Desde a primeira vez que ouvi esse verso na música do Barão Vermelho me lembro de refletir muito sobre seu significado.
Hoje, assistindo ao café filosófico com Leandro Karnal, em que ele fala sobre Hamlet e o mundo como palco, me surgiu essa reflexão novamente, a reflexão sobre o excesso, a histeria.
Primeiramente, preciso deixar claro que a reflexão sobre essa histeria me interessa, sobretudo, porque a percebo em mim.
Não faz sentido algum negar ou fingir que isso é algo que vejo nos outros apenas, mas em mim? Imagina, o que é isso, estou ótchima!
Não, não estou. Sinto muita angústia, muita frustração, medo insegurança e tenho muitas, muitas dúvidas.
Cheguei em um ponto em que percebo que as dúvidas sempre estarão comigo, e que tudo bem. Se questionar faz bem. Entrar em paranoia por querer agir somente quando se tem A resposta/solução correta ou ~~melhor~~~ para algo é o que tem me feito mal e travado meu agir na vida. A expressão do meu ser. Mas como isso é algo que eu mesma faço comigo, que bom! Pois assim posso mudar.
Ser responsável por si mesma e pela própria vida pode ser assustador, sim. Muito. Mas assim que nos acalmamos, temos a oportunidade de perceber o quanto isso é maravilhoso, ser a única pessoa responsável por si, pois, afinal, a única pessoa sobre a qual alguém tem controle (quando se dá esse trabalho) é si mesma.
(por isso eu sempre digo que não existe segredo de mais de uma pessoa, e por isso mesmo aquilo que eu revelo sobre mim nunca é segredo. Mas esse é outro assunto.)
Isso coloca todo o poder na minha mão. Não é preciso se desculpar por ser quem se é, mas sim se perceber, se questionar. O que minhas ações dizem sobre mim? Há coerência entre meu discurso e atitude?
Passei muito tempo da minha vida em depressão por não compreender a hipocrisia nos outros. Porque tanta gente, a maioria das pessoas com quem convivo, parece não conseguir ser honesta consigo mesma, logo, com os outros?
Mas eu não enxergava os momentos em que eu agi com má fé também (no conceito de Sartre? Talvez). Ao tentar descobrir qual (ou mesmo se há um) modus operandi da sociedade em que me insiro e tentar me adequar a ele, passei a agir de má fé, a ser hipócrita, falsa comigo mesma.
Passei a não agir de acordo com aquilo que acredito ou com aquilo que me é natural, mas sim a tentar imitar o que me parecia, em cada momento, ser o esperado de mim.
Nesses muitos e muitos anos de experiência antropológica e social percebi algumas coisas muito importantes:
- não importa o que se faça, a escolha é sempre de cada um e sempre há uma variedade enorme de possibilidades dentre as quais escolher. Cada um é sempre responsável pelo que faz, diz, pelo pensamento em que se engaja, etc.
- tudo é perfeito. Perfeito não é aquilo que não tem falhas. Tudo tem falhas dependendo dos critérios utilizados para se avaliar/perceber algo, o que nos leva a pensar que, então, nada é perfeito. Mas perfeição é aquilo que já foi feito, que está terminado. Cada instante que se passa é perfeito, pois já foi e não volta mais. Logo, tudo que fizemos, decidimos, pensamos, experienciamos em cada segundo é perfeito, foi o nosso melhor naquele instante, foi o melhor da vida. Não digo isso de maneira a incitar o descaso com a vida e a irresponsabilidade. Pelo contrário. Digo isso para tentar deixar claro que não devemos nos prender aos erros do passado (eu faço muito isso), àquilo que sentimos que poderia ter sido melhor. Talvez pudesse, mas não foi e não temos o poder de mudar coisa alguma no passado, apenas no presente, e estarmos atentos à pratica para, quando nos desviarmos, apenas voltar.
- o mundo criado por nós, humanos, é muito absurdo e não faz o menor sentido. Lógica passa longe.
