A paleta de cores que as folhas caídas, mortas e dançantes formam à nossa volta traduzem-me emoções sufocantes, mesmo com a brisa amena a beijar-nos o rosto.
Tento aproximar-me de ti com passos leves. Em silêncio, os meus olhos percorrem o teu corpo e recordo os momentos que vivemos e sentimos, enquanto as folhas insistem em dançar à nossa volta.
Há silêncio, os relógios estão parados e o sol de Outono não veio à chamada.
Brado por ti e o silêncio subsiste, exactamente como as folhas mortas dançantes, exactamente como a brisa amena que nos beija.
Passos atrás de mim ecoam e pessoas com ar desgraçado tentam afastar-me de ti. Em desespero e loucura tento que me soltem. Eles querem separar-nos, eles querem afastar-nos, mas eu não vou permitir. Não hoje, não neste Outono!
Tu nada fazes. Onde estão as promessas que proclamaste? Onde está a protecção anunciada? Grito com toda a alma. Preciso de ti! Tu juraste proteger-me!
Solto-me daquelas mãos rudes que me magoam e agarro-me a ti. Abano-te. Sacudo-te. Grito aos teus ouvidos e a brisa amena transforma-se em vento colérico. As folhas mortas já não dançam, agitam-se desgovernadamente e, num acto de derrota, deixo-me cair a teus pés. Lágrimas incompassivas e desesperantes surgem.
Pessoas observam-me com pena e lamento. Porque estão elas aqui? Porque assistem? Quero ficar contigo! Apenas contigo! Fala comigo, responde à minha aflição e faz algo por mim, por nós! A culpa é deles! A culpa é das folhas que dançam e da brisa que beija!
As pessoas voltam a aproximar-se e agarram-me. Dizem para me acalmar.
Apercebo-me de trocas de olhares. Um sinal! Um homem aproxima-se de ti. Fixa o olhar em mim, fixa o olhar em ti.
As folhas de Outono voltam a dançar calmamente e a brisa amena regressa para me beijar.
Inclino-me perante a morte e a tampa do teu caixão é fechada.
de Rita Morais de Oliveira
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Texto para o evento Outonos...
Organizado por Escrevinhar/ Sandra Ramos