Eu não sou feliz mas nem ao menos sei dizer porquê. Nasci num berço de rendas rodeada de afetos, cresci despreocupada e feliz, rindo de tudo, contente da vida que não conhecia, e de repente, amiga, ao alvorecer dos meus 16 anos, compreendi muita coisa que até ali não tinha compreendido e parece-me que desde esse instante cá dentro se fez noite. Fizeram-se ruínas todas as minhas ilusões, e, como todos os corações verdadeiramente sinceros e meigos, despedaçou-se o meu para sempre. Podiam hoje sentar-me num trono, canonizar-me, dar-me tudo quanto na vida representa para todos a felicidade, que eu não me sentiria mais feliz do que sou hoje. Falta-me o meu castelo cheio de sol entrelaçado de madressilvas em flor; falta-me tudo o que eu tinha dantes e que eu nem sei dizer-te o que era… É a história da minha tristeza. História banal como quase toda a história dos tristes.
Espanca, Florbela (via literato-sensato)
Chego, às vezes, a suspeitar que os poetas, os verdadeiros poetas, são uma espécie de erro de programação genética. Aquele produto que saiu com falha, entre dez mil, um sapato saiu meio torto. O poeta é aquele sapato que tem consciência de linguagem, porque somente o torto sabe o que é direito. Então o poeta seria um ser dotado de erro, donde essa tradição romântica de marginalidade, do poeta como bandido, banido, perseguido.
Paulo Leminski.
E nenhum poema será tão grande, tão nobre, tão verdadeiramente digno do nome de poesia quanto aquele que foi escrito tão só e apenas pelo prazer de escrever um poema.
Edgar Allan Poe
ai daqueles que se amaram sem nenhuma briga aqueles que deixaram que a mágoa nova tirasse a chaga antiga ai daqueles que se amaram sem saber que amar é pão feito em casa e que a pedra só voa porque não quer não porque não tem asa
Paulo Leminski
o amor, esse sufoco, agora há pouco era muito, agora, apenas um sopro ah, troço de louco, corações trocando rosas, e socos
Paulo Leminski
É tão fundo o silêncio entre as estrelas. Nem o som da palavra se propaga, nem o canto das aves milagrosas. Mas, lá entre as estrelas, onde somos um astro recriado, é que se ouve o íntimo rubor que abre as rosas.
José Saramago
Eu sabia que tinha alguma coisa de errado comigo, mas eu não me considerava insano. Era simplesmente que eu não conseguia compreender como é que outras pessoas tornavam-se tão facilmente irritadas, para em seguida com a mesma facilidade esquecer a sua ira e se tornarem alegres, e como é que eles podiam ser tão interessados por tudo, quando tudo era tão chato.
BUKOWSKI, Charles. Notas de um velho safado.
Com a força que sinto em mim, creio-me capaz de suportar todos os sofrimentos, contanto que me possa dizer a cada instante: “Eu existo”. Entre tormentos, crispado pela tortura, mas existo! Exposto ao pelourinho, eu existo apesar de tudo, vejo o sol e, se não o vejo, sei que está lá. E saber isso já é toda a vida.
Fiodor Dostoievski, Os Irmãos Karamazov.
o tempo, existe sim. e devora.