Acordei sem cigarro, sem uma mensagem sua. Restou o cafĂ©. Pelo visto, atĂ© para desistir dos prĂłprios vĂcios Ă© preciso conservar algum outro.
Confesso que sinto falta de vocĂȘ. E, antes que a vaidade me impeça de admitir, acho que idealizei quem vocĂȘ era. Ă curioso, porque sempre desprezei essa mania humana de transformar pessoas em promessas. Ainda assim, fiz exatamente isso conosco.
Lembro de vocĂȘ me dizer que gostava de mulheres loucas e intensas. Receio decepcionĂĄ-lo: nunca fui exatamente desequilibrada. Intensa, sim. Acredito que, em algum momento, deixei de confundir intensidade com inconsequĂȘncia. O tempo cobriu minha ousadia com camadas de cautela, medo e uma estranha necessidade de acreditar que, se eu previsse o pior, conseguiria impedir que ele acontecesse.
Ainda assim, vocĂȘ conseguiu algo que eu julgava impossĂvel: conseguiu deslocar as certezas que eu tinha sobre quem eu era. E isso Ă© intrigante, porque houve um tempo em que eu sabia exatamente quem era. VocĂȘ, de alguma forma, me fez lembrar daquela mulher. Da garota que ainda nĂŁo carregava tantas cicatrizes, que nĂŁo media cada palavra, que agia antes de pensar nas consequĂȘncias. Havia algo em vocĂȘ que afastava, mesmo que por instantes, todas as camadas de dor, medo e prudĂȘncia que fui acumulando ao longo dos anos.
Eu quis vocĂȘ. Quis muito. Mais do que tive coragem de demonstrar e, quem sabe, mais do que deveria. VocĂȘ parecia exatamente o tipo de homem que eu imaginava existir quando era adolescente e passava horas lendo a Capricho. NĂŁo pela aparĂȘncia â embora eu sempre tenha achado vocĂȘ bonito. Era o conjunto. Sempre achei que existisse algo nos seus olhos que eu nunca consegui traduzir, como se eles soubessem alguma coisa que o resto de vocĂȘ fazia questĂŁo de esconder. O jeito de sorrir, os gostos tĂŁo parecidos com os meus, a curiosidade, as conversas e aquela mente que conheci tĂŁo menos do que gostaria. Acho que foi isso que me encantou. A melancolia que parecia fazer parte de vocĂȘ, o mistĂ©rio que nunca se entregava por inteiro e a sensação de que existia muito mais sob a superfĂcie do que vocĂȘ permitia enxergar. VocĂȘ parecia carregar um universo inteiro dentro de si. Eu teria passado horas ouvindo suas histĂłrias.
Bukowski escreveu: "Eu inventei vocĂȘ e vocĂȘ me inventou; por isso nĂŁo damos mais certo." Passei dias brigando com essa frase, porque a razĂŁo reconhece a verdade, enquanto o coração continua negociando com ela. Ă bem possĂvel que tenha sido isso. VocĂȘ criou uma versĂŁo minha que eu nunca consegui sustentar o tempo inteiro, e eu construĂ um homem que existiu muito mais na minha imaginação do que na realidade.
Desta vez, deixei a emoção conduzir. Fazia tempo que eu nĂŁo fazia isso. Perdi-me um pouco. VocĂȘ estava a quilĂŽmetros de distĂąncia, e hoje percebo que a distĂąncia emocional era ainda maior. Eu caminhava em direção a vocĂȘ; vocĂȘ parecia apenas assistir de longe. Pensando agora, sinto atĂ© um certo constrangimento pela sinceridade com que me entreguei. NĂŁo porque ela tenha sido um erro, mas porque foi oferecida a alguĂ©m que, ao que tudo indica, nĂŁo pretendia segurĂĄ-la.
Sou uma mulher de desejos bastante simples. Nunca procurei grandes declaraçÔes ou amores cinematogrĂĄficos. Eu sĂł precisava de segurança. E, convenhamos, vocĂȘ nĂŁo conseguiu me oferecer isso. Nunca soube exatamente onde eu pisava com vocĂȘ e viver tentando adivinhar o lugar que ocupamos na vida de alguĂ©m Ă© cansativo demais.
Pode ser que eu esteja dando uma importùncia desmedida a tudo isso. E, muito provavelmente, estou. Mas o que posso fazer? Sentir as coisas pela metade nunca foi um talento meu. Mudar isso seria alterar a minha própria natureza. Sempre volto àquela pergunta dos Los Hermanos: "Quem é mais sentimental que eu?" Talvez ninguém. Ou talvez essa tenha sido, desde sempre, a minha maneira de existir no mundo.
Depois de tantos anos, vocĂȘ despertou partes de mim que eu acreditava definitivamente adormecidas. Fez-me sentir, questionar, amadurecer. Foi importante.
Hoje me pergunto se essa tal conexĂŁo realmente existe ou se nĂŁo passa de um espelho, onde enxergamos no outro aquilo que desejamos encontrar. Ainda nĂŁo sei responder.
Eu nĂŁo queria deixar de falar com vocĂȘ. Mas alimentar um sentimento sustentado mais pela esperança do que pela realidade começou a me machucar. As madrugadas ficaram pesadas demais. Passei a dormir mais cedo nĂŁo por disciplina, mas porque a noite sempre encontra um jeito de trazer vocĂȘ de volta.
Quando me despedi, disse que era melhor encerrar tudo. E continuo acreditando nisso. Nem toda despedida acontece porque o sentimento acabou; algumas acontecem justamente porque ele continua existindo. Mas tambĂ©m aprendi que sentir muito por alguĂ©m nĂŁo significa aceitar qualquer coisa. Eu sei o que sinto, mas tambĂ©m sei o que mereço. E, por mais difĂcil que seja admitir, acredito que mereço mais do que dĂșvidas, ausĂȘncias e a sensação constante de estar tentando alcançar alguĂ©m que permanece distante.
Descobri que mulheres como eu não foram feitas para relaçÔes provisórias. Nem no amor, nem na amizade. Tudo o que é breve demais costuma permanecer por tempo demais dentro da gente.
Desejo que vocĂȘ esteja bem, onde quer que esteja.
E, se o destino tiver um senso de humor melhor do que o nosso, quem sabe ele nos faça cruzar o caminho outra vez. NĂŁo pelas telas, nem pelas palavras, mas ao acaso. Gostaria de conhecer vocĂȘ sem a interferĂȘncia da distĂąncia e sem o peso das versĂ”es que inventamos um do outro. Se esse encontro nunca acontecer, levarei comigo a lembrança do que vocĂȘ despertou em mim. Mas, se acontecer, espero que sejamos, enfim, duas pessoas de verdade diante uma da outra.
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