Há dias em que o peito parece um quarto com uma janela entreaberta, o vento entra, balança as cortinas e tudo o que deveria ficar quieto começa a se mover. É nesse balanço que mora a tristeza, não no grito, mas no sussurro que insiste em lembrar o que eu nunca quis ouvir. Às vezes eu sinto que eu nunca vou ser 100% o amor de alguém, porque existiu alguém que ainda ocupa uma certa porcentagem, um certo espaço. E o mais cruel é que esse “alguém” não precisa nem estar presente, basta o eco, a lembrança, a sombra que insiste em não se desfazer. O coração é um lugar que nunca foi feito para ser dividido, mas a vida insiste em colocar nomes demais dentro do mesmo espaço. Há dias em que eu me olho e não me reconheço, é como se o espelho me devolvesse uma versão provisória de mim mesmo, um rascunho usado para cobrir o vazio que alguém deixou. Às vezes eu me sinto como se fosse só um substituto, um tapa-buraco, o que deu para arrumar, o que estava ali quando o outro amor não pôde ficar. E isso dói de um jeito manso, quase educado, como quem pede desculpas por existir no lugar errado. Sempre sinto que sou só um curativo ou uma máscara usada para cobrir os verdadeiros desejos que não podem se realizar. O amor às vezes se parece com um palco vazio onde a gente ensaia falas que não nos pertencem, só para não ouvir o som do silêncio entre os aplausos que nunca vieram. Eu nunca sou bom o bastante, nunca sou o suficiente para ser apenas eu, para o amor ser só meu. Sempre tem que ter alguém do passado, alguém que não superaram. Meu nome sempre é o segundo a ser pensado, nunca o primeiro e mesmo assim, eu fico. Fico porque há gestos pequenos que me fazem acreditar por um instante que talvez, só talvez, eu tenha me enganado. Fico porque há olhos que às vezes me olham como se realmente me vissem e nessas brechas eu descanso um pouco da dor de ser quem sou. Há um tipo de solidão que acontece mesmo a dois, uma solidão educada, que não grita, que não reclama. Ela só se senta ao meu lado enquanto finjo não notá-la e espera. Espera que eu entenda que há coisas que o amor não cura, apenas silencia. E eu aprendi a viver nesse silêncio, entre as palavras não ditas, entre as comparações que nunca deveriam existir, entre os fantasmas que ainda habitam o corpo e a mente de quem eu amo. Mas talvez amar também seja isso, permanecer mesmo sabendo que o outro carrega dentro de si um retrato antigo, um nome guardado em um canto que não me pertence. Talvez amar seja aceitar ser o agora, mesmo que o passado ainda respire embaixo das cobertas. Escrevo porque há dores que não cabem na boca, mas cabem no papel e aqui, entre linhas, eu posso chorar e derramar todas lágrimas que surgem enquanto o faço. Eu só quero que, por uma vez que seja, eu possa ser inteiro dentro de alguém e não apenas o abrigo temporário do que sobrou de um amor que não era meu.
— A anatomia das falhas, o livro. Quebraram, D.






