Lutas - Histórico da Capoeira
É importante dizer que as lutas são um conteúdo oficial da disciplina de Educação Física, apresentado pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. Entretanto, existem alguns argumentos que impedem que o professor incite essa prática. O primeiro deles é a falta de vivência da maioria dos professores com as lutas, ou seja, são poucos os que já lutaram antes; o segundo é a preocupação com a violência que se imagina que as lutas possam gerar.
Alguns estudiosos da área, como Nascimento e Almeida em “A tematização das lutas na Educação Física escolar” afirmam que a violência pode sim se apresentar como consequência das lutas, mas também pode se apresentar durante a prática do futebol e do basquetebol, por exemplo. Tudo depende de como o professor conduzirá a aula.
A capoeira por ser uma manifestação popular, rica de movimentos, cultura e bastante usada e difundida em nossa sociedade, precisa ser mais valorizada pela sua importância como forma desportiva, cultural e educativa. Pode ser trabalhada nos seus mais variados aspectos: dança, identidade, arte, luta, defesa pessoal, desporto, lazer, educação, folclore, preparação física, filosofia de vida. É praticada sem contra indicação por crianças, jovens, adolescente, adultos, terceira idade, pessoas portadoras de necessidades especiais em clubes, academias, escolas, universidades no Brasil e em vários países.
A capoeira é uma manifestação cultural afro-brasileira criada pelos negros escravos como forma de luta contra a opressão, luta esta que se travou no plano físico e cultural.
Nela encontramos elementos (musicalidade, a religiosidade, movimentos acrobáticos, dentre outros) que a tornam bastante peculiar. A capoeira é plural, ou seja, não é somente luta. É nela que o lúdico e o combativo se interpenetram, caracterizando-a como jogo, luta e dança ao mesmo tempo.
Como elemento ativo da dinâmica cultural, a capoeira hoje em dia, apresenta contornos bem diferentes daqueles que a originaram. Sua crescente desportivização, sua inserção no contexto educacional e a grande investigação acadêmica, tem levado esta manifestação a ganhar, cada vez mais, espaços institucionais, sendo considerada um importante instrumento de análise de aspectos relacionados população e cultura brasileira.
A origem da capoeira nos remete escravidão brasileira, pois ela foi gerada como elemento de resistência, física e cultural, dos negros cativos a opressão e violência sofridos nesta época.
A escravidão foi um dos pilares do sistema colonial, no qual o tráfico negreiro constitui-se em um dos negócios mais rentáveis da época para as metrópoles colonizadoras. Esses negros eram considerados mercadorias, reduzidos a coisas e totalmente submetidos s vontades de seus senhores. Eles foram trazidos para executar todos os tipos de trabalhos na Colônia. O cativeiro brasileiro foi marcado pela permanente vigilância e violência empregada contra os negros. O castigo, a humilhação e o medo foram formas de manutenção e controle deste sistema. Inúmeras maneiras de torturas foram instauradas para ameaçar e punir os negros que se rebelassem contra a sua situação. Os negros africanos, por não aceitaram passivamente o cativeiro, resistiam à condição de escravo de inúmeras maneiras, o suicídio e as fugas foram as mais frequentes. Elas ocorreram durante todo o período escravagista e a partir das fugas começaram a surgir os primeiros quilombos, que eram redutos nas matas dos negros fugitivos.
A capoeira foi criada neste contexto. A necessidade de autodefesa e de resistência opressão foram elementos propulsores da criação de uma técnica de defesa e ataque, no qual os negros utilizavam do seu próprio corpo para se confrontar com seus opressores. Como afirma Schwarcz (97) era necessário aos negros reinventarem sua própria existência para poder se adaptarem sua nova realidade. Neste sentido, a capoeira constituiu-se numa manifestação de resistência em que o seu universo simbólico e motor era carregado de elementos da sua cultura ancestral africana, como a religiosidade, a musicalidade, movimentos, costumes, etc.