- tentar encontrar lógica metafísica num sistema absurdo é desperdício de energia. É uma empreitada fadada ao fracasso e à frustração. As coisas são o que elas são. A própria existência não faz sentido. Se eu encontrar a mim mesma no meio desse caos, já está de bom tamanho.
Me desviei longamente do assunto pretendido neste post. Talvez porque seja sobre algo que eu não queira admitir.
Mas vamos lá, estou aqui pra isso.
Vim aqui pra dizer o seguinte:
Assistindo a palestra do Karnal, em um momento ele diz que quanto mais postamos nas redes sociais, mais infelizes estamos, mais sozinhos. Se postamos cada foto de cada momento do dia, da comida, do passeio, do show, etc, na verdade não estamos vivendo nossa vida naquele momento, não estamos contentes com aquilo que fazemos, temos dúvida se somos mesmo felizes (achamos que aqueles momentos representam algo que deveria nos deixar feliz e satisfeitos, mas não deixa, então postamos para receber likes, ou seja, para que os outros nos reforcem que estamos “no caminho certo”).
E isso me fez refletir sobre minha conduta internética nas últimas duas semanas, ou uma, não sei bem, desde que percebi que o cara com quem eu estava saindo e por quem me senti acolhida e querida, ao ponto de achar que estava apaixonada por ele, estava, talvez, me enrolando.
Decidi parar de me importar, de procurar ele pra conversar, de tentar marcar da gente se ver. Mas claro, para de se importar não é fácil assim. E me importei bastante.
Nós estávamos conversando e saindo, e era sempre muito bom. Horas e horas trocando ideias, falando sobre aquilo que nos interessa na vida, sendo honestos. Ou pelo menos foi o que eu achei.
Ele me tratava bem, me olhava de um jeito gostoso, com atenção. Ele parecia realmente estar interessado em me conhecer e, quando percebia que eu estava insegura com alguma coisa (porque né migs, mulher já é criada pra ser insegura, ainda mais quando gosta de alguém, fica pisando em ovos) ele fazia questão de me mostrar que não precisava ter medo de ser eu mesma com ele, de falar alguma coisa “errada” e ele fugir. Ele me fez acreditar que ele não é só mais um desses caras inseguros e com medo de mulher, que mente e se finge interessado só pra comer a gente.
Tem uma coisa que uma psicóloga me disse uma vez e que levo pra vida: Se alguém diz que te ama mas te dá um tapa na cara, em que você vai acreditar?
Quer dizer, o que devemos levar em conta ao nos relacionarmos com alguém, seja na situação que for (trabalho, família, amor, amizade etc)? O que alguém diz, a imagem que vende de si mesma, ou o que a pessoa realmente faz, suas atitudes?
(Caso não esteja claro ainda, essa reflexão, como todas as outras que coloco aqui, sempre faço de mim mesma também.)
Pois me botei a fazer essa avaliação sobre ele.
Seu discurso era interessado: “sim, vamos nos ver!”, “topo!”, “bora!”, “quero muito conversar com vc sobre _____” and so on.
Mas sua atitude era desinteressada, pra não dizer babaca, hipócrita ou de má fé. Ops, falei hahahahaha
Os diálogos sempre acabavam chegando no seguinte ponto, que, em 3 semanas, se tornou um padrão.
Eu - Pensei em tomar uma cerveja contigo, o que vc acha?
Eu - *^_^* Que dia é bom pra ti?
Babaca - Semana que vêm estou mais tranquilo.
Eu - Blz, me dá um toque depois, então.
(conversa continuava, ou não, normalmente)
Toques nunca foram recebidos.
Como eu sou uma pessoa que não tem vergonha de gostar dos outros nem de demostrar interesse, não tive problema em chamar, mas comecei a sentir que ele estava me enrolando, me deixando na expectativa e sumindo.
