Naquele momento, todos os habitantes vivos de Mystras dependiam apenas de sorte. Não era a lei do mais forte que sobreviveria. Os mais fortes não tinham como lutar contra uma espada cravada em seus corações. Os mais rápidos não aguentavam correr por muito tempo e por todo lugar para onde corriam havia uma lâmina à espera. E os mais fracos e indefesos… Bom, eles morriam. Aquela era a dura realidade de uma guerra. Ninguém sobrevivia por ter alguma habilidade. A partir daquele dia, Amice nunca mais acreditaria em nada que lhe dissessem sobre estratégias. Uma guerra não acaba por conta de estratégias de batalha. Acaba por pura sorte.
Observando aquelas crianças indefesas, a Sangenis sentiu-se uma novamente. Sua mãe gritava e chorava de dor, desesperada, presa em um quarto com um monstro como marido. Amice chorava e chorava, mas não conseguia ajudar. Darion a impedia. Naquele momento, porém, o choque a impedia e talvez Caspian a impedisse também, se tentasse algo. Tentou acreditar que aquilo não era verdade, que não poderia ser verdade. Não matariam crianças, matariam?
O tempo pareceu passar muitas vezes mais devagar, os segundos que mais pareciam horas sufocavam a gargante de Amice, deixando sua respiração audível. Alta e forte demais. Não percebeu que ainda segurava a mão do garoto ao seu lado e que provavelmente estava machucando-o com a força que usava. Não se importava. A cena foi demais para a garota. Ao ver a primeira criança ser morta e ouvir os gritos das outras, mordeu o interior das bochechas com força e usou a mão livre para cobrir a própria boca, na esperança de sufocar qualquer grito de horror ou choro que viesse a seguir. As lágrimas formavam uma corrente grossa pelo rosto da morena, que não conseguia desviar o olhar da cena. Foi tirada de sua paralisia por um puxão e logo recomeçou a correr, tentando tirar o que acabara de acontecer da sua mente. Mas era impossível. Seu estômago se revirava e o choro preso na garganta a impedia de respirar direito. Por isso, poucos minutos depois de começarem a correr, Amice parou. Suas pernas pareciam gelo e não se moviam mais. Ao mesmo tempo, o corpo todo tremia. Respirava com dificuldade e precisou apoiar-se em Caspian com o braço livre. “Como… Quero dizer, por que…” Tentou explicar, sendo interrompida por um soluço inesperado. Fechou os olhos com força e, quando os abriu, estes nunca haviam expressado tanta dor. “E-eram só crianças… Você disse que queriam o rei. Por que…” E não conseguiu mais falar. O choro substituiu suas palavras, assim como o pensamento de que nada estava bem surgiu. Estavam realmente em guerra e Amice nunca havia de fato percebido aquilo.
Caspian conhecia boa parte das crianças que estava ali. Eram todas extremamente pobres, viviam na parte mas triste de Mystras, foram tiradas das casas que caíam aos pedaços e essa era, provavelmente, a coisa mais triste: eram as únicas coisas preciosas que os pais tinham e até isso fora tirado deles. Ele reconheceu vários rostos no meio daquela pequena multidão, eram tantas crianças doces, tão lindas, tão jovens. Era tão injusto que a guerra tirasse a vida daqueles que já não tinham nada. Se não estivessem ali, provavelmente morreriam na guerra, sendo mandadas a força para o campo de batalha. Ou, então, morreriam de fome quando mais velhas. A morte vinha cedo para crianças como aquelas. A morte vinha cedo para pessoas como Caspian.
A cena que veio a seguir já era esperada pelo Oakenheart, mas ele não esperava que viesse daquela forma. Ele esperava tudo: espadas enfiadas no coração, cortes nas gargantas, o som do quebrar de ossos, mas ele não esperava, em hipótese alguma, ver os corpinhos frágeis caindo no chão sem suas respectivas cabeças. Levou, inconscientemente, a mão à própria garganta. Ele se via naquelas crianças, afinal. Via o pequeno Caspian correndo de um lado para o outro de uma extensa plantação, se via aos seis anos, a barriga roncando e doendo de fome enquanto tentava dormir para que aquela sensação ruim passasse. Quantas crianças como ele não teriam a oportunidade de crescer e ver o mundo com outros olhos, graças àquela noite? Quantas crianças não trabalhariam duro e conseguiriam manter-se vivas, graças àquela noite? Seu coração parou de bater enquanto ele tentava contar quantas havia no chão. Só então ele percebeu: eram crianças demais.
Tentava correr o mais rápido possível, mas nunca era o suficiente. Tentava fugir das lembranças do que acabara de ver, mas elas o pegaram e não havia mais como escapar. Doía demais, por isso, deu graças aos céus quando Amice parou bruscamente. Não se virou imediatamente, porém. Demorou alguns segundos para engolir o próprio choro e secar uma única lágrima que desceu por sua face. Então, finalmente, se virou para se deparar com a cena mais aterrorizante de todas: Amice estava desesperada. Tentou manter a calma, indo até ela e puxando-a para um abraço apertado. Inspirava profundamente o cheiro do topo da cabeça dela, enquanto respirava fundo também. Afagava os cabelos da morena com certa dificuldade graças às mãos trêmulas, os olhos se fecharam com força e ele tentou pensar numa boa resposta. “É a guerra. Não te porquê, é só ódio, dor, problemas e sofrimento. Não tem motivo, Amice, é só guerra. São só soldados cujas almas foram roubadas em campo de batalha. Somos só... Só instrumentos de tudo isso, as crianças eram só instrumentos, não importava se eram crianças ou não. Eram só...” Tentou explicar da forma mais cautelosa possível, parando sua frase no meio. Droga, eram só crianças. Que se tornaram instrumentos de guerra. Estratégia, era isso que elas eram aos olhos dos guerreiros. Continuou a apertar Amice, sentindo o coração da garota bater forte contra sua pele. E abriu os olhos, só para ver, ao longe, os soldados invadindo o castelo.