Há noites em que o silêncio parece maior do que o próprio mundo. Ele se deita sobre mim como um lençol frio, cobrindo cada canto da minha alma. Há uma solidão tão densa que até o ar parece mais pesado, como se respirar fosse um ato de coragem. Eu olho para o teto, para as paredes, para as memórias espalhadas pelo quarto, tudo é testemunha de uma vida que pulsa por dentro, mas que lá fora, parece não existir. Às vezes a sensação que eu tenho é de que o mundo não é para mim, que eu sempre sou um intruso, principalmente na vida das pessoas. Sinto que eu nunca sou visto pelo que eu sou, mas sim pelo que as pessoas querem criar de mim. É como se eu fosse um personagem escrito por mãos estranhas, um amontoado de coisas e falhas inventadas para um enredo que nunca me pertenceu. E eu sigo tentando, tropeçando, respirando, mas sempre com essa sensação de que ocupo lugares emprestados, de que não sou convidado, apenas tolerado. Sabe, é aquela sensação de que na frente todo mundo me trata bem e gosta de mim e até chegam a dizer que me amam. Mas por trás desenham uma versão minha que me coloca como ruim, como um tipo de vilão, um tipo de erro e arrependimento. E acho que nunca me defenderam, por melhor que eu seja, sempre me apunhalaram pelas costas, falaram mal de mim junto com quem estava falando ou apenas observaram em silêncio. E sempre conseguiram agir normal como se não houvessem feito ou falado. Essa é uma ferida que não sangra por fora, mas corrói devagar, por dentro, como um ácido. É uma dor que não tem testemunhas nem aplausos, só o silêncio. E dói sentir tudo isso, parece que por mais que eu tente, por mais que eu me esforce, por mais que eu tente dar sempre o meu melhor, nunca é visto, nunca é bom, sempre ousam me pintar como se eu fosse difícil demais de lidar, como se eu forçasse e obrigasse os outros a permanecer na minha vida. Parece que até o meu jeito de fazer as coisas é errado, causa sempre descontentamento. E mesmo com milhares de coisas boas, parece que as pessoas só enxergam e falam das pouquíssimas coisas "ruins". E eu fico ali, pequeno, invisível, tentando entender onde me perdi ou se um dia realmente fui encontrado. A tristeza tem um gosto estranho, como um café frio esquecido sobre a mesa. É amarga, pesada e ao mesmo tempo tão íntima que parece uma velha amiga. Eu a carrego comigo, não como um peso, porque não ouso negar os meus sentimentos, mas como um lembrete constante de que estou vivo, de que sinto. O problema é que, às vezes, sentir é um território perigoso. É como caminhar descalço sobre cacos de vidro, tentando não sangrar, mas sangrando de qualquer jeito. Há um lugar dentro de mim que ainda acredita na bondade, que ainda se recusa a endurecer. Mesmo ferido ele insiste em estender a mão, em sorrir, em tentar mais uma vez. Mas há outro lugar que já está cansado. Cansado de ser sempre mal interpretado, de ter sua luz transformada em sombra, de ver a própria história contada por vozes alheias. No fundo, eu sei que não sou vilão, não sou sequer o personagem que inventaram para mim. Sou feito de silêncios, de gestos pequenos, de sonhos não contados. Sou feito das dores que ninguém vê e dos sorrisos que ofereço mesmo quando não recebo nenhum de volta. Sou um fragmento de sinceridade em um mundo que prefere ilusões. E, ainda assim, mesmo quando o peito parece implodir e a tristeza me cobre como um manto pesado, eu sigo. Talvez por teimosia, talvez por esperança ou porque, em algum lugar, eu ainda acredito que exista um canto do mundo onde eu realmente encaixe sem precisar me esconder. Um lugar onde eu não precise ser moldado pela visão dos outros como um personagem, nem como vilão, nem como mártir... Mas sim ser apenas eu.