É muito cruel fazer isso com alguém. Porque não se fala, educadamente, que não está interessad? Será que as pessoas sabem se estão interessadas ou não? E mesmo que não saibam, porque não conversar abertamente sobre isso ao ver que a outra está? Porque esse medo de se mostrar, em todo seu caos e confusão? Existe alguém que não se sente confus@ nessa vida??? Isn’t that the one thing we can all relate to? (it’s like farting, everyone does it, everyone’s smell bad, but we all pretend we don’t even have asseholes to begin with.)
Sinto com isso um enorme descaso da parte da pessoa que simplesmente vai sumindo, fading away, até que a outra se canse de tentar entender a incoerência entre ação e comunicação verbal e sofra com a decisão de se afastar.
Não é sempre uma decisão fácil, pois os dados são confusos.
E, em geral, é bem sofrida. (Mas também empoderadora!)
E é aí que entra a questão das redes sociais.
Percebi que andei postando coisas, ou pensando em postar coisas para tentar mostrar pra ele que eu estou muito bem, obrigada. Mas ao perceber justamente o tamanho do ridículo que isso seria, consegui frear esse impulso na maioria das vezes. Eu acho.
Porque quem está muito bem não precisa mostrar pro outro né migs. E não tem problema nenhum perceber que está mal. Pelo contrário, se perceber é sempre maravilhoso, pois nos empodera, nos dá a oportunidade de dar um basta. Mesmo que esse basta tenha que ser reforçado em meio a incontáveis recaídas e praticado incansavelmente até realmente se naturalizar.
Então, na maioria das vezes eu simplesmente parava antes de postar e me perguntava porque, cargas d’água, estava prestes a publicar algo tão fora da minha média.
Mesmo conseguindo frear muitos desses momentos de desespero, percebo que minha taxa de publicação aumentou muito, e que muitas vezes o objetivo era mostrar pra ele que eu tô bem de boa, que nem tô com saudade ou pensando nele, seja com carinho seja com raiva.
Fiquei com raiva sim, fiquei mesmo.
Olhei pra ela e falei, ok, o que vou fazer com você?
Só percebo que tenho estado muito ansiosa, muito frustrada, tenho comido demais e os pensamentos bulímicos voltam como se eu nunca tivesse feito um dia de terapia na vida. Como se eu não tivesse passado os últimos dois anos mais estável na questão alimentar/peso/autoimagem etc.
(Na verdade não estava estável porra nenhuma, agora vejo que eu estava levemente tendendo pra anorexia, na média, mas como eu a aceito bem - pois estou linda e magra, foda-se tudo - e tenho pavor da bulimia - pois ela traz uma compulsão por comer e eu acabo engordando, e engordar é, no pensamento doente dessa merda toda, a pior coisa do mundo pra mim - fingia que estava tudo bem. Mas esse é um assunto looongo.)
Engordei, estou engordando. Muitas vezes me sinto feia, indigna, imprestável etc e tenho que ficar me convencendo de que isso é a doença falando, pois nada disso faz sentido.
Me sentir rejeitada por alguém em que confiei tanto desestabilizou minhas já frágeis autoconfiança e autoestima.
Por vezes sinto vontade de falar com ele, de dizer “você me magoou, não precisava ser assim, tão cruel”.
Aí penso que isso é problema meu.
Falar isso pra ele pra que?
Qual é o outcome que eu espero? Que ele vai se desculpar? Que ele vai dizer que não sou eu, é ele? hahahah
Refleti longamente sobre o que eu faria se ele aparecesse de novo. Já estamos duas semanas sem contato. Ele não vai aparecer.
Só de pensar nisso já me faz perceber que uma parcela de mim, a orgulhosa, deseja que ele volte, só pra eu dizer “não,obrigada, parei de fumar”.
Percebi tudo isso e botei pra fora. Maravilha!
E percebi também que não me arrependo de ter saído com ele, que foi ótimo e aprendi muito sobre mim mesma.
É sempre a mesma coisa. Cai seis vezes, levanta sete.