antes de ir embora
eu leio meus poemas mais frescos para minha mãe. escuto ela falar da vizinha e do marido da vizinha. do feijão que quase queimou, do meu pai que fuma que nem uma chaminé e do meu irmão que está para casar.
arrumo meus livros na prateleira por ordem de cor. este aqui eu li na viagem de volta da casa da minha tia; voltei de madrugada, e era a única com a luz acesa no ônibus. este aqui eu levava pra escola em dias que sabia que ia ficar sozinha no intervalo. este, tão doce, me fazia chorar a cada página; as vezes lembro de seus versos randomicamente, e lacrimejo de novo.
costuro todas as minhas roupas rasgadas, ou aquelas que já não me servem tão bem. uma calça vira uma saia e um lençol vira um vestido. é madrugada, mas, sem eu perceber e quase que de repente, o sol raia. visto as roupas novas, retalhos do que eu era caídos sobre mim, agora inteiros.
faço uma última xicara de café para meu pai, que diz conseguir distinguir o cheiro do meu, do da minha mãe. ele agradece toda vez, com um beijo na bochecha.
durmo a tarde toda. porque a faculdade esta por vir, e porque não faço isso a meses. acordo com o cheiro de janta pronta e com meu irmão me sacudindo ‘’comprei seu remédio de alergia. quando quiser, passa lá em casa pra brincar com o gatinho’’
leio nossas conversas. escuto sua voz. ouço nossas músicas. lembro de nossos dias, nossas mãos. releio todos os poemas que fiz para você. falo com seus amigos. pergunto como você esta. escrevo tudo que consigo me recordar do que senti, e tudo que consegui perceber que você sentiu. e te deixo ir, finalmente.
arrumo as malas, mais cheias do que quando vim. abraço meus pais, digo adeus pro meu tio, conto o dinheiro do metrô, e olho pra trás mais duas vezes antes de ir, mas eu vou. o quão presa eu estava quando cheguei e o quanto esperneei para me soltar. liberdade, eu disse. tão alto que só eu escutei.