Os aspectos lúdicos e combativos que estão presentes no jogo da capoeira, e a fazem uma manifestação tão peculiar, são exemplos desta reinvenção da existência. A capoeira apresenta essas características devido incorporação de elementos da cultura africana, rica em folguedos, jogos, rituais e também devido necessidade de dissimular a verdadeira intensão que havia por trás daquela brincadeira, daquela dança. Uma vez que demonstrada a sua verdadeira intensão a capoeira foi coibida.
A capoeira teve origem no meio rural. Sua passagem para os centros urbanos ocorreu no século XIX. Os principais centros onde a capoeira desenvolveu-se foram as cidades do Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Nestas cidades, várias manifestações afro-brasileiras, como o candomblé, o samba e a capoeira, foram veementemente perseguidas pelas autoridades sob o argumento de conter a barbárie negra, de conter a doença moral que proliferava nas cidades civilizadas.
Até a primeira metade do século XIX, a capoeira era uma manifestação exclusiva dos negros escravos. Com sua passagem dos meios rurais para os centros urbanos, outros setores da sociedade começaram a participar desta manifestação, principalmente as camadas subalternas da população, como ex-escravos, estrangeiros e, até mesmo, membros da elite. Embora pratica da capoeira estivesse associada à malandragem, Reis(97) afirma que grande parte dos praticantes tinham algum tipo de atividade produtiva, sendo a maioria ligada prestação de serviços. A adesão de outros seguimentos sociais prática da capoeira fez com que esta ganhasse maior penetração na sociedade, apesar da constante repressão e perseguição. Esta adesão trouxe inúmeras transformações no universo simbólico e motor da capoeira.
Outro fenômeno de grande importância nesta época, principalmente na cidade do Rio de Janeiro, foi a formação das "maltas" de capoeira. Essas maltas eram grupos organizados que, utilizando-se da capoeira, promoviam a violência e a desordem servindo aos mais diversos propósitos.
A participação de capoeiristas, principalmente os estrangeiros, recrutados para serviços militares, e atuando como soldados nas Guerras do Paraguai e Cisplatina, geraram uma representação positiva em relação a capoeira por parte da população, sendo estes considerados "heróis nacionais". Sabe-se, porém, que isto foi uma estratégia das autoridades para se livrar das figuras indesejáveis dos capoeiras.
Com a instalação do governo republicano provisório, os capoeiristas foram severamente perseguidos, sendo um dos principais alvos de repressão policial no início da república, recebendo, na revisão do Código de 1890, por meio do Decreto n.” 847, sob o título "Dos Vadios e Capoeiras", a seguinte sanção:
"art. 402. Fazer nas ruas ou pragas públicas exercícios de destreza corporal conhecido pela denominação de capoeiragem. Pena de 2 a 6 meses de reclusão. Parágrafo único. Considerado circunstância agravante pertencer o capoeira alguma banda ou malta. Aos chefes ou cabeças impor-se a pena em dobro."
Apesar da proibição a capoeira não desapareceu, embora tivesse sido bastante erradicada a presença das maltas e a violência promovida por elas, sua prática continuava na clandestinidade. Era comum, nesta época, a deportação de capoeiristas para ilhas presídios, como a de Fernando de Noronha.
O toque de berimbau, denominado "Cavalaria", era executado para alertar os capoeiristas da vinda da polícia, assim, a roda de capoeira se desfazia rapidamente e os capoeiristas dispersavam-se. Nesta época, os capoeiristas eram conhecidos por apelidos, estratégia utilizada para dificultar a identificação dos mesmos.
Paralelamente a proibição e perseguição a capoeira foi ganhando espaços na sociedade, principalmente nos meios intelectuais e militares que "... preocupados com a própria viabilidade da nação brasileira e informados pelos princípios da medicina higienista, que propugnava a ginástica como meio profilático para a regeneração da raça" (Reis, 97), viram na capoeira uma luta "autenticamente nacional", uma "excelente ginástica". Neste momento histórico, a capoeira passou a ser vista também pelos seus aspectos positivos, ou seja, esta era fruto da mestiçagem ocorrida no Brasil e, portanto, algo genuinamente brasileiro. Este discurso favor da mestiçagem foi ganhando fora na medida em que as autoridades notaram a inviabilidade de negar o grande contingente negro que o Brasil possuía.
A legalização da capoeira ocorreu na década de 30, do século XX. Apesar das primeiras tentativas de legalizar esta prática tenham vindo do Rio de Janeiro, este fato somente ocorreu na Bahia. A mudança do eixo do maior centro de expressão nacional da capoeira, do Rio para a Bahia, ocorreu devido imagem pejorativa qual a capoeira carioca estava vinculada, imagem esta associada ao cio, malandragem, e violência promovida pelas maltas.
A descriminalização da capoeira ocorreu através da sua esportização. Era necessário "desafricanizá-la", colocá-la dentro dos valores aceitos pela classe branca para ampliar sua aceitação.
Neste contexto surge um importante personagem na história da capoeira baiana: Manoel do Reis Machado, o mestre Bimba. Esse se encontrava insatisfeito com a forma com que a capoeira estava sendo conduzida, dando Ênfase aos aspectos lúdicos, visando ao lucro em apresentações turísticas e se distanciando do caráter de luta que a gerou. Isso levou esse mestre a realizar profundas transformações na capoeira.
O fato de mestre Bimba ser um exímio lutador, que contava com um grande carisma popular, credenciou-o a impulsionar tais mudanças. Ele promoveu transformações nos aspectos físicos e simbólicos da capoeira, incorporando técnicas de outras lutas, criando rituais como, por exemplo, o da formatura. . Bimba foi o criador da capoeira regional baiana ou, simplesmente, capoeira regional.
As mudanças introduzidas por mestre Bimba não foram aceitas por toda a comunidade capoeiristas, que, a partir daí, dividiu-se em duas vertentes: capoeira de Angola e capoeira Regional.
- A capoeira de Angola
- Vale-se mais da astúcia do que da força muscular.
- Se assemelha a uma dana graciosa em que a ginga maliciosa mostra a extraordinária flexibilidade.
- Antes de tudo, luta e luta violenta.
- Movimentos mais rasteiros.
- Os principais golpes são: Cabeçada, Rasteira, Rabo de Arraia, Chapa de frente, Chapa de Costas, Meia Lua e Cutilada de Mão.
- Não existe graduação em forma de cordões na capoeira Angola.
- A capoeira regional
- Movimentos mais eficientes e aéreos.
- Boa para o físico e para a mente.
- A orquestra da capoeira Regional é formada por dois pandeiros e um berimbau.
- Na capoeira Regional existem os golpes BASICOS, os TRAUMATIZANTES e os DESEQUILIBRANTES. São eles: Aú, cocorinha, negativa, voo de morcego, apanhada, arrastão, balão de lado, banda de costas, benção, crucifixo entre muitos outros.
- Consiste em lenços amarrados no pescoço pela madrinha usados somente em época de formatura. Os lenços eram azuis, para os formados: vermelho e amarelo, para os especializados e finalmente o lenço branco para o mestre.
Á partir dos anos 60 houve um grande movimento de migração de capoeiristas baianos para vários estados brasileiros, principalmente para São Paulo e Rio de Janeiro. Decorrente deste fato, começaram a surgir os grupos de capoeira. Esses grupos são organizações que congregam seus participantes sob princípios filosóficos e técnicos, princípios estes que não são hegemônicos.
Além da condição física para treinar com Bimba, era necessário ser estudante ou trabalhador. Dessa forma, Bimba começava a afastar os “malandros” do cenário da capoeira, pois ele assumirá que “na capoeira havia trabalhadores, tanto quanto malandros” e para ele ser malandro era “ter passagem no meio das “classes perigosas”, entre ladrões, prostitutas, jogadores, viver em cortiços, exercer certo domínio sobre uma área.
A capoeira pode ser dada nas aulas de educação física como forma de aprimorar capacidades motoras tais como: Equilíbrio, força, flexibilidade, sensório motor, temporal e espacial, agilidade entre tantas outras, auxiliando assim o desenvolvimento desde a infância, realizando ainda a disseminação da cultura brasileira e a relação social entre as crianças e adolescentes.











