Eu sou autista (não pessoa com autismo, se possível nunca use pessoa com autismo, para entender melhor essa questão linguística específica veja: aqui . Eu amo o meu autismo. Meu, porque o autismo não existe fora de mim. Não pode ser separado de mim da mesma forma que eu não posso ser separada da cor da minha pele. Muitos neurotipicos não entendem quando eu falo, ou melhor, quando nós, toda a comunidade autística, usamos a linguagem identidade-primeiro e dizemos que amamos o nosso autismo. Eles tendem a achar que estamos "romantizando". (engraçado é quando essa mesma pessoa, que nos acusa de "romantizar" o autismo aparece 5 minutos depois falando "autistas são anjinhos de luz azul índigo, incapazes de mentir, que vieram para trazer a paz na Terra..." ¬¬ , mas não vou entrar nesse mérito hoje). Quando o neurotípico vem com essa história de romantizar para mim, eu começo explicando que comorbidades do autismo (como transtorno do processamento sensorial ou epilepsia) não é o autismo. Explico que muito do nosso avanço tecnológico se deve aos autistas e que eles muito dificilmente teriam feito essas invenções se fossem neurotípicos. Explico que querer que todo mundo seja igual e "perfeitinho" é eugenia, um ideal nazista. Explico que o valor de uma pessoa não depende do quanto ela é "produtiva" para a sociedade, ou seja, os autistas não precisam ser gênios savants para justificar sua existência. Algumas pessoas já entenderam essa parte (o que é muito bom, já é meio caminho andado), mas continuam relutantes em dizer que amam o autismo. Ainda acham que é "romantização". Então hoje eu vou lhes ajudar nessa tarefa: De entender o que é o orgulho autista e como isso não é "romântico". Primeiramente eu gostaria que o mundo inteiro percebesse uma coisinha: A grande maioria dos problemas que autistas tem, que parecem ser causados pelo autismo, não é causado pelo autismo. E eu não tô falando de comorbidades. Eles são causados pela sociedade. O mesmo vale para todas as outras deficiências. Isso é uma coisa que chamamos de MODELO SOCIAL DE DEFICIÊNCIA. (você pode se informar um pouco mais sobre isso aqui e aqui , mas principalmente aqui em inglês ) Vou resumir para quem não fala inglês e tá com preguiça: Esse modelo veio complementar o modelo médico de deficiência. O modelo médico diz que tudo que saia do padrão é uma anomalia a ser corrigida, que a pessoa é que falta de algo, ela é a deficiente, então ela que "se vire" para se encaixar na sociedade. Já o modelo social vai dizer que o que sai do normal é diversidade humana, que deve ser celebrada como qualquer outra diversidade. O modelo social diz que a deficiência não está na pessoa, não é ela quem está em falta de algo, é a sociedade quem falta com ela e é sociedade que deve se adaptar a pessoa, não o contrario. Vamos usar exemplos claros: Não é deficiência do cego não poderia ler muitos livros ou assistir seriados. É uma deficiência da sociedade não oferecer todos os livros em braile e áudio descrição para os seriados. Não é o cadeirante que tem problemas de locomoção, é a sociedade que tem que resolver o problema de colocar rampas e elevadores em todos os lugares. Muito bem, mas como isso se aplica ao autismo? Muito se diz que os autistas "não são capazes de se comunicar". Epa, perai! Será mesmo que eles não são capazes, ou somos nós, sociedade, que não lhe oferecemos um método de comunicação alternativa (CAA) que se encaixe? Existem tantas formas de comunicação, libras, peccs, escrita, até mesmo aplicativos para tablet. São tantas e variadas opções. E lembrando que comportamento é comunicação. Eu não acredito que exista um unico autista que não consiga usar pelo menos um desses métodos. Mas parece que vivemos numa "idolatria" a oralidade, que não for pela fala não é comunicação. (Idolatria essa que está prejudicando não só autistas, mas também surdos e outras deficiências da comunicação.) Alguém poderá dizer "autistas vivem no seu próprio mundo". Meu filho, isso é um mito deslavado. esse vídeo-manifesto da Amanda Baggs, em inglês pode lhe esclarecer. Fiz uma tradução das legendas aqui Mesmo depois de tudo isso, ainda se pode dizer que existe uma parte minúscula de problemas que são causados pelo autismo mesmo mesmo. não tem jeito de ser a sociedade. Sim, eu concordo que essa parte existe, mas mesmo assim, não afeta minha identidade autista e nem o meu orgulho autista. Como assim, você se pergunta. Vou usar uma alegoria, algo que também não escolhermos, simplesmente nascemos: nacionalidade. Eu sou brasileira. Eu amo o Brasil e tenho orgulho de ser brasileira. É fácil entender que quando eu falo isso, eu não estou "romantizando" o Brasil e nem deixando de enxergar os problemas enormes que temos (corrupção, serviços precários, etc...). Eu amar o Brasil não significa que eu me acomodo com esses problemas, muito pelo contrário! É justamente por amar o Brasil que eu vou lutar pelo melhor. E protestar por melhorias não significa que estou indo contra o Brasil, na verdade, eu estou indo a favor do Brasil. Mas também não vou cair no erro de querer transformar o Brasil em outro país. O Brasil não precisa abandonar a sua cultura, as coisas que lhe fazem único, como se essa fosse a única forma de melhorar. Nunca que eu me definiria como "pessoa COM nacionalidade brasileira" e sim, simplesmente como "pessoa brasileira". (eu poderia continuar, mas acho que já fiz o meu argumento). Por fim, por favor, entendam que quem está dizendo "cuidado com o excesso de terapias, não sobrecarrege seus filhos" e "seja ser você mesmo" não é uma pessoa aleatória na rua que não sabe nada sobre autismo. Quem está falando isso são os próprios autistas. Procurando reafirmar sua identidade e valor, através do orgulho de ser autistas.