Survival of the fittest || POV {Plot Twist Part I}
- Levante a cabeça, Antonin - disse sua mãe pela milésima vez na noite ao pegar o rapaz encarando novamente a barra da manga de seu paletó. Ele levantou o queixo e fingiu observar as pessoas presentes naquele banquete miserável, passando os olhos por elas sem realmente vê-las. Não queria estar ali, isso era um fato. Preferia estar no frio dormitório da Sonserina no castelo de Hogwarts, fingindo que o universo não existia, que ter de aguentar mais uma das reuniões puristas que seus pais insistiam que ele comparecesse. Na verdade estava ali apenas por sua mãe, pois apesar de tudo, não conseguia negar absolutamente nada para a mulher. Ela era a única coisa que realmente importava em sua vida medíocre, e neste momento o olhava com um sorriso debochado no rosto, extremamente semelhante ao seu próprio quando ele sorria de algo do qual não achava real graça. - Sabe, você pode ao menos fingir que está amando o convite que sua mãe lhe fez com tanto carinho - caçoou ela, enquanto ficava de frente pro filho para arrumar sua gravata. Ele lhe deu o que quase pareceu um sorriso, se não fosse tão claramente forçado, mesmo que por dentro estivesse achando graça do surto de maternidade de Salácia. - Isso, dê mais um desses e vá achar uma esposa - disse ela, dando-lhe um tapinha no ombro. - Mãe - reclamou ele. Simplesmente não conseguia se sentir bem sabendo que assim que terminasse a escola teria de se casar com alguma das garotas puro-sangue que ele via todas arrumadas e à procura de um marido nesses banquetes. Apesar de todas terem certa beleza que não podia passar despercebida por Antonin, no fundo ele as achava completamente ridículas. Sempre tentando superar umas as utras, com as melhores maquiagens, melhores vestidos, melhores sapatos, melhores sobrenomes. Tudo para conquistar o marido ideal. E infelizmente, na concepção de algumas delas, o Dolohov era este tipo ideal, e ele detestava sê-lo. - Nada de mãe, pai ou avó. Você é o único garoto neste salão a quem é dado o privilégio de escolher, pois confiamos na sua capacidade de julgamento. Agora mostre que estamos certos e vá em frente! - o rapaz revirou os olhos diante do entusiasmo exagerado da mãe, mas fez o que ela mandou.
Passou os olhos pelo local sem realmente procurar por alguém. Sabia que se não escolhesse ninguém, seus pais o fariam por ele, e aí estaria sujeito a qualquer tipo de garota que eles achassem melhor, e não poderia reclamar mesmo que fosse uma velha de trinta anos com estrias e três filhos. Na verdade seria melhor assim, pensou ele. Não a velha de trinta anos, é claro, e sim deixar que seus pais escolhessem. O pouparia de todo aquele estresse de ter de olhar para cada garota em cada banquete, jantar e baile, para procurar por algo que ele sequer tinha a mínima noção de por onde começar. Era absolutamente ridículo.
E é claro, além de toda aquela indiferença com qualquer garota puro-sangue de família antiga, havia também Harriet Goldstein. A lufana era o total oposto disso. Não estava nem aí para a aparência, apesar de ser mais bonita que todas essas garotas exibidas juntas. Não era puro-sangue, não procurava por um "marido ideal", e a principal coisa sobre ela: Não dava a mínima bola para Antonin. Ele não sabia exatamente o por quê de se importar, mas desde que conhecera a menina e ela lhe dera um fora como ele jamais levara na vida (mesmo levando em consideração que ele jamais levara um fora), ele tomou como meta chamar sua atenção, por mais difícil isso fosse ser. E estava sendo.
