Life's no fairy tale | Aella & Eloise | March 78
A renda branca feita a mão que cobria seus ombros e parte das costas não pinicavam quanto achava que aconteceria, aliás, o vestido como um todo era muito mais confortável do que diziam as revistas, achava até que conseguiria viver vestida de noiva para sempre. Respirou fundo sentindo o ar falhar de maneira ritmada, e sorriu satisfeita com o salão. A decoração branca com mínimos detalhes em bronze havia sido uma escolha mais do que acertada, dando um ar sofisticado e ao mesmo tempo minimalista. No entanto, era a combinação de orquídeas brancas com as flores de cerejeira da mesma cor que mais prendiam sua a atenção e adicionavam um ar rústico para cerimônia. Tudo parecia ir muito além do que jamais havia esperado, e seu nervosismo era apenas um detalhe em comparação a seu deslumbre.
Ajeitou o próprio vestido enquanto tomava um longo gole de água do copo que simplesmente surgira em suas mãos. O salão já estava cheio com todos os convidados bem vestidos, como se se soubesse o quão importante era aquele dia para ela e como se estivessem dispostos a fazer tudo para que nada saísse menos do que perfeito. Sorriu nervosa ao mesmo tempo em que entregava o copo a pessoa ao seu lado, que lhe dizia para que não ficasse nervosa. Não era como se Aella pudesse fazer algo sobre o nervosismo, aquele era o dia que havia planejado desde sua tenra idade. Era como se o sonho de toda sua vida estivesse realizando, de maneira que não podia pedir para seu coração deixar de palpitar forte. Era natural, ela sentia isso.
No meio de todo seu deslumbre, algo chamou sua atenção e não positivamente. Sua mãe junto de seu pai e irmão a observavam do lado de fora do salão, com expressões de decepção. O coração que já batia de maneira acelerada passou para uma velocidade tão alta que talvez fosse capaz de pifar a qualquer momento. Ainda desnorteada vasculhou pelo salão buscando a presença de algum de seus amigos que pudessem lhe explicar a ausência de sua família no evento mais importante de sua vida. E ao invés de encontrar seus colegas de casa, o lugar só contava com aqueles colegas de escola a quem sempre desdenhara. Os alunos de Gryffindor, Hufflepuff e Ravenclaw pareciam ter invadido seu casamento e agiam como se aquilo fosse à coisa mais natural do mundo. Bastou prestar um pouco mais de atenção na pessoa com que pegara seu copo momentos atrás para entender, ainda que não conseguisse ver seu rosto com clareza, estava muito mais do que claro que não era o noivo que havia planejado.
Curvou seu corpo de maneira brusca e assustada, por pouco não deu de cara com o extrato do beliche de cima. Pousou uma das mãos no peito e ao se retomar a consciência e se localizar em seu dormitório, sentiu a respiração ofegante começar a neutralizar. Não era incomum que a garota tivesse aquele tipo de pesadelo, na realidade, era a terceira vez naquele mês. Olhou para os lados, preocupada em ter acordado alguém, porém, só encontrou as respirações calmas de suas colegas adormecidas. Tentou adormecer novamente, porém, o medo de voltar ao mesmo pesadelo parecia impedi-la de dormir novamente. Revirou-se na cama por alguns minutos até que decidiu esperar até o amanhecer.
Deixou o dormitório pisando nas pontas dos pés, não era incomum que suas colegas de casa reclamassem de Aella, assim, a loura buscava se comportar de maneira quase exemplar para evitar esse tipo de chateação. Ao descer ao salão comunal sentiu uma espécie de alegria ao ver que não ficaria sozinha. Eloise Selwyn se encontrava sentada em uma das poltronas, aparentemente, em leitura. – Acho que não quero dormir. – Respondeu enigmática, não queria falar sobre o pesadelo. Ainda que Eloise estivesse se mostrando uma boa amiga e, diferente, da maioria de seus colegas não reclama de três em quatro coisas que Aella fazia, ainda não havia confiança o bastante para admitir que andava sonhando que casava com alguém não purista. – E você? Caiu da cama? Chorando de amores? Hihi – perguntou tentando se animar com uma conversa mais a seu gosto. Desde que a jovem de cabelos negros havia terminado o relacionamento de anos com Evan Rosier, Aella andava tentando virar sua conselheira amorosa. Afinal, Selwyn estava a perder uma grande oportunidade, encontrar namorados no meio purista não era uma tarefa fácil.
Eloise nunca havia sido uma das pessoas mais extrovertidas do mundo. Preferia permanecer quieta e falar apenas quando achava necessário, observar os demais ao invés de se colocar como centro das atenções. Alguns interpretavam essa sua característica como um comportamento arrogante, mas a verdade era que a jovem slytherin não tinha a intenção de gastar energias desnecessariamente. Ainda que a diplomacia lhe obrigasse a pensar de forma contrária, não era sempre que Selwyn tinha vontade de interagir com seus colegas de casa e ano, limitando-se somente a alguns amigos mais próximos, pessoas que, para ela, realmente valiam a pena. E Aella Travers era uma delas. Era bem verdade que algumas garotas pareciam não ter paciência com a sextanista, ou não reclamariam uma vez ou outra. Sabia disso porque, na casa de Salazar, paredes tinham ouvidos e muitas vezes todos ficavam sabendo de acontecimentos que normalmente seriam limitados somente aos envolvidos. Mas Eloise sentia uma profunda empatia pela ingênua Aella, apegando-se a ela como uma irmã mais velha fazia por uma irmã mais nova, ou algo próximo a isso. Ellie nunca teve irmãs.
"Você não quer dormir e tudo o que mais desejo é algo para ajudar minha insônia. Bastante irônico." Riu consigo mesma, depositando o livro no tapete, exatamente ao lado da poltrona de veludo verde escuro na qual estava sentada. A garota endireitou o corpo, sentando-se de forma confortável e ao mesmo tempo tão graciosa quanto costumava se portar normalmente. "Você não é nada engraçada, sabia?" Retrucou com certa ironia, o sorriso servindo como um alerta de que estava apenas brincando com Aella. Simpatizava bastante com a loira, mas Travers certamente sabia ser inconveniente quando queria, especialmente quando falavam a respeito de garotos e a mais nova não conseguia controlar seu lado demasiadamente romântico e sonhador.
Estava em prantos, consegue ver meus olhos vermelhos?" Apontou para o próprio rosto, onde as íris muito azuis se destacavam como safiras, rindo divertidamente do próprio comentário. "Evan Rosier não merece uma lágrima sequer. Pensei que estivesse do meu lado." Era perceptível uma nuance de mágoa em sua voz ao mencionar o ex namorado, ainda que tivesse sido disfarçada pelos anos de prática em mascarar sentimentos e reações. Sim, já havia derramado uma quantidade generosa de lágrimas por conta de tudo o que havia acontecido, pela traição e pela mágoa que parecia não abandoná-la um minuto sequer, mas isso era algo particular, algo que ela jamais admitiria ou confidenciaria a alguém, nem mesmo a Aella. A própria Eloise ainda se martirizava por ter se permitido chegar àquele ponto, chorar por alguém que só havia lhe trazido dor e humilhação, mesmo que seu choro fosse mais por puro ódio do que tristeza ou saudade. "E quanto a você? Sua vida amorosa anda muito mais movimentada que a minha, com certeza deve ter alguma novidade." Resolveu colocar-se de fora do foco da conversa, incentivando-a a falar a respeito de si mesma para evitar que novas perguntas a respeito de Rosier fossem feitas. Detestava falar sobre aquele assunto.













