Não Temos Ordem, Nem Progresso. por Julio Vicari, 2025
Se a bandeira do Brasil fosse honesta, teria que ser reimpressa com o fundo cinza de concreto mal feito, e no lugar da frase “Ordem e Progresso”, algo mais sincero, talvez “Caos e Remendo”.
Porque a ordem aqui, só existe na fila do banco, isso se não houver algum conhecido que entra na frente disfarçando amizade e pede serviço ou quando o sistema cai e todos esperam por nada. O resto é desordem oficializada. No trânsito que mais parece guerra civil sobre rodas, leis que se aplicam como senha de wi-fi, só serve para quem tem a chave criptografada.
E progresso? Esse virou um holograma! Vem em PowerPoint de campanha política, maquete em 3D, inauguração de obra inacabada com fita de papel crepom desbotada. Enquanto isso, a realidade vai fedendo a esgoto aberto; ônibus que parecem latas de sardinha vencidas; buracos que fazem aniversário esperando o remendo mal feito. O futuro chega, mas só para meia dúzia. O resto vive de reciclar esperança como quem lava copo descartável.
O país é uma grande gambiarra elétrica, com caixas penduradas em postes, sem tampa, com seus fios pendurados por todos os lados, faiscando, prontos para explodir. E o povo, aquele que deveria ser prioridade, continua com sua resistência quase sobre-humana, aprendendo a viver no improviso, transformando apagão em piada e enchente nas ruas em piscinas naturais, cheias de restos de esgoto.
Aqui, cada escândalo político é uma série de TV, com enredo absurdo, que estão completamente fora das leis, personagens caricatos, vilões que se reelegem como quem muda de figurino. O que seria aberração em qualquer lugar do mundo, por aqui é rotina, apenas mais um dia no escritório tropical, com café fraco e promessas vencidas.
Não temos ordem, nem progresso. Temos o cínico bom humor, temos resiliência deformada, temos carnaval para esconder ruínas. O Brasil é como aquele prédio torto que não cai só porque já se acostumou com o próprio desequilíbrio.
E seguimos, entre tapas e memes, nesse balé de contradições. Uma pátria onde o lema da bandeira virou piada interna, só que ninguém mais ri de verdade.