Deixou que sua mente vagasse de volta para o castelo, até o seu olhar pousar em uma garota alta e loura, com os cabelos perfeitamente arrumados e lisos e o vestido púrpura até os pés, não escondendo seus atributos corporais. Ela era quase tão alta quanto Antonin, e seus ombros eram fortes, o que fez seu estômago dar uma revirada dolorosa em seu lugar, até ele convencer seu próprio subconsciente que jamais, nem em um milhão de anos, a lufana que estava em seus pensamentos apenas um segundo antes compareceria num jantar como aquele. E ele se provou estar certo quando a garota se virou. Não era uma garota, de qualquer forma. Ela devia ter uns vinte e poucos anos, mas sua beleza era estonteante. O rosto delicado e os olhos... Azuis. Esperara pelo misterioso e ligeiramente sedutor tom de verde que conhecia, mas ao invés disso se via diante de um azul quase inocente, se não estivesse brilhando de malícia ao observá-lo. Fez o que fora ensinado a fazer ao oferecer aquela dança para a senhorita, mesmo que não estivesse com a mínima vontade de fazê-lo. Como grande parte dos rapazes que eram obrigados a frequentar esses eventos desde que nasceram, Antonin sabia sim dançar muito bem, mas não era como se gostasse de fazê-lo. Quando jovem e imprudente, ele adorava aquela proximidade de corpos com alguém do sexo oposto, e se aproveitava disso ao máximo, sempre tendo uma continuação em algum lugar mais reservado. Mas naquele momento, apenas o fato de dançar com uma desconhecida o entediava, apesar da cordialidade com que a tratava. A quantidade de casais dançando na pista era pequena, visto que a maioria já havia comido do deslumbrante jantar que fora servido e estavam apenas sentados jogando conversa fora. Antonin desejava fazer o mesmo, mas lamentavelmente sua única companhia por ali era sua mãe, e apesar de amar o espírito jovem da mulher e a grande maioria de suas conversas fossem como dois amigos jogando conversa fora, naquele momento ela havia se juntado com outras mulheres do alto escalão, e ele não estava nem um pouco afim de ouvir as fofocas que provavelmente estavam trocando.
Para o seu alívio fora poupado de ambas as atividades indesejadas quando o anfitrião da noite se adiantou para dizer algumas palavras. Todos se levantaram de seus lugares e se aglomeraram ao redor do homem, que mal disse algumas poucas palavras e foi passando o microfone para o Ministro da Magia, Armand Malfoy. Antonin tentava compreender o que o homem dizia. Algo sobre o purismo, e como todos ali eram uma parte fundamental para a construção dessa doutrina e, principalmente, para a sua disseminação pelo mundo. O Dolohov sabia o que viria em seguida. Fazia parte do grupo seleto de garotos puristas que se reunira com o próprio sobrinho do homem, Lucius Malfoy. Ele sabia o que esperar, mas mesmo assim foi pego de surpresa quando todo o local foi escurecido por uma espessa nuvem negra. Ele tentou conjurar o Lumus, mas não foi o suficiente, por isso contentou-se em fazer como todos os outros presente. - Mãe! - chamou em voz alta, e seu coração saltou de alívio ao sentir uma mão macia agarrando sua própria. Mas não era a mão de Salácia, e ele reconheceu como a mão que, alguns minutos antes, segurava ao rodopiar pelo salão. - Solte-me - disse rispidamente para a garota, e começou a seguir uma voz que gritava por seu nome em algum lugar a sua direita, não muito distante dali. - Mãe! - ofegou ele ao sentir os braços da mulher ao seu redor, e a segurou firmemente. - Por favor Tonin, não vá! Fique aqui comigo! - disse ela, com a voz em total desespero, e ele quase podia ver o brilho das lágrimas em seus olhos através da escuridão que já se dissipava. - Tenho que ir, é isso que eu devo fazer - disse ele em voz baixa, para que apenas ela escutasse, e pôde ouvir o choro baixinho que se iniciava. Ele queria confortá-la, mas naquele momento a escuridão se esvaiu por completo, e todos soltaram uma exclamação coletiva. Ele não pôde ver o que era, mas sabia. Era o sinal que precisava. Soltou os braços de sua mãe e lhe deu um beijo na testa, sem olhá-la nos olhos. Sentiu a mão pequenina segurando a sua, mas a soltou e foi em direção ao jardim dos Mulciber, sem olhar para trás.